quarta-feira, 25 de março de 2026

Gilmar, Dino, Moraes e Zanin propõem limitar penduricalhos a 35% do salário de ministros do STF, FSP

 Isadora Albernaz

Brasília

Os ministros Gilmar MendesFlávio DinoAlexandre de Moraes e Cristiano Zanin, do STF (Supremo Tribunal Federal), propuseram nesta quarta-feira (25) limitar o valor dos chamados penduricalhos no Judiciário a um teto correspondente a 35% (R$ 16.228,16) do salário dos integrantes da corte, de R$ 46.366,19 –o teto constitucional do funcionalismo público.

A medida valeria durante um período de transição até que uma regra geral para o pagamento das verbas indenizatórias seja editada pelo Congresso Nacional. A proposta foi apresentada pelo decano em nome dos quatro ministros em voto conjunto no julgamento de ações sobre o tema. Segundo Moraes, as medidas resultariam em uma economia de R$ 7,3 bilhões por ano.

Os ministros foram acompanhados por André Mendonça.

A imagem mostra uma escultura da Justiça, representada por uma figura feminina com os olhos vendados, segurando uma balança. A estátua está em primeiro plano, enquanto ao fundo se vê um edifício moderno com janelas de vidro e colunas. Há também um carro estacionado próximo à escultura e uma bandeira do Brasil visível.
Fachada do STF - Gabriela Biló - 1.ago.25/Folhapress

"O primeiro vetor para a conformação do regime de transição envolve, necessariamente, o estabelecimento de um limite objetivo para o montante de verbas de natureza indenizatória —como auxílios, indenizações adicionais e outros congêneres", disse Gilmar.

"Isso porque a prática observada nos últimos anos evidenciou um déficit de transparência e de racionalidade no sistema remuneratório, fragilizando especialmente o controle institucional e social sobre os gastos públicos, na medida em que obscurece a real dimensão das despesas com pessoal", completou.

Os ministros também defenderam uma espécie de retomada do ATS (adicional por tempo de serviço), que seria chamada de "parcela de valorização do tempo de antiguidade na carreira".

"Trata-se de um mecanismo voltado a mitigar os impactos financeiros decorrentes da reconfiguração do regime de verbas indenizatórias, preservando, em alguma medida, a segurança jurídica dos agentes públicos que, por longo período, receberam parcelas posteriormente reputadas incompatíveis com a Constituição", afirmou o decano.

A corte retomou nesta tarde a análise de ações que tratam do tema, em julgamento conjunto, dentre elas, a liminar de Gilmar, que barrou as verbas indenizatórias previstas em leis estaduais para integrantes do Poder Judiciário e do Ministério Público, e a de Dino, que determinou o fim das verbas indenizatórias pagas acima do teto para o funcionalismo público de todos os níveis da federação.

A expectativa é que tenham alcançado uma solução de meio-termo e que não haja pedido de vista, para que a conclusão não seja adiada.

Os ministros receberam propostas de uma comissão instituída pelo presidente Edson Fachin e do corregedor-nacional de Justiça, ministro Mauro Campbell. Para debater a matéria, eles também se reuniram no almoço antes da sessão.

Ao abrir os votos, Fachin afirmou que os ministros se dedicaram nos últimos 30 dias à análise do tema que já dura mais de 30 anos.

"O que se almejou era e é conquistar passos maiores na uniformização e na padrinização e buscar ganhos na transparência e na previsibilidade, além de estabelecer limites nas despesas e buscando também, portanto, economia de despesas sobre pagamentos sem base legal", disse o presidente.

Gilmar defendeu um regime único e afirmou que uma padronização não seria possível caso fosse legitimada a profusão de regras existentes hoje. Assim, ele defendeu uma ação coordenada entre CNJ (Conselho Nacional de Justiça) e CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) sobre o pagamento de verbas indenizatórias.

O decano também afirmou que a decisão ficou a cargo da corte diante da ausência de uma medida do Congresso para lidar com o tema, inclusive pela proximidade das eleições.

"Esse tema se solveria de maneira absolutamente ortodoxa se tivéssemos uma iniciativa do Congresso Nacional fixando parâmetros sólidos para a remuneração dessas duas categorias centrais do sistema geral do Estado. Mas, como tivemos oportunidade de verificar, em diálogos inclusive com a própria presidência do Congresso Nacional, com o pleito eleitoral, não se vislumbra uma solução urgente para essa temática. Daí o ônus recai sobre esta corte de buscar uma solução", disse.

O julgamento havia sido suspenso em 26 de fevereiro. Na ocasião, Gilmar e Dino concordaram em ajustar para 45 dias, contados a partir do dia 23 de fevereiro, o prazo para que os chefes dos Poderes e dos órgãos autônomos revisem as verbas pagas fora do teto a seus servidores, discriminando o valor, o critério de cálculo e a lei que as fundamentam.

