quarta-feira, 17 de junho de 2026

Interior de São Paulo Ponte do Esqueleto, de onde jovem saltou, foi de ambicioso projeto a ruína; conheça história, FSP

 Priscila Mengue

São Paulo

Em 1998, era interrompida uma ambiciosa tentativa de expansão, modernização e unificação da malha ferroviária de São Paulo: a Fepasa (Ferrovia Paulista S.A.). O fim da empresa controlada pelo governo paulista deixou projetos e obras inacabados — como a "ponte do Esqueleto", na divisa de Limeira com Cordeirópolis.

A estrutura abandonada deve ter o destino decidido em breve pelo governo federal, que a herdou após o fim da Fepasa e avalia se acatará a demolição defendida pelas prefeituras locais. A discussão ocorre após a morte da jovem de 21 anos lançada sem equipamento de segurança por instrutores de rope jump (salto com corda).

Viaduto de concreto com pilares altos cobertos por grafites em área verde com árvores e vegetação densa. Casas e chaminé aparecem ao fundo, indicando zona rural.
Ponte do Esqueleto, localizada em área rural na divisa entre Limeira e Cordeirópolis - Danilo Verpa - 15.jun.26/Folhapress

O caso não é a primeira morte no local, que tem registros de acidente grave de rope jump no ano passado e de uma ciclista em 2024, entre outros. Além disso, há problemas relatados por praticantes de esportes também na "ponte da Bica", ligada à mesma obra ferroviária inacabada, em área rural de Limeira.

Ambas as construções eram parte da chamada "variante de Ibicaba", planejada pela Fepasa e cujo contrato de desenvolvimento foi assinado em 1982 com a CBPO (Companhia Brasileira de Projetos e Obras). A rota passaria por Limeira, Cordeirópolis, Santa Gertrudes e Rio Claro, com 21 quilômetros, parte de um caminho ferroviário entre Boa Vista (Campinas) e Itirapina — pouco antes de São Carlos.

O projeto avançou em parte na década de 1990, com a desapropriação de chácaras, plantações de cana-de-açúcar, uma agropecuária, casas de loteamento popular e outras propriedades. O nome da variante fazia referência à fazenda histórica do século 19, preservada até hoje.

Documento oficial aponta o empenho de 75,9 milhões de cruzeiros em 1990, para 371 mil m² de desapropriações (além de indenizações aos que tiveram imóveis desvalorizados pela obra). As informações estão em processo administrativo federal a que a reportagem teve acesso.

Com a extinção da Fepasa, construções da variante de Ibicaba acabaram entre os bens classificados como "não operantes" quando recebidos pela RFFSA (Rede Ferroviária Federal S.A.). A sociedade de economia mista federal já estava em processo de extinção, decretada oficialmente em 2007.

Nesse cenário, ferrovias e material rodante considerados funcionais foram arrendados em novos contratos. Já o que era visto como inoperante ficou no limbo por anos (ou décadas, como no caso da ponte do Esqueleto).

Estrutura de concreto da Ponte da Bica vista por baixo, com tubulação presa na parte inferior. Vegetação densa ao redor e estrada de terra passando sob a ponte. Placa de limite de velocidade 20 km/h visível à direita.
Imagem de processo federal sobre caminho ferroviário inacabado em Limeira; na foto, ponte da Bica - Reprodução

O concreto e o ferro se deterioraram, então, sem chamar tanta atenção em meio à falta de manutenção, furtos de parte dos componentes e pichações. A ponte mais recentemente se tornou, contudo, um atrativo turístico, pelas paisagens do entorno e potencial esportivo.

Até a morte de Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, de 21 anos, ao menos três empresas operavam no local. Segundo o governo federal, o acesso ao local e atividades do tipo não eram autorizados. Os três instrutores que lançaram a jovem foram indiciados sob suspeita de homicídio com dolo eventual e estão presos.

Desde o óbito da ciclista em 2024 e o acidente grave em 2025, a continuidade da ponte tem sido questionada. O MP-SP (Ministério Público de São Paulo) e a Câmara Municipal de Limeira enviaram ofícios ao governo federal naqueles anos.

A resposta aos órgãos foi de que a estrutura então estava em processo de formalização entre o Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) e a SPU (Secretaria do Patrimônio da União). O procedimento foi concluído em maio de 2026, de acordo com a secretaria.

"Com a transferência de gestão, a SPU/SP poderá dar início à destinação do patrimônio para uso público de interesse social, podendo dessa forma apoiar os programas dos Municípios, que possam ser desenvolvidos no sentido de restringir o acesso ao local", apontou em ofício de setembro de 2025.

A Folha questionou sobre a demora para a incorporação da estrutura à SPU. O Dnit respondeu que foi incumbido apenas dos bens operacionais com a lei que regulou a extinção da RFFSA. Portanto, oficialmente, a travessia já pertencia à secretaria do patrimônio e nunca foi de propriedade do departamento de transporte.

Além disso, destacou ter enviado toda a documentação necessária para a incorporação pela SPU em março deste ano. Já a secretaria salientou buscar solução definitiva para a ponte, em diálogo com as prefeituras locais.

Por ora, o governo federal anunciou que instalará barreiras físicas na ponte e placas de aviso de que se trata de propriedade da União e que a entrada é proibida. Já a prefeitura de Limeira se comprometeu a reabrir a vala que havia sido feita a pedido da União em 2024, para dificultar o acesso.

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