sábado, 27 de junho de 2026

Reinaldo José Lopes - As leis da política e do dinheiro não vencem as leis da natureza, FSP

 Não conheço antídoto melhor contra o cinismo e o autoengano, pragas gêmeas que corroem os cérebros da nossa espécie neste século, do que a ficção científica da americana Ursula K. Le Guin, que nos deixou em 2018. Ao ler nesta semana declarações de poderosos brasileiros sobre petróleo que só posso classificar como obscenas, o que me veio à cabeça é um diálogo do romance "Os Despossuídos", publicado pela autora em 1974.

No trecho do livro a que me refiro, dois físicos, membros de sociedades muito diferentes, estão discutindo geopolítica. Um deles, Demaere, proclama ser um realista: "Tanto o político quanto o físico lidam com as coisas tais como elas são, com forças reais, as leis básicas do mundo", diz ele. O outro, Shevek, responde com justificada ferocidade a essa conversinha mole:

"Você coloca as suas ‘leis’ mesquinhas e miseráveis, feitas para proteger a riqueza, as suas ‘forças’ compostas por armas e bombas, no mesmo nível que a lei da entropia e a força da gravidade? Sua mente caiu no meu conceito, Demaere!"

Diz o livro que Demaere passou o resto da vida recordando com vergonha o episódio. No mundo real, não tenho esperanças de que a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, e o presidente da Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro), Luiz Cesio Caetano, em algum momento sintam vergonha das patacoadas que proferiram sobre combustíveis fósseis. Aliás, Chambriard se declarou sem-vergonha, no sentido estrito do termo.

Mulher de cabelos castanhos e óculos sorrindo, vestindo jaqueta laranja e camiseta preta, em fundo azul com texto desfocado. Pessoa de costas com chapéu preto e jaqueta laranja aparece em primeiro plano.
Magda Chambriard, presidente da Petrobras, em palestra na refinaria Gabriel Passos em Betim, em Minas Gerais - Douglas Magno - 20.mar.26/AFP

"Não temos vergonha de produzir petróleo", disse ela, afinal, em evento organizado pela Firjan. Sobre a necessidade de transição energética para enfrentar a crise climática, a presidente tampouco mediu as palavras. "Não tem Plano Clima se não tiver sociedade, né? Então é muito fácil, olha, fecha tudo, vamos todo mundo para a selva e vamos ter um ar maravilhoso", afirmou. Já Cesio Caetano saiu-se com esta declaração radioativa: "O Rio de Janeiro é petróleo, veste petróleo, se movimenta com petróleo, se alimenta, vive e constrói com petróleo".

Credo. Eu não sei com quais especialistas em engenharia genética ele anda se consultando para conseguir metabolizar hidrocarbonetos fósseis, mas, da última vez que eu tinha checado, membros da espécie Homo sapiens continuam 100% dependentes da fotossíntese das plantas atuais, direta ou indiretamente, para se alimentar.

E tampouco comem dinheiro, por mais que Chambriard esperneie que abandonar o petróleo equivaleria a deixar de lado R$ 277 bilhões anuais em arrecadação.

A miopia atroz por trás da mania de achar que as "leis" da política e da economia são capazes de se sobrepor às leis da natureza é o que nos arrastou para o buraco em que estamos agora. Podemos discutir à exaustão (bem, à exaustão não, por favor, porque o tempo urge) o "como" da transição energética, mas a essência não muda: é lunático achar que vamos poder continuar queimando combustíveis fósseis indefinidamente. Nem "o Rio de Janeiro" nem ninguém vão continuar se vestindo, movimentando-se e vivendo com petróleo num mundo no qual falte água e seja muito mais difícil produzir comida.

No entanto, é esse mundo que as palavras e ações de ambos os presidentes estão tornando mais provável. Talvez achem que eles e seus filhos e netos são imunes às consequências. Não o são.

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