Na segunda (23), a comissão criada pelo presidente do STF para fazer propostas sobre a regulação dos penduricalhos identificou que o gasto total com verbas acima do teto, apenas para a magistratura, está próximo de R$ 9,8 bilhões.

Há ainda dados do CNMP, que indicam que o valor total de gastos com parcelas que excedem o valor do subsídio é de R$ 7,2 bilhões.

Como meio de frear novos gastos do tipo, uma das sugestões do grupo é vincular essas despesas à legislação do Imposto de Renda.

A remuneração média bruta dos magistrados em 2025, calculada a partir de dados do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), foi de R$ 95.968,21. Já o teto remuneratório constitucional, anualizado e considerando férias e 13°, corresponde a R$ 52.805,94.

Caso o colegiado entenda ser necessário criar uma regra de transição para não encerrar de imediato com os penduricalhos, o grupo indicou, como solução, pensar em limites globais para recebimentos acima do teto. No documento, há, ainda, o tamanho tanto da economia quanto do aumento de gastos diante de cada faixa de flexibilização.

De acordo com a comissão, um dos pontos centrais do problema é a diferenciação entre verbas indenizatórias e remuneratórias. Apenas sobre essas últimas incide imposto de renda. Mas há, segundo a nota técnica, jurisprudência no sentido de que, quando há acréscimo patrimonial, a incidência do imposto de renda é reconhecida.

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Guerra impulsiona alternativas ao diesel e juro alto trava renovação da frota, diz CEO da Scania, FSP

 Marcos Hermanson

Brasília

A disparada do preço do diesel em razão da guerra no Irã pode acelerar a procura por caminhões movidos a biometano e biodiesel, afirmou Christopher Podgorski, presidente da Scania na América Latina, ao C-Level Entrevista, videocast da Folha.

"Ganhamos um impulso adicional, infelizmente em função de um aspecto geopolítico que nenhum de nós gosta, que é uma guerra", diz. "Se eu estivesse usando os sapatos do meu cliente transportador, imagino que olharia com mais carinho para as alternativas que não dependem de fatores externos."

Hoje, os caminhões movidos a biometano representam apenas 6% das vendas da empresa, mas Podgorski diz que a montadora está pronta para um eventual aumento da demanda.

Homem branco de cabelos grisalhos veste terno azul escuro e camisa branca, posando em ambiente interno com fundo desfocado que inclui quadros e brasões.
Christopher Podgorski, CEO da Scania América Latina - Divulgação/Scania

Com as bombas registrando aumento de 20% no preço do diesel, o executivo diz que a empresa está preparada para atender ao pleito do agronegócio de aumento para 20% a mistura de biodiesel no óleo diesel de origem fóssil. " A partir desse percentual, faremos provas e testes para [garantir] que nós vamos estar implementando uma solução, e não criando um pesadelo", diz.

Para Podgorski, a taxa básica de juros, hoje em 14,75% após corte de 0,25 ponto percentual no dia 18, é a principal trava para a renovação da frota de caminhões no Brasil. "Fazendo uma analogia muito simples, você compra cinco caminhões e paga seis."

Ele vê alívio no programa Move Brasil, que financia caminhões a taxas menores, mas lamenta que o programa seja temporário. "A má notícia é que ele veio, por enquanto, em caráter temporário, com um limite de financiamento e também de prazo."

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A Scania produz caminhões movidos a biometano. A volatilidade no preço do diesel causada pela Guerra no Irã dá impulso ao biometano como uma alternativa?
A resposta é sim. Ganhamos um impulso adicional, infelizmente em função de um aspecto geopolítico que nenhum de nós gosta, que é uma guerra. Mas a verdade é que o agronegócio e a produção de biocombustíveis ganham um impulso adicional para reduzir a dependência de derivados de petróleo [e do] gás natural liquefeito.

Como isso se traduz na estratégia comercial e de produção da empresa?
Temos capacidade de produção instalada. Se precisarmos aumentar o número de produtos hoje movidos a biometano ou biodiesel, não será um grande desafio. São as forças de mercado que vão fazer com que nós ajustemos o mix de produtos na nossa unidade em São Bernardo do Campo. Estamos prontos para volumes adicionais se assim o mercado demandar.

O sr. acha que haverá essa demanda? O mercado está assustado com a disparada do preço do barril do petróleo.
Se o diesel fóssil tem um preço acrescido da ordem de 20%, isso aumenta a viabilidade econômica de um produto como o gás biometano, que é produzido localmente a partir de resíduos orgânicos. A previsibilidade de custos é muito maior. Se estivesse usando os sapatos do meu cliente transportador, imagino que olharia com mais carinho para as alternativas que não dependem e não são influenciadas por fatores externos.

