quarta-feira, 10 de junho de 2026

Recursos previdenciários para bancar São João, Romulo Saraiva, FSP

 Não é de hoje, mas existe uma prática histórica no país de gestores públicos usarem recursos previdenciários como espécie de cheque especial para avalizar projetos políticos. Isso num cenário otimista, pois nem sempre o dinheiro retorna. Esse (mau) hábito não caduca. Agora foi a vez do prefeito do Recife, Victor Marques (PC do B-PE), usar R$ 24,5 milhões do regime previdenciário de servidores municipais para financiar as festividades juninas.

Por meio de decreto, a canetada do prefeito Victor Marques retirou R$ 25,2 milhões do dinheiro da previdência dos servidores municipais, dos quais R$ 24,5 milhões foram alocados para o São João do Recife.

Em nota, o prefeito defende que não há qualquer irregularidade e "acompanha permanentemente a evolução das despesas e receitas para garantir que todas as obrigações sejam cumpridas com segurança". Mas não definiu prazo para devolução.

A imagem mostra uma decoração vibrante com tiras de papel colorido penduradas em um ambiente. As tiras estão dispostas em um padrão radial, criando um efeito visual dinâmico. As cores incluem roxo, laranja, verde, azul e amarelo, formando um arco-íris de tonalidades. A parte inferior da imagem apresenta bandeirinhas de papel em várias cores, complementando a decoração.
Decoração junina em salão do Centro de Tradições Nordestinas, em São Paulo - Rafaela Araújo - 3.jun.25/Folhapress

Este caso ocorreu em Recife, mas exemplifica uma tendência nacional por diferentes razões e formas. Recentemente, o Banco Master —usando políticos como peça da engrenagem— abduziu recursos financeiros de 18 fundos de pensão municipais e estaduais.

O uso de instrumento normativo, a exemplo de decretos, para autorizar o saque no cofre previdenciário existe desde antes da criação do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), na década de 90.

Em 1931, Getúlio Vargas autorizou o saque de receitas previdenciárias para a construção de casas e prédios populares. Em 1938, Vargas entendeu por bem usar recursos do IAP (Instituto de Previdência e Assistência), antecessor do INSS, para financiar bônus para crédito agrícola e industrial, bem como a construção da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) e da Chesf (Companhia Hidro Elétrica do São Francisco).

Já Juscelino Kubitschek foi mais desbravador. Em 1956 resolveu criar uma cidade no meio do nada com a ajudinha financeira dos institutos previdenciários da época.

Estes sucessivos saques, a perder de vista, justificam boa parte das reformas previdenciárias que os trabalhadores enfrentam na atualidade. Ou mesmo os minguados aumentos salariais no início de cada ano. Uma hora a conta chega!

Infelizmente se banalizou promover o desvio de finalidade do patrimônio previdenciário.

Ainda que o valor seja devolvido, não é para nenhum gestor utilizá-lo na execução de projetos. Pior ainda quando o prefeito, o governador ou o presidente da República não fazem a recomposição financeira do fundo previdenciário, seja por ter investido na pavimentação de uma estrada ou para o enriquecimento próprio.

Os fundos previdenciários existem para garantir o pagamento de benefícios futuros aos titulares e seus dependentes. Quando o dinheiro é desviado de sua finalidade original para custear obras, infraestrutura, outras despesas governamentais ou corrupção, ocorre uma redução do patrimônio disponível para honrar os compromissos previdenciários.

Tais práticas comprometem a sustentabilidade do sistema previdenciário e afeta diretamente os trabalhadores que dependem desses recursos para ter acesso a sua dignidade previdenciária.


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