Lembram-se de quando, em 2013 e 2014, milhões de brasileiros foram às ruas exigir "hospitais padrão Fifa"? Lembram-se de que, mais de uma década antes do pontapé inicial, o Qatar já era obrigado a se defender de acusações de corrupção e violação dos direitos humanos? Lembram-se de que a África do Sul apresentou a Copa como um projeto nacional de desenvolvimento?
Um mundial é sempre mais do que um mês de futebol. É um processo longo de debate público, investimentos estatais e privados, disputas de poder e organização logística.
Menos em Portugal. A quatro anos do início do evento, os portugueses esqueceram-se de que têm uma Copa para coorganizar, juntamente com Marrocos e Espanha. Salvo raras notícias em jornais esportivos e reuniões burocráticas na Fifa, o país comporta-se como se não lhe tivesse sido atribuída a coorganização do maior evento midiático do planeta.
Os otimistas dirão que não há razão para dramatismo. Portugal organizou a Eurocopa de 2004, ganhou experiência, construiu estádios, recebeu milhares de torcedores estrangeiros e projetou uma imagem de competência. Em 2030, acrescentarão, o país receberá apenas seis jogos, distribuídos por três estádios já existentes (Luz, Alvalade e Dragão). Não haverá, portanto, necessidade de grandes obras, grandes sacrifícios orçamentários ou grandes debates nacionais.
O problema é que Portugal, hoje, não está preparado para essa pressão. O velho aeroporto de Lisboa é uma infraestrutura moribunda, mantida de pé por remendos e negação política. O novo, a ser inaugurado só em 2037, está sendo planejado desde 1954.
Os hospitais enfrentam rupturas cíclicas, urgências encerradas e falta de profissionais. Os transportes metropolitanos continuam insuficientes para a escala das áreas urbanas que servem. A ligação ferroviária entre Lisboa e Porto (Alfa Pendular e Intercidades) oferece um serviço irregular, caro, com atrasos recorrentes e material circulante herdado dos anos 1990. A habitação e a hotelaria, sobretudo em Lisboa e no Porto, já funcionam sob uma pressão turística e imobiliária que o mundial tenderá a agravar.
O mais inquietante, porém, é que quase nada disso está sendo discutido. Não há verdadeiro debate público sobre a Copa de 2030 em Portugal. Não há uma conversa nacional sobre custos, prioridades, riscos, responsabilidades ou legado. Não há escrutínio sobre o que caberá ao Estado, às prefeituras, à Federação Portuguesa de Futebol, aos clubes e à iniciativa privada.
Não se fala de responsabilidades, porque as responsabilidades, quando nomeadas cedo demais, perdem a delicada utilidade de poderem ser repartidas depois. Não há discussão séria sobre transportes, saúde, segurança, hospedagem, preços, mobilidade urbana ou impacto turístico. O país se candidatou, celebrou timidamente a escolha em 2024 e depois mergulhou num silêncio profundo.
Na Espanha, o governo criou por decreto uma Comissão Interministerial para coordenar a organização da Copa de 2030, presidida pela ministra da Educação, Formação Profissional e Esportes, com representantes de 15 ministérios. A estrutura foi posteriormente desdobrada em grupos de trabalho para articular a ação pública em torno do evento.
Marrocos, por outro lado, criou a Fundação Marrocos 2030, um órgão específico para coordenar a preparação da Copa entre governo, autoridades locais, setor privado e federação. E vinculou o evento a uma agenda de investimentos em ferrovias, aeroportos, rodovias, hotéis e requalificação urbana.
A última notícia publicada pelo Público, o maior diário português, sobre a organização do evento em Portugal data de dezembro de 2024. O título dizia quase tudo: "É oficial: Portugal vai receber Mundial 2030 —mas não sabe que retorno financeiro terá." Segundo o jornal, o governo admitia desconhecer quanto teria de investir e qual seria o retorno, embora acreditasse que o saldo final seria positivo.
As últimas palavras públicas relevantes de Luís Montenegro, primeiro-ministro de Portugal, sobre a Copa remetem também a dezembro de 2024, quando o país foi confirmado como coanfitrião e ele classificou a escolha como um "momento muito positivo".
Mas não nos preocupemos. Portugal sabe improvisar bem. É uma tecnologia antiga, aperfeiçoada nas repartições, nos gabinetes e nas antecâmaras do poder. Adia-se sem parecer ocioso, hesita-se sem parecer medroso, espera-se que o acaso faça metade do serviço e, depois, assina-se o resultado com ar de estadista. O atraso, quando bem apresentado, também pode parecer uma forma superior de governo.

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