Laura Penna
Transformar o futuro passa por agir agora. Não há mais espaço para adiar decisões que norteiam como criamos e habitamos nossos territórios. O setor de construção e edificações responde por mais de um terço da energia consumida no mundo e por 40% das emissões de carbono relacionadas à energia. Isso o coloca no centro da transição climática.
A arquitetura e o urbanismo influenciam essa cadeia do início ao fim, dando forma a escolhas construtivas, e devem ser agentes de um novo paradigma.
Não basta mitigar impactos negativos. É necessário propor e incorporar fatores sociais, ambientais e econômicos desde o projeto, buscando multiplicar impactos positivos capazes de regenerar comunidades.
Vemos sinais de que essa agenda começa a sensibilizar arquitetos, construtoras e investidores no Brasil. Em 2024, o país figurou entre as dez nações com maior área de edificações certificadas pelo selo Leed, referência internacional em desempenho energético e ambiental.
Há uma adoção crescente de técnicas construtivas que reduzem as emissões, o consumo de recursos naturais e o desperdício, como soluções bioclimáticas, reuso e rastreabilidade de materiais e a industrialização de componentes.
Os benefícios econômicos são claros: prédios certificados geram economias operacionais, costumam atrair ocupantes mais rapidamente e manter taxas de vacância mais baixas.
O uso mais equilibrado dos recursos é um passo importante, mas precisamos ir além. Uma arquitetura social e ambientalmente responsável reconhece que cada projeto tem múltiplos clientes: o contratante, o terreno, a paisagem, a comunidade que o recebe.
É fundamental também dialogar com a história, o presente e o futuro do lugar. Uma soma de tempos, traduzida pela sensibilidade e a criatividade.
É com esses princípios que o escritório de arquitetura e urbanismo GPAA (Gustavo Penna Arquitetos Associados) atua há mais de 50 anos. Responsável por projetos como o Memorial Brumadinho (MG), o Sesi Lab, em Brasília, e o Parque Ecológico da Pampulha, em Belo Horizonte, foi um dos primeiros escritórios do país a se certificar como Empresa B.
Isso reflete um compromisso reafirmado pela empresa a cada dia: trabalhar com clientes e parceiros que acreditam em uma arquitetura que vai além de produtos imobiliários rentáveis e cria espaços que ampliam o ser humano e tornam a cidade mais generosa.
Tornar-se uma Empresa B é demonstrar a consciência de que somos interdependentes. É se unir a uma rede global de 10 mil empresas orientadas pela lógica de que sucesso não se mede apenas pelo financeiro, mas principalmente pela criação de prosperidade compartilhada e regeneração ambiental.
No Brasil, apenas quatro empresas do segmento de arquitetura e urbanismo possuem a certificação, demonstrando seu pioneirismo e, ao mesmo tempo, o grande desafio pela frente.
O Sistema B tem como missão apoiar as empresas na jornada de gestão de impacto. Medir, reportar e agir de forma transparente são pilares da Avaliação de Impacto B, que envolve padrões avançados em temas como clima, trabalho digno e governança —com critérios ainda mais ambiciosos a partir de 2026. A certificação não deve ser vista como um fim, mas consequência desse caminho de evolução.
Além de gerenciar seus impactos, arquitetos e urbanistas têm papel central na promoção de cidades mais resilientes e inclusivas. Ainda que essa agenda não tenha avançado como esperávamos na COP30, a importância das áreas urbanas no combate às mudanças climáticas é um consenso.
Com quase 60% da população mundial, elas concentram três quartos das emissões de gases de efeito estufa. Reverter esse cenário é um grande desafio do século 21.
No Brasil, a infraestrutura precária e a desigualdade urbana são expressões de um modelo de crescimento que ignora a escala humana. Ruas congestionadas, muros altos e indiferentes ao entorno, calçadas estreitas e escassas áreas verdes compõem o retrato de cidades que afastam a paisagem natural e reduzem a resiliência climática.
Precisamos substituir o cinza por parques, praças, jardins de chuva, renaturalizar córregos e áreas de inundação controlada. Mais que projetar edifícios, recompor o tecido urbano. Devolver o térreo à cidade, ativar fachadas, abrir jardins para a calçada.
Quando o edifício interage com a rua, cria vitalidade e pertencimento, melhorando a segurança e a qualidade de vida.
Conhecimento e tecnologia para isso existem, mas a escala de transformação exige mais: colaboração e compromisso de arquitetos e urbanistas em serem parte fundamental da solução.

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