segunda-feira, 22 de junho de 2026

A política quer escolher até o nosso craque favorito, João Pereira Coutinho, FSP

 João Pereira Coutinho

Futebol é política. O Brasil sabe disso. Durante anos, a direita bolsonarista sequestrou a camisa da seleção para se apresentar como mais nacionalista, mais patriótica, mais popular. A esquerda permitiu esse roubo e só recentemente resgatou a camisa das mãos dos Bolsonaro. Já era tempo.

Não é caso único. O Financial Times dedicou algum espaço à guerra das camisas na América Latina. Na Colômbia, por exemplo, a questão chegou mesmo a um tribunal de Bogotá: será que Abelardo de la Espriella, o candidato presidencial de direita, pode aparecer em campanha com as cores da seleção colombiana?

Homem vestindo terno abre os botões de sua camisa, em alusão a superman, mas ao invés da logomarca do herói, o escudo da seleção brasileira é revelado
Ilustração de Angelo Abu para coluna de João Pereira Coutinho - Tirinha de 23 de junho de 2026 - Angelo Abu/Folhapress

Não pode, decidiu um tribunal do país. A sentença foi revogada por uma instância superior e Espriella continua de amarelo, azul e vermelho. O seu principal adversário, Iván Cepeda, passou a usar as mesmas cores.

Há algo de cômico nessas guerras. Há também algo de totalizante —e, num sentido mais forte, algo que recorda a ambição totalitária de transformar tudo em sinal político.

Nos regimes fascistas, o esporte não era apenas esporte. Era afirmação política do regime. A Copa do Mundo de 1934, na Itália, ou os Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, são exemplos extremos de manipulação do esporte para consagrar o poder.

Durante a Guerra Fria, o bloco soviético fez o mesmo: seus atletas não eram apenas atletas, mas soldados de uma guerra simbólica contra o Ocidente capitalista.

Além disso, a contaminação de todas as áreas da vida —esporte, cultura, comportamentos, amizades, etc.— pela ideologia é uma das facetas da lógica totalitária e da sua ambição de dominar integralmente a vida humana.

A única diferença é que, hoje, esse contágio não é exclusivo de regimes autoritários. As democracias também o praticam voluntariamente.

E quem fala de democracia fala de universidade. Soube pela imprensa brasileira de um estudo fascinante sobre Lionel Messi e Cristiano Ronaldo. Fui lê-lo. Recomendo. O título é "Political Identity Beyond Politics: The Messi-Ronaldo Preference Across 26 Countries". A tese está no título: a política quer escolher até nosso craque favorito.

Pessoas de inclinação progressista tendem, em média, a escolher Messi. Pessoas de inclinação conservadora tendem a ficar com o meu compatriota.

No imaginário popular, Messi está mais ligado à modéstia, ao coletivo, à discrição —valores associados à esquerda. Cristiano Ronaldo surge como mais dominante, mais autoafirmativo, mais centrado na excelência individual —valores mais facilmente associados à direita.

Sem surpresa, essa leitura ideológica dos jogadores é mais comum entre jovens, que nasceram e cresceram no circo da polarização. Ela diminui com a idade —prova de que Nelson Rodrigues tinha razão quando aconselhava os mais jovens a envelhecer.

Felizmente, envelheci. Gosto de Messi e de Ronaldo em partes iguais, talvez por ver em ambos estilos distintos e igualmente brilhantes. A política nada tem a ver com o assunto. Ou, se tem, desconfio que chegaria a conclusões opostas às do estudo.

Messi é um gênio natural. É a prova da radical desigualdade dos seres humanos, que nenhuma instituição, governo ou engenharia social é capaz de explicar ou anular.

Ronaldo é um gênio diferente: o produto da mobilidade social. De origem modesta e com inegável talento para o esporte, trabalhou incansavelmente para atingir a excelência.

Numa visão hierárquica da sociedade, Messi está no topo. É o típico aristocrata que herdou, sabe-se lá como, aquele talento monstruoso para o futebol.

Ronaldo também está no topo, mas não como aristocrata. Ele é mais o operário sonhado pelo socialismo ou pelo republicanismo cívico: alguém que atinge as alturas pelo esforço e pela abnegação.

Além disso, se o nacionalismo é percebido como uma virtude de direita, o estudo revela um contraste paradoxal. Entre os países que mais amam Messi está a Argentina, o que é lógico.

As paixões mais fortes por Ronaldo não estão em Portugal. O nacionalismo, ao menos nesse caso, rima melhor com Messi.

E o Brasil? Segundo o estudo, não tem uma preferência clara por nenhum dos dois. Como explicar? Essa atitude salomônica pode ser a expressão fiel de um país ideologicamente dividido: metade Messi, metade Ronaldo.

Mas pode ser também uma manifestação de desinteresse por uma rivalidade em que não há um craque brasileiro. A ideia de que Pelé é eterno pode ser mais forte do que as vulgaridades da política.

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