quarta-feira, 10 de junho de 2026

Arquitetura deve regenerar comunidades e não apenas mitigar impactos, FSP

 Laura Penna

Sócia-diretora da GPAA e presidente da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura - Regional Minas Gerais (AsBEA-MG)

Cinthia Gerardi

Co-CEO do Sistema B Brasil, é administradora formada pela ESPM, com pós-graduação em Ciências Sociais e mestrado em Sustentabilidade e Estratégia Climática pela FGV

Transformar o futuro passa por agir agora. Não há mais espaço para adiar decisões que norteiam como criamos e habitamos nossos territórios. O setor de construção e edificações responde por mais de um terço da energia consumida no mundo e por 40% das emissões de carbono relacionadas à energia. Isso o coloca no centro da transição climática.

A arquitetura e o urbanismo influenciam essa cadeia do início ao fim, dando forma a escolhas construtivas, e devem ser agentes de um novo paradigma.

Não basta mitigar impactos negativos. É necessário propor e incorporar fatores sociais, ambientais e econômicos desde o projeto, buscando multiplicar impactos positivos capazes de regenerar comunidades.

Vista aérea mostra vários edifícios altos em área urbana densa. Um dos prédios tem heliponto marcado com um 'H' amarelo em fundo azul. A imagem destaca a arquitetura moderna e ruas estreitas entre os prédios.
Vista aérea do Edifício Copan no aniversário de 60 anos do Edifício Copan. O prédio passou por renovação nos últimos anos, com novos espaços de moda, gastronomia e cultura - Zanone Fraissat - 22.mai.2026/Folhapress

Vemos sinais de que essa agenda começa a sensibilizar arquitetos, construtoras e investidores no Brasil. Em 2024, o país figurou entre as dez nações com maior área de edificações certificadas pelo selo Leed, referência internacional em desempenho energético e ambiental.

Há uma adoção crescente de técnicas construtivas que reduzem as emissões, o consumo de recursos naturais e o desperdício, como soluções bioclimáticas, reuso e rastreabilidade de materiais e a industrialização de componentes.

Os benefícios econômicos são claros: prédios certificados geram economias operacionais, costumam atrair ocupantes mais rapidamente e manter taxas de vacância mais baixas.

O uso mais equilibrado dos recursos é um passo importante, mas precisamos ir além. Uma arquitetura social e ambientalmente responsável reconhece que cada projeto tem múltiplos clientes: o contratante, o terreno, a paisagem, a comunidade que o recebe.

É fundamental também dialogar com a história, o presente e o futuro do lugar. Uma soma de tempos, traduzida pela sensibilidade e a criatividade.

É com esses princípios que o escritório de arquitetura e urbanismo GPAA (Gustavo Penna Arquitetos Associados) atua há mais de 50 anos. Responsável por projetos como o Memorial Brumadinho (MG), o Sesi Lab, em Brasília, e o Parque Ecológico da Pampulha, em Belo Horizonte, foi um dos primeiros escritórios do país a se certificar como Empresa B.

Isso reflete um compromisso reafirmado pela empresa a cada dia: trabalhar com clientes e parceiros que acreditam em uma arquitetura que vai além de produtos imobiliários rentáveis e cria espaços que ampliam o ser humano e tornam a cidade mais generosa.

Tornar-se uma Empresa B é demonstrar a consciência de que somos interdependentes. É se unir a uma rede global de 10 mil empresas orientadas pela lógica de que sucesso não se mede apenas pelo financeiro, mas principalmente pela criação de prosperidade compartilhada e regeneração ambiental.

No Brasil, apenas quatro empresas do segmento de arquitetura e urbanismo possuem a certificação, demonstrando seu pioneirismo e, ao mesmo tempo, o grande desafio pela frente.

O Sistema B tem como missão apoiar as empresas na jornada de gestão de impacto. Medir, reportar e agir de forma transparente são pilares da Avaliação de Impacto B, que envolve padrões avançados em temas como clima, trabalho digno e governança —com critérios ainda mais ambiciosos a partir de 2026. A certificação não deve ser vista como um fim, mas consequência desse caminho de evolução.

Além de gerenciar seus impactos, arquitetos e urbanistas têm papel central na promoção de cidades mais resilientes e inclusivas. Ainda que essa agenda não tenha avançado como esperávamos na COP30, a importância das áreas urbanas no combate às mudanças climáticas é um consenso.

Com quase 60% da população mundial, elas concentram três quartos das emissões de gases de efeito estufa. Reverter esse cenário é um grande desafio do século 21.

No Brasil, a infraestrutura precária e a desigualdade urbana são expressões de um modelo de crescimento que ignora a escala humana. Ruas congestionadas, muros altos e indiferentes ao entorno, calçadas estreitas e escassas áreas verdes compõem o retrato de cidades que afastam a paisagem natural e reduzem a resiliência climática.

Precisamos substituir o cinza por parques, praças, jardins de chuva, renaturalizar córregos e áreas de inundação controlada. Mais que projetar edifícios, recompor o tecido urbano. Devolver o térreo à cidade, ativar fachadas, abrir jardins para a calçada.

Quando o edifício interage com a rua, cria vitalidade e pertencimento, melhorando a segurança e a qualidade de vida.

Conhecimento e tecnologia para isso existem, mas a escala de transformação exige mais: colaboração e compromisso de arquitetos e urbanistas em serem parte fundamental da solução.


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