quarta-feira, 17 de junho de 2026

A redução dos custos de informação, Luiz Guilherme Piva- FSP

 Luiz Guilherme Piva

Economista (UFJF), mestre (UFMG) e doutor (USP) em ciência política e autor de ‘Ladrilhadores e Semeadores’ (Editora 34) e ‘A Miséria da Economia e da Política’ (Manole

Adquirir informação tem custo financeiro, de tempo e de empenho. Por isso, ler, ouvir, estudar, pesquisar, debater são atividades que desencorajam a maioria das pessoas quando se trata de formular opiniões acerca da quase todos os assuntos.

Há formas de economizar. Uma é aderir a um sistema de crenças, preferências ou princípios que define, de antemão, o que se deve pensar sobre isso e aquilo. Aderir a uma torcida de futebol, a uma religião, a uma ideologia, a um partido, a uma doutrina econômica, a uma bolha de valores, etc. facilita o posicionamento.

Ilustração de um homem de perfil segurando um celular e trocando mensagens; sua cabeça é dividida em setores, cada um deles com um tema: justiça pegando fogo, tanque de guerra, alien, revólver, mamadeira, terra plana, anti-vacina, entre outros.
Ilustração de Fido Nesti 21.abr. 2024 - Fido Nesti/Folhapress

Não há que se informar, estudar, ponderar, analisar e então extrair decisões. É só reproduzir o pacote, dele sacar qualquer carta e jogá-la na mesa. Será sempre algo que faz sentido para quem fala e para muitos dos que ouvem. Além disso, reforçará identidades individuais e grupais e ainda poderá angariar novas adesões.

Na economia, por exemplo, o mantra é: há muito gasto, muitos servidores, é preciso ter superávit, diminuir o Estado e "fazer a lição de casa" para que tudo funcione perfeitamente. O barateamento da informação ocorre nos dois lados: para quem fala, porque basta repetir o credo sem questionar a profissão de fé, e para quem ouve, porque aquilo, ouvido tantas vezes, deve fazer sentido. Pronto, a catequese indireta funcionou.

No futebol e na política, dá-se quase o mesmo. Naquele, quando se tem um time, tudo está resolvido quanto à qualidade do jogo, aos árbitros, aos jogadores e à justiça dos resultados –há, além de torcedores, comentaristas esportivos que optam por tal poupança informacional. Na política, se se tem uma ideologia e/ou um partido, sai praticamente de graça definir aliados e adversários e, sobretudo, o voto. Digita-se o número do grupo de afinidade, confirma-se e "pilili"! Também aqui, além de eleitores, há analistas políticos poupadores. Nestes dois casos, porém, não há catequese. Ao contrário, os "outros" costumam contestar resultados, juízes e até o "pilili".

A propósito, todos esses poupadores formam, por acúmulo, a maior parte do acervo de conhecimento processado pelas respostas da inteligência artificial. O que doravante tornará tudo cada vez mais barato e reforçará bolhas, sistemas, doutrinas e crenças, porque o mesmo acervo será reprocessado infinitamente.

A outra forma de poupar o custo da informação é não se informar nem aderir a qualquer grupo ou sistema. Abster-se. A redução é até maior, porque, além daquela feita pelos que aderiram a um conjunto, economiza-se a energia que estes gastam para emitir sua opinião a todo momento. Há o custo de ter que arcar com o efeito das decisões alheias sobre a própria vida. Mas talvez haja um ganho de paz interior, o que pode ter valor emocional, psicanalítico e financeiro relevante.

Já os que não querem economizar na aquisição de informação se dedicam a pesquisas, leituras, estudos, ponderações, reflexões, razoabilidades argumentativas e interações opinativas para formular questões pertinentes, buscar respostas, interpretá-las e testá-las, para talvez rejeitar as soluções oferecidas e recomeçar o trabalho, com mais custos.

Mas acho que esses também já apreenderam a economizar e têm usado toda essa qualificação apenas para elaborar prompts de excelente qualidade.

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