sexta-feira, 19 de junho de 2026

O segredo da corrupção, Helio Schwartsman, FSP

 Por que não conseguimos nos livrar da corrupção? A resposta curta é "porque ela funciona". Para cada esquema que identificamos e desbaratamos, como o caso Master ou o petrolão, é razoável supor que existam vários outros que permanecem abaixo do radar, satisfazendo as necessidades daqueles diretamente envolvidos, isto é, corruptores e corruptos. Já o dano é coletivo e extrapola os rombos bilionários que os economistas se esforçam para calcular. Há prejuízos também para a eficiência econômica, pela via da redução da competição, e para a própria coesão social, já que muitos cidadãos se sentem, com razão, vilipendiados pela roubalheira com participação de agentes públicos.

Fachada de edifício comercial com grandes janelas espelhadas que refletem outro prédio alto. A entrada tem colunas claras e painéis decorativos, com duas telas digitais coloridas nas laterais. Fios elétricos cruzam horizontalmente em frente ao prédio.
Predio onde funcionava Banco Master, do banqueiro Daniel Vorcaro sem identificação e com tapumes - Felipe Iruatã/Folhapress

O mundo, porém, é um lugar mais complicado do que nossas mentes gostam de imaginar. Por mais que amaldiçoemos a corrupção, ela ainda é, como gosto de afirmar aqui, a segunda melhor forma de organização da sociedade que existe. É obviamente inferior a um sistema no qual tudo funcione direitinho, segundo regras impessoais previamente estabelecidas, mas é superior a um regime no qual empreendimentos e a prestação de serviços possam ser bloqueados apenas pelo capricho de autoridades ou, ainda pior, um no qual as "concorrências" e outras disputas se resolvam à bala.

Passar do estágio da corrupção generalizada, que é a marca dos países subdesenvolvidos, para um em que ela seja residual é um processo gradual e que exige a punição a casos identificados, a fim de que os efeitos dissuasórios da aplicação da lei possam se multiplicar. Isso vai acontecer agora?

Reservo-me o direito ao ceticismo. O caso Master é ecumênico. Atinge direita, esquerda e até instituições de controle como o próprio STF. Nenhum dos atores principais tem, portanto, interesse em investigar o escândalo muito a fundo. E isso, obviamente, favorece um acordão, pelo qual as punições ficariam limitadas a alguns bodes expiatórios.

Não frequento bets, mas existem duas apostas em que é difícil perder dinheiro: guerra no Oriente Médio e pizza no Brasil.


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