"A vida é curta demais para não ser louco", "só se vive uma vez", "saímos vivos ou saímos no jornal", "viva o extraordinário" e outras frases de efeito estão nas postagens daqueles que percorrem a trilha do funicular de Paranapiacaba.
O caminho clandestino pela Serra do Mar é popular nas redes sociais, com dezenas de milhares de fotografias e vídeos exibidos como provas de coragem.
Nem mesmo relatos de multas têm impedido passeios irregulares pela trilha "proibidona", que liga a vila de Paranapiacaba, em Santo André, no ABC Paulista, a Cubatão, na Baixada Santista.
Com anúncios que partem de R$ 70, guias e grupos de internet divulgam atividades com opções também de pernoite em uma casa de máquinas e prática de rapel em viaduto ferroviário desativado.
Segundo a Fundação Florestal, vinculada ao governo do estado, a entrada sem autorização e eventuais danos ambientais estão sujeitos a penalidades de R$ 2.000 a R$ 100 mil, a depender da infração e da gravidade.
A instituição diz manter rotina permanente de fiscalização e controle de acessos, com apoio estratégico da Polícia Militar Ambiental e da Guarda Civil Municipal de Santo André.
"O trabalho inclui patrulhamento constante, orientação a usuários, abordagens e a adoção imediata de medidas administrativas cabíveis diante de situações de uso irregular ou práticas esportivas não autorizadas na estrutura", apontou a fundação em nota.
A trilha do funicular é conhecida há anos como destino de aventura, mesmo com histórico de acidentes e até mesmo de morte. No último fim de semana, diferentes grupos passaram pelo caminho em 20 e 21 de junho.
A realização de atividades irregulares em estruturas ferroviárias ganhou repercussão após instrutores lançarem uma jovem sem equipamento de segurança em rope jump (salto com cordas) na ponte do Esqueleto, entre Limeira e Cordeirópolis, no interior paulista. A estrutura era uma obra inacabada da antiga Fepasa (Ferrovia Paulista S.A.).
Já a MRS Logística, responsável por área de concessão percorrida em parte pelas trilhas clandestinas, afirma investir em vigilância, vedação de acesso clandestino e rondas preventivas, entre outras medidas.
"Caminhar sobre os trilhos ou nas proximidades da ferrovia é extremamente perigoso e pode resultar em acidentes graves", destacou em nota.
Advertências feitas por outros trilheiros em redes sociais são chamadas de inveja e moralismo. Uma das principais páginas ligadas à prática no local admite a morte de um guia em 2020, mas trata o caso como exceção, assim como minimiza a aplicação de multas.
Por outro lado, alguns trilheiros têm apontado arrependimento e problemas durante a experiência. Os relatos recentes incluem presença de cobras, neblina, estruturas ferroviárias em deterioração, acidentes de diferentes gravidades e necessidade de resgate por bombeiros.
Os anúncios classificam a experiência com dificuldade de moderada a difícil ou 6/10. Há registros de trilhas realizadas mesmo em dias chuvosos e à noite.
A grande exposição do caminho em redes sociais incomoda, contudo, uma parte dos trilheiros pelo receio de que possa gerar incremento na fiscalização e nas autuações, como relatado em grupos.
A trilha acompanha infraestruturas ferroviárias entregues a partir de 1867 pela antiga São Paulo Railway, que utilizou sistemas de cabos para transpor a altitude da serra. Desse modo, permitiu o escoamento da produção de café de Jundiaí, no interior, até o porto de Santos.
Até hoje, há remanescentes de túneis, viadutos, pontilhões e diversas outras estruturas, tombadas como patrimônio cultural paulista.
Na região, há trilhas e atividades de aventura regulares. O parque natural municipal Nascentes de Paranapiacaba permite visitas monitoradas em trilhas, por exemplo, como as da Pontinha e do Mirante, enquanto o parque estadual Serra do Mar tem opções tanto na área de concessão dos Caminhos do Mar (antiga Estrada Velha de Santos) quanto em núcleos sob gestão da Fundação Florestal.


Nenhum comentário:
Postar um comentário