sábado, 6 de junho de 2026

Pra ver o Sena tem que ir a Paris, Antonio Prata - FSP

 Antonio Prata

Desde que surgiu o ChatGPT, a questão é repetida: será que as máquinas aprenderão a contar boas histórias? Produzirão contos, crônicas, romances, poemas, peças, roteiros de filmes e séries com profundidade, graça, beleza? Na mesma seara, em entrevistas com escritores virou pergunta obrigatória "Você usa IA no seu trabalho?".

Outro dia, num bar, um cara queria me convencer que se eu criasse os personagens, uma trama e pedisse pra uma dessas ferramentas misturar, sairiam ótimas cenas. Ele não entendia por que eu insistia no método anacrônico de buscar ideias dentro da minha cabeça.

Grande parte da graça de escrever está em descobrir sobre o que estamos escrevendo. Na maior parte das vezes as histórias não brotam prontas na cabeça de um escritor. O que aparece é uma imagem. Uma frase. Uma cena. Um fiozinho que o inconsciente lança do fundo de suas Fossas Marianas e que devemos puxar, até desenrolar todo o novelo. O cerne deste ofício é o processo, não uma noite de autógrafos ou uma estreia na TV.

Pessoa vestindo terno sentada em cadeira atrás de mesa com laptop, com água cobrindo o chão ao redor. Fundo apresenta cores vibrantes em tons de vermelho, amarelo e verde.
Adams Carvalho/Folhapress

Um belo dia surgiu na cabeça do escritor mineiro Campos de Carvalho um título: "A lua vem da Ásia". Ele não tinha a menor ideia do que significava. Sentou-se à máquina de escrever e depois de meses investigando apenas com as duas mãos e o sentimento do mundo, como diria um conterrâneo seu, terminou a história que começa assim: "Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa —e qual defesa seria mais legítima?— logrei ser absolvido por cinco votos a dois, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope, e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo."

William Faulkner escreveu "O Som e a Fúria" quando lhe veio a imagem de uma menina com a calcinha enlameada, em cima de uma árvore, olhando por uma janela para dentro de uma casa. Quem era a menina? Por que a calcinha estava enlameada? O que havia na sala? Foram essas perguntas que levaram à criação de um dos maiores romances do século 20.

Gabriel García Márquez sentiu o cheiro das goiabas caídas num quintal ao retornar à sua cidade, Aracataca, depois de anos distante. O turbilhão de memórias de infância que o arrebatou viria a dar em "Cem anos de solidão".

Se alguém escolheu escrever como ofício, deve-se desconfiar que algum prazer (ou ao menos, vá lá, algum sentido) tire da labuta —por mais difícil que ela seja. O trabalho, quando fruto de uma vocação e não da mera necessidade de subsistência, é um dos motivos que nos fazem querer sair da cama, toda manhã. Colocá-lo, não só nas letras, mas em todas as áreas, nas mãos do computador, é um caminho para a humanidade se alienar ainda mais de uma existência que já não anda, digamos assim, num patamar Dalai Lama de mindfulness.

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Espero o dia que o Google ou a Meta promoverão lentes de contato com uma realidade virtual que te garantirá sexo sem ter que tocar em ninguém. A tecnologia —pensemos no trampolim, no cavaquinho, na churrasqueira e na ultrassonografia— deveria estar a serviço da vida, nos ajudando a vivê-la mais plenamente, não a relegá-la a segundo plano, enquanto microchips, Sam Altman e Mark Zuckerberg gozam pela (e da) gente.


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