O Brasil ocupa a quinta posição entre 216 países e territórios em desigualdade de renda, segundo o Relatório da Desigualdade Global divulgado em 2025 pelo WIL (World Inequality Lab), grupo de pesquisadores liderado pelo economista francês Thomas Piketty.
O dado mais recente do governo brasileiro, divulgado pelo IBGE neste ano, indica que o Brasil teve um aumento de 1,3% no Gini, indicador utilizado para medir desigualdade, de 2024 para 2025. Somos um dos países mais desiguais do mundo e não temos sinais de que iremos sair dessa posição, ocupada há muitas décadas.
Um estudo publicado no Journal of Economic Inequality em janeiro deste ano apresenta a relação entre a percepção da desigualdade de renda e o bem-estar subjetivo. Utilizando dados de 33 países da Pesquisa Vida em Transição de 2016, que inclui informações sobre as mudanças na desigualdade percebida pelos indivíduos, o estudo mostra que essa percepção é importante para a satisfação com a vida.
Indivíduos que acreditam que a desigualdade aumentou estão, em média, 8% menos satisfeitos com suas vidas na comparação com os que não percebem o aumento dela. Talvez o mais surpreendente da pesquisa seja que levar em conta os níveis e mudanças factuais de desigualdade não altera esse resultado, ou seja, as percepções são mais importantes para a satisfação do que a desigualdade real. O que esse resultado gera de reflexão sobre o Brasil, um dos mais desiguais, de fato, do mundo?
Caso a percepção sobre desigualdade dos brasileiros fosse idêntica à desigualdade factual, ou seja, caso nossa sociedade percebesse o Brasil como ele é, não seria surpreendente esperar que estivéssemos muito tristes. Afinal, um bem-estar baixo por conta de uma altíssima disparidade econômica interna, que salta aos olhos do restante do mundo, é uma hipótese razoável. No entanto, não parece ser o que acontece.
O World Values Survey (WVS) é um projeto de pesquisa global que explora os valores e crenças das pessoas desde 1981. Na sétima e última onda da pesquisa (2017–2022), os brasileiros relataram níveis expressivos de bem-estar subjetivo; tipicamente, entre 80% e 90% dos entrevistados se identificaram como "muito felizes" ou "bastante felizes".
Outras pesquisas mais recentes, como o World Happiness Report, também mostram o Brasil entre as posições mais altas, sendo a Finlândia, a Islândia e a Dinamarca os grandes destaques.
Parece desafiador tentar relacionar esses três resultados: somos um dos países mais desiguais do mundo, a percepção da desigualdade é muito importante para o bem-estar e temos altos indicadores de bem-estar. Quais seriam as possíveis explicações para essa tríade intrigante?
Uma hipótese é que o Brasil talvez tenha algo diferente, as praias, o Carnaval ou outra coisa, que diminua o impacto da enorme desigualdade no bem-estar. Ou seja, o estudo do Journal of Economic Inequality não se aplicaria ao Brasil.
Outra hipótese é que a percepção sobre a desigualdade dos brasileiros esteja muito distante da realidade. Talvez não nos demos conta de que a concentração de renda no topo da pirâmide brasileira é enorme, com os 10% mais ricos detendo cerca de 40% a 64% da renda nacional, dependendo da fonte dos dados. Qual será o elemento e o segredo que nos faz ter tanta alegria e desigualdade convivendo lado a lado?

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