sexta-feira, 26 de junho de 2026

Dos campos de várzea para a Copa do Mundo, Mauro Calliari, FSP

 Antes de levantar a taça do pentacampeonato em 2002, Cafu pediu para um membro da comissão técnica escrever com uma caneta grossa em sua camisa: "100% Jardim Irene". A cena chamou a atenção do mundo: o capitão da seleção homenageou não só seu país, mas o bairro de onde veio. Ou, como diz o próprio Cafu, a sua quebrada, a sua favela, a sua comunidade.

A Netflix lançou uma minissérie que ajuda a entender um pouco do mundo do futebol nas periferias de São Paulo — Várzea: Onde Nasce o Futebol. O documentário gira em torno de um campeonato que reúne clubes de várzea de todas as partes da cidade. Os times se matam em campo pela sua quebrada, seja o ASA da Vila Prudente, o MEC da Cidade Tiradentes, o Milianos de Campo Limpo ou o Raça Ruim da Vila Matilde.

O jogo é feroz, a torcida é barulhenta, juízes e bandeirinhas são xingados; na preleção, um técnico agarra o atacante e vocifera: "Tem que jogar com o sentimento da comunidade, tem que guerrear". A metáfora da guerra, aliás, embalada pelo rap, é permanente: "Aqui é matar ou morrer". Armas aparecem em várias cenas.

O craque Raphinha, do Barcelona e da seleção, que começou na várzea da comunidade Restinga, em Porto Alegre, também aparece na série e confirma: "Em nenhum outro jogo sofri tanta pressão como num jogo da várzea".

Jogadores com uniformes amarelos e azuis se abraçam e se apoiam em uma cerca de arame farpado, demonstrando exaustão ou tristeza após partida.
Cena da série documental 'Várzea: Onde Nasce o Futebol', da Netflix - Divulgação

A série dialoga sem querer com o urbanismo paulistano. As próprias várzeas, que emprestaram seu nome para o futebol (em outros estados, o futebol amador tem outros nomes; no Rio de Janeiro, por exemplo, é chamado de futebol suburbano), não existem mais como tal.

As várzeas dos rios eram enormes espaços vazios, que enchiam ou esvaziavam com o ciclo das águas do Tietê, do Tamanduateí e do Pinheiros. Foi nesses espaços que surgiram as centenas de campos de futebol e clubes, como Espéria e Germânia 1899 ou o Corinthians, em 1910.

Ao final do século 19 e ao longo do século 20, a várzea vai sendo ocupada gradual e inexoravelmente. Primeiro vieram os trilhos dos trens, depois as grandes obras de saneamento, a retificação dos rios e o golpe fatal, as marginais, cortando o contato dos paulistanos com as águas onde nadavam, pescavam e remavam e também com as várzeas onde jogavam. A ocupação urbana fez o resto: onde havia campos de futebol, há shoppings de materiais de construção e condomínios gigantes.

Sem espaço nas várzeas, os campos foram migrando para as periferias. Em algumas favelas, o campinho, de terra ou grama sintética, é o único espaço público aberto. A Prefeitura informa que existem aproximadamente 200 campos de futebol públicos espalhados pela cidade, fora número desconhecido de campos privados. Estima-se que haja ainda mil times em atividade em São Paulo, mais ou menos estruturados.

Os jogadores sonham com os times grandes, mas não é só o futebol profissional que está em jogo. É também o lazer dos jovens, que depende de espaços que sobrevivam ao crescimento urbano. Se o futebol era jogado nos campos de várzea, nos terrenos baldios e na rua, hoje, as crianças só jogam na educação física da escola ou nos clubes e escolinhas particulares de futebol, para poucos.

A cada vez que alguém perde a chance de brincar de bola, perde também a chance de encontrar amigos, de aprender a ganhar e perder, e a conviver com pessoas diferentes. O professor de educação física e ex-técnico de vôlei do Minas Tenis Clube, João Crisóstomo, que, quando criança e adolescente nas décadas de 1950 e 60, jogou na várzea, me explicou que o futebol —e o brincar— ajudam no crescimento motor dos adolescentes e estimulam a capacidade de encontrar solução para seus problemas.

Portanto, não é apenas com a falta do celeiro de craques que devemos nos preocupar, mas com os espaços de convivência e de formação de cidadãos. Futebol também é política pública.

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