Em 1998, era interrompida uma ambiciosa tentativa de expansão, modernização e unificação da malha ferroviária de São Paulo: a Fepasa (Ferrovia Paulista S.A.). O fim da empresa controlada pelo governo paulista deixou projetos e obras inacabados — como a "ponte do Esqueleto", na divisa de Limeira com Cordeirópolis.
A estrutura abandonada deve ter o destino decidido em breve pelo governo federal, que a herdou após o fim da Fepasa e avalia se acatará a demolição defendida pelas prefeituras locais. A discussão ocorre após a morte da jovem de 21 anos lançada sem equipamento de segurança por instrutores de rope jump (salto com corda).
O caso não é a primeira morte no local, que tem registros de acidente grave de rope jump no ano passado e de uma ciclista em 2024, entre outros. Além disso, há problemas relatados por praticantes de esportes também na "ponte da Bica", ligada à mesma obra ferroviária inacabada, em área rural de Limeira.
Ambas as construções eram parte da chamada "variante de Ibicaba", planejada pela Fepasa e cujo contrato de desenvolvimento foi assinado em 1982 com a CBPO (Companhia Brasileira de Projetos e Obras). A rota passaria por Limeira, Cordeirópolis, Santa Gertrudes e Rio Claro, com 21 quilômetros, parte de um caminho ferroviário entre Boa Vista (Campinas) e Itirapina — pouco antes de São Carlos.
O projeto avançou em parte na década de 1990, com a desapropriação de chácaras, plantações de cana-de-açúcar, uma agropecuária, casas de loteamento popular e outras propriedades. O nome da variante fazia referência à fazenda histórica do século 19, preservada até hoje.
Documento oficial aponta o empenho de 75,9 milhões de cruzeiros em 1990, para 371 mil m² de desapropriações (além de indenizações aos que tiveram imóveis desvalorizados pela obra). As informações estão em processo administrativo federal a que a reportagem teve acesso.
Com a extinção da Fepasa, construções da variante de Ibicaba acabaram entre os bens classificados como "não operantes" quando recebidos pela RFFSA (Rede Ferroviária Federal S.A.). A sociedade de economia mista federal já estava em processo de extinção, decretada oficialmente em 2007.
Nesse cenário, ferrovias e material rodante considerados funcionais foram arrendados em novos contratos. Já o que era visto como inoperante ficou no limbo por anos (ou décadas, como no caso da ponte do Esqueleto).
O concreto e o ferro se deterioraram, então, sem chamar tanta atenção em meio à falta de manutenção, furtos de parte dos componentes e pichações. A ponte mais recentemente se tornou, contudo, um atrativo turístico, pelas paisagens do entorno e potencial esportivo.
Até a morte de Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, de 21 anos, ao menos três empresas operavam no local. Segundo o governo federal, o acesso ao local e atividades do tipo não eram autorizados. Os três instrutores que lançaram a jovem foram indiciados sob suspeita de homicídio com dolo eventual e estão presos.
Desde o óbito da ciclista em 2024 e o acidente grave em 2025, a continuidade da ponte tem sido questionada. O MP-SP (Ministério Público de São Paulo) e a Câmara Municipal de Limeira enviaram ofícios ao governo federal naqueles anos.
A resposta aos órgãos foi de que a estrutura então estava em processo de formalização entre o Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) e a SPU (Secretaria do Patrimônio da União). O procedimento foi concluído em maio de 2026, de acordo com a secretaria.
"Com a transferência de gestão, a SPU/SP poderá dar início à destinação do patrimônio para uso público de interesse social, podendo dessa forma apoiar os programas dos Municípios, que possam ser desenvolvidos no sentido de restringir o acesso ao local", apontou em ofício de setembro de 2025.
A Folha questionou sobre a demora para a incorporação da estrutura à SPU. O Dnit respondeu que foi incumbido apenas dos bens operacionais com a lei que regulou a extinção da RFFSA. Portanto, oficialmente, a travessia já pertencia à secretaria do patrimônio e nunca foi de propriedade do departamento de transporte.
Além disso, destacou ter enviado toda a documentação necessária para a incorporação pela SPU em março deste ano. Já a secretaria salientou buscar solução definitiva para a ponte, em diálogo com as prefeituras locais.
Por ora, o governo federal anunciou que instalará barreiras físicas na ponte e placas de aviso de que se trata de propriedade da União e que a entrada é proibida. Já a prefeitura de Limeira se comprometeu a reabrir a vala que havia sido feita a pedido da União em 2024, para dificultar o acesso.


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