terça-feira, 2 de junho de 2026

Saturado, Expresso Aeroporto tem superlotação e gente sentada no chão e em malas, FSP

 Fábio Pescarini

São Paulo

Genilda de Oliveira, 46, é uma mulher precavida. Ao entrar no trem superlotado, dá um jeito de armar um banquinho dobrável e viaja sentada no meio da multidão espremida em pé.

Ela encara todos os dias o Expresso Aeroporto, serviço inaugurado em 2018 para ligar a região central de São Paulo ao aeroporto internacional de Guarulhos, na região metropolitana, mas que no decorrer dos anos tem recebido mais usuários comuns do que aqueles que entram nos vagões no caminho para embarcar em avião.

Apontado como serviço de excelência, segundo a CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), ele conta com os trens mais modernos da frota da estatal do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos). Mas nem assim escapa das críticas de passageiros.

Vagão de trem cheio com passageiros em pé segurando barras e outros sentados no chão e bancos laterais. Alguns usam mochilas e fones de ouvido, e vários estão concentrados em seus celulares. Ambiente interno com iluminação artificial e paredes claras.
Trem do Expresso Aeroporto lotado em horário de pico; serviço, que liga o centro de São Paulo ao aeroporto de Guarulhos, está saturado, segundo passageiros - Rafaela Araújo/Folhapress

O Expresso Aeroporto, da linha 13-jade, parte de hora em hora (entre às 5h e a 0h) da estação Barra Funda, que fica no limite entre o centro e a zona oeste da capital paulista. Tem só mais três paradas, nas estações da Luz (também no centro) e Cecap (já em Guarulhos), e a final, onde o passageiro precisa pegar um ônibus ou um trem em via elevada até os terminais do aeroporto. O percurso total é feito em cerca de 40 minutos.

Outra opção para se chegar de transporte público ao aeroporto internacional é embarcar na estação Engenheiro Goulart (na zona leste paulistana), da linha 12-jade, e seguir para a linha 13. O intrvalo das partidas varia de 10 minutos a 35 minutos, dependendo do horário. Mas usuários dizem que o tempo de viagem pode ser mais demorado em ao menos meia hora.

Nos dois casos, o preço da tarifa é R$ 5,40, como nas demais linhas do trem metropolitano.

Para pessoas ouvidas pela reportagem, o serviço está saturado. "É sempre cheio nos horários de pico", diz Gabriela Oliveira, 31, filha de dona Genilda e também funcionária de confecção.

As duas moram em Guarulhos e usam o trem para ir e voltar do trabalho na capital paulista. Embarcam e descem na estação Cecap, onde há interligação com um terminal de ônibus.

Em nota, a CPTM diz monitorar permanentemente a operação do Expresso Aeroporto e a demanda de passageiros, principalmente nos horários de pico.

A Folha viajou três vezes com o expresso até Guarulhos no último mês. Duas delas às 18h, quando o trem parte da Barra Funda já com passageiros em pé ou sentados no chão. Mas a superlotação ocorre mesmo quando ele faz a parada para embarque na Luz.

Numa dessas viagens havia um homem encolhido embaixo de um bagageiro para, segundo ele, evitar de ser pisoteado.

Um aviso sonoro pede, em vão, para que as pessoas não fiquem sentadas no chão.

A outra viagem foi às 15h de uma segunda-feira. Apesar de ser horário de movimento menor e não estar lotado, todos os assentos estavam ocupados e também havia passageiros em pé, sentados no chão ou que transformaram malas de viagem em "banquinhos",

"Pela manhã é ainda mais cheio", diz Bárbara Santos, 32, que igualmente trabalha em confecção em São Paulo. No último dia 21, ela diz ter perdido o trem das 7h na estação em Guarulhos, "por alguns segundos", e levou cerca de 30 minutos a mais para fazer o percurso até a Luz pela linha 12.

Para Keity Kelly Prado, 30, que há três anos trabalha na Barra Funda, melhoraria a vida dos passageiros se o intervalo entre os trens fosse reduzido para a cada 30 minutos, o que só ocorre aos domingos (quando não há obras).

A CPTM afirma que o serviço opera com partidas a cada hora em razão do compartilhamento de vias com as linhas 11-coral e 12-safira. "A programação das três linhas é definida considerando a capacidade operacional do trecho, de forma a preservar os intervalos, a regularidade e a segurança da circulação das composições."

Apesar de a empresa dizer que os trens contam com ar-condicionado, o calor é reclamação comum. Tanto que a passageira Bárbara Santos leva um ventilador portátil na bolsa.

A companhia diz que os