O agronegócio voltou a falar em aumentar a mistura de biodiesel no diesel, mas parte da indústria resiste, argumentando que o aumento do biodiesel pode danificar os motores. Qual é a posição da Scania?
A posição da Scania é que, até 20% de biodiesel junto ao diesel mineral, tranquilo, não tem grandes problemas. A partir desse percentual, nós faremos provas e testes para [garantir] que nós vamos estar implementando uma solução, não criando um pesadelo.

Como está a divisão das vendas entre os caminhões movidos a biometano e aqueles a diesel?
No ano passado, comercializamos no Brasil 13 mil veículos, e somente 800 unidades, aproximadamente, foram movidas a biometano. Vendemos mais [unidades a biodiesel no ano passado] do que a soma dos anos anteriores, o que demonstra que nós não estamos mais falando de um conceito.

A Scania tem uma meta de produção de caminhões a biometano para atingir?
Os estudos apontam que, quando atingirmos o status de carbono neutro no ecossistema de transporte, o biometano representará algo em torno de 10% do volume total comercializado. Então, se pegarmos os volumes do ano passado, quando o mercado como um todo comercializou 124 mil caminhões, nós estaríamos falando num potencial de 12 mil caminhões de todas as marcas.

O biometano não é amplamente disponível nas estradas brasileiras. Esse é um entrave para a disseminação dos modelos a gás?
Nós estamos falando de criar um novo ecossistema. Já existem vários corredores verdes, por exemplo, ligando as zonas produtoras de biometano, que são principalmente as usinas de açúcar e álcool, até os portos de exportação, como o porto de Santos.

Hoje, existem várias rotas representativas em que a presença do biometano é realidade. Mas é um ecossistema em construção, e a história da demanda vai criando soluções de viabilidade econômica também para os parceiros que estão investindo na infraestrutura.

O sr. já falou que a Scania tem a intenção de fabricar caminhões elétricos no Brasil. Existe previsão para quando deve começar?
Qualquer solução verde renovável tem que ser viável econômica e financeiramente. Nós estamos prontos para a industrialização, todo o nosso sistema de produção é global e é modular. Nós podemos iniciar a industrialização de caminhões também a curto prazo, mas só vou fazer isso quando tiver uma demanda definida.

A Anfavea (Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores) vive uma disputa com as montadoras chinesas de veículos leves, recém-chegadas ao país. A Scania se preocupa com essa mesma competição no segmento de caminhões?
Eu não tenho receio de competição. Nós também atuamos há décadas em mercados como Chile e Peru, onde os impostos de importação inexistem praticamente e os chineses ganharam uma posição bastante significativa, mas a fatia de mercado e rentabilidade da Scania nesses dois países permanece.

Pode vir qualquer marca, qualquer nacionalidade, apenas deve seguir as mesmas regras que nós seguimos no aspecto regulatório e legal. Se a regra do jogo for igual, a competição será sempre sadia.

É comum vermos caminhões dos anos 1960 rodando nas estradas brasileiras. O que tem dificultado a renovação da frota brasileira?
A frota envelhecida é um problema. Um trabalho estruturado de renovação de frota já se faz necessário há muitos anos, e há muitos anos nós temos essa discussão.

A boa notícia é que, mais recentemente, o programa Move Brasil [em que o governo federal subsidia a compra de caminhões] contempla esses desafios. A má notícia é que ele veio, por enquanto, em caráter temporário, com um limite de financiamento e também de prazo —cinco meses ou R$ 10 bilhões.

O governo deveria estender o programa, ou aumentar o financiamento?
A vigência desse programa é mais ou menos para antever o que uma taxa de juros Selic representará num futuro próximo, esperamos. Se o programa vai ser realizado ou não, é uma questão do Executivo. O arcabouço legal já está aí e funciona, retirando veículos mais antigos de circulação e substituindo-os por veículos muito mais eficientes.

A redução já aconteceu, mas em dose menor do que se esperava. O que a empresa vê pela frente?
Eu não gostaria de fazer o papel de economista nem tecer qualquer comentário ou crítica em relação ao trabalho feito pelo BC. O que posso dizer é que, a uma taxa de juros de 15% [no dia 18, data posterior à realização desta entrevista, o Copom baixou a Selic para 14,75%], o empresário do transporte, para financiar o veículo, vai ter um custo ao redor de 20%. Fazendo uma analogia muito simples, você compra cinco caminhões e paga seis.

Qual é o seu palpite para o desempenho da economia brasileira neste ano de eleições?
Para o segmento de transporte, pelas dificuldades de aquisição que mencionei, sobretudo a disponibilidade de crédito e o custo desse crédito, entendemos que o ano passado e este ano vão ser bastante assemelhados, em termos de volume total [de vendas].

O gargalo é o financiamento?
O custo do financiamento e também a disponibilidade, porque os clientes também têm limites de créditos que eles podem assumir, e os bancos, as financeiras, agem de acordo com o mercado financeiro, fazendo uma análise de crédito adequada. Mas, seguramente, o grande impeditivo é o custo financeiro que parte da taxa Selic de 15%.

RAIO-X | Christopher Podgorski, CEO da Scania na América Latina

Formado em administração de empresas, ingressou na Scania em 1998 e foi diretor-geral da empresa no México antes de se tornar vice-presidente de vendas e, depois, presidente sênior global de vendas e merketing. Em 2017, assumiu o cargo de CEO da operação industrial da Scania na América Latina.

Colaborou Eduardo Sodré

Vorcaro podia comprar tudo, menos bom gosto, Joanna Moura FSP

 Há uma trend nas redes sociais que diz mais ou menos assim: "eu tentando dormir e o meu cérebro só pensa…". Em seguida, um vídeo aparece na tela, mostrando alguma cena esdrúxula —um meme, uma música de qualidade questionável, uma curiosidade aleatória— indicando que era ele, o tema do vídeo, o responsável pela insônia do personagem inicial.

Sempre me identifiquei com a tal trend. Sou vítima do mesmo mal. Ao anoitecer, quando as crianças já foram dormir, meu cérebro considera o expediente encerrado e anseia não por dormir, mas por se vingar dos trabalhos que fora forçado a realizar durante o dia com distração barata —quanto mais acéfala, melhor.

Recentemente, meus momentos de insônia ganharam um hiperfoco: o esbanjamento de Daniel Vorcaro. O banqueiro picareta, dono do Banco Master, que está preso sob suspeita de uma série de crimes, entre eles fraude, lavagem de dinheiro, organização criminosa, corrupção, obstrução de justiça e manutenção de milícia privada, era famoso por ostentar um estilo de vida condizente com os R$ 12 bilhões que ele é acusado de ter abocanhado.

Três fotos lado a lado mostram um homem adulto com cabelo curto e escuro, vestindo camiseta branca. As imagens incluem perfil esquerdo, frente e perfil direito, com fundo branco e marcações de altura visíveis.
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, com barba e bigode aparados, após a prisão no Complexo Penal 2 de Guarulhos, na Grande São Paulo - Divulgação Polícia Federal

Foi no noticiário, mais precisamente no podcast "O Assunto", da GloboNews, que ouvi Natuza Nery descrever o estilo de vida de Vorcaro como nababesco. Mas foi nas redes sociais que dei de cara com a materialização do estilo de vida opulento ou, como diria Milton Cunha, faraônico de Vorcaro.

Tratava-se do vídeo de seu noivado com a influenciadora digital Martha Graeff. O vídeo que circula nas redes mostra o casal apaixonado andando por um palácio na Itália: eles dançam ao som de espetáculos de música, desviam de malabaristas montados em pernas de pau, admiram fogos de artifício e se abraçam enquanto drones coreografados revelam declarações de amor no céu.

Meu choque ao ver o vídeo foi tamanho que permaneci nele bem mais tempo do que normalmente permaneceria. Meu algoritmo então tomou isso como um sinal de aprovação e passou a encher a minha timeline com vídeos de outros eventos igualmente nababescos promovidos pelo banqueiro vigarista.

Ao ver os registros, senti raiva de Vorcaro, em parte por atrapalhar meu sono, em parte pela facilidade com que transitou pelo poder, com que se beneficiou do sistema, com que enriqueceu às custas dos outros. No entanto, brasileira que sou, sinto que, no que diz respeito à falcatrua, não me surpreendo com mais nada.

De tudo o que vi, o que me chocou mesmo foi o nível de mau gosto com o qual me deparei. Nada poderia ter me preparado para tamanha cafonice. Era um tal de músculos explodindo na camisa apertada, marmanjos sem nenhum molho dançando em cima de mesas enquanto rodavam guardanapos no ar, garrafas de champanhe douradas que soltavam fogo.

Me choquei, mas, pensando bem, não deveria. Vorcaro apenas mirou no senso estético deste grupo do qual queria tanto fazer parte: o de bilionários. Talvez tenha se inspirado em Jeff Bezos, dono da Amazon, que consegue, com sua mulher, se vestir de alta costura dos pés à cabeça e ainda assim estar mal vestido.

O denominador comum dessa galera parece ser a máxima: tão pobre que a única coisa que tinha era dinheiro. No caso de Vorcaro, ainda pior: dinheiro que nem era dele.