Sociedades florescem na diferença. Não concordo com o que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizeres. Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos; são dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.
É notável como essas passagens, singelas na expressão clássica do pensamento democrático, soam deslocadas em nosso tempo. De formas variadas, caminhamos no passado recente para a erosão das capacidades de convívio na diferença, substituindo-as pelo espírito de grupo, afirmação de certezas e satanização da divergência nos mais diversos espaços —do convívio familiar ao debate político, de escolas e universidades a ambientes de trabalho, de espaços públicos a meios de comunicação.
As razões são, sabidamente, muitas. Nos deparamos neste período com a emergência de múltiplas crises compartilhadas —econômicas, ambientais, sanitárias, de confiança e efetividade da representação política. E vivenciamos uma profunda transformação da arena pública, migrada para ambiente digital marcado pela contradição de fazer-nos muito mais próximos e somar incontáveis vozes ao debate, ao mesmo tempo que moldado para fomentar conflito e fragmentação em lugar de escuta, diálogo construtivo e compreensão mútua. É difícil afastar a hipótese de termos até aqui falhado coletivamente na resposta a essas dinâmicas.
Difícil igualmente dissociá-las de contextos coletivos, no Brasil e no mundo, crescentemente incapazes de afirmar coexistência, gerir conflitos de forma produtiva e construir soluções para os múltiplos desafios que se avolumam diante de nós: econômicos, sociais, ambientais, de paz e segurança, modos de convivência e produção de direitos, bem-estar e prosperidade na arena comum.
Diante disso, pode ser assim paradoxalmente valioso revisitar juntos os sentidos mais singelos do projeto democrático, como os evocados acima: em tempos de polaridades tóxicas, impossibilidades de convívio e percepção crescente de ameaças, lograr recordar que do livre debate de ideias e da soma de repertórios na sociedade emerge mais bem público no fim do dia do que se a qualquer de nós for dado apontar os caminhos individualmente.
Que sociedades dispostas a isso, abrigando com efetividade repertórios culturais, espirituais, econômicos, científicos e políticos diversos, são fontes de vitalidade e notavelmente mais aptas a vencer desafios e produzir avanços em todas as instâncias da vida coletiva. Que para isso ser possível é preciso saber cultivar tolerância, lembrar que o desafio da liberdade será sempre antes de tudo o de sua extensão ao outro, distinto de nós, que verdade é conceito fugidio, não apropriável por ninguém, e que a exposição à divergência, se por não raro causar desconforto ou indignação, é condição vital de crescimento individual e coletivo.
São lembranças simplórias, e podem naturalmente soar ingênuas no contexto. Mas sem as quais será ao mesmo tempo impossível refazer as bases para instituições democráticas sólidas e a substituição de conflagração por soluções na agenda pública.
Movidos por isso, iniciamos em abril último, ao lado de grupo inspirador de vozes na arena cidadã, a formação de espaço novo voltado à reafirmação desses princípios entre nós. Buscando acolher e reunir atores identificados com eles ao longo do espectro social e político, a Mesa Plural propõe-se a atuar como plataforma aberta ao diálogo franco, revalorização de práticas vocacionadas a ele e renovação do convívio democrático no cotidiano.
Neste ano eleitoral, e além dele, na vida política, mas não só nela, que possamos ser capazes de reavivar os sentidos de uma esfera pública aberta e generosa, definida não pela convergência ou unidade mas pelo dissenso virtuoso e enriquecedor, vocacionada a prover genuinamente reconhecimento e respeito plenos a todos os seus integrantes. E lembrar sempre que será dela, para além do que nos distingue e separa, que poderão emergir destinos comuns possíveis e duradouros, em tudo que nos desafia.

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