O presidente Juscelino Kubitschek perdeu a vida num desastre de carro na Via Dutra, município de Resende (RJ), em 1976, durante a ditadura militar. O resultado da perícia, conduzida por autoridades da época, concluiu que JK e seu motorista, Geraldo Ribeiro, morreram num acidente de trânsito.
No início, culparam o motorista Josias Nunes de Oliveira, homem negro, que dirigia um ônibus da Viação Cometa. Ele teria sido o responsável pela batida contra o Opala em que estava JK, o que teria lançado o automóvel na pista da contramão e provocado a colisão com um caminhão que vinha em sentido contrário.
Depois ficou provado que o ônibus não abalroou o veículo de JK e seu motorista foi inocentado, mas a versão do "acidente" perdurou até hoje.
Em 1996, após a morte de dona Sarah Kubitschek, pressionada enquanto viveu a não pedir uma investigação séria sobre a morte do marido, Serafim Jardim, que fora secretário-particular de JK, solicitou a reabertura do caso. Mas o reexame chegou à mesma conclusão, a de que houve um "acidente".
Ficou a dúvida sobre a versão do regime militar. Muitos acreditavam num atentado político contra JK. Ele fora perseguido, cassado e exilado. À época de sua morte, articulava nova candidatura à Presidência da República, mesmo que tivesse de enfrentar eleição indireta, pelo Colégio Eleitoral, em 1978. Aliado a João Goulart e Carlos Lacerda, havia criado a Frente Ampla. Os militares o temiam.
Em 2000, nova comissão reabriu investigações no âmbito do Congresso Nacional. Porém, uma vez mais, concluiu-se pela morte acidental. Como a de 1996, fez uso das "provas" do Instituto de Criminalística Carlos Éboli, do Rio de Janeiro, com suas fraudes e erros grosseiros forjados na ditadura.
Em 2013 e 2014, a Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog, instalada na Câmara Municipal de São Paulo, presidida e assessorada por nós, reuniu, após exaustivo trabalho de investigação, 114 circunstâncias, evidências, indícios e provas para concluir: JK fora vítima de um atentado.
Não fomos só nós. A Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva, na Assembleia Legislativa de São Paulo, e a Comissão Estadual da Verdade de Minas Gerais, em Belo Horizonte, foram na mesma direção: JK havia sido eliminado por agentes da ditadura.
As conclusões das três comissões, no entanto, foram desconsideradas pela Comissão Nacional da Verdade em 2014, que se baseou nos mesmos argumentos falaciosos usados em 1976, 1996 e 2000.
Em 2019, a pedido do Ministério Público de Resende, o perito Sérgio Ejzenberg produziu um laudo cabal, com 200 páginas, demolindo a versão do "acidente" entre o ônibus e o Opala.
Com o laudo, oficiamos o Ministério dos Direitos Humanos e a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos para que reabrissem o caso JK. Mais uma vez, buscávamos a verdade sobre a morte violenta de um ex-presidente do Brasil.
Agora, dois anos após uma investigação abrangente, a Comissão Especial acaba de divulgar relatório de mais de mil páginas e a conclusão de que JK foi assassinado num atentado perpetrado pelo regime militar.
Nosso sentimento é de alívio. Enfim, o resgate da verdade.
O momento é de dupla emoção. Em primeiro lugar, temos a verdade histórica reestabelecida. Nenhuma nação pode ser construída numa conjuntura histórica de mentiras.
Em segundo, porque JK era respeitado por grande parte dos brasileiros. Por sua personalidade e conduta ética, democrática, conciliadora, agregadora e empreendedora. Era um estadista e respeitava as forças políticas do país.
Por isso reverenciamos sua importância política e lamentamos o atentado vergonhoso que vitimou um homem de 74 anos e seu motorista, de 66. Dois senhores, desarmados, covardemente assassinados por agentes que sabotaram o carro, provavelmente envenenaram o motorista num hotel e ainda fizeram uma tocaia para que tentassem a fuga impossível, no veículo que já não dispunha de freios.
Faz falta JK, político que promovia a reconciliação. Principalmente no Brasil de hoje, dividido por uma polarização que tanto mal faz ao povo brasileiro.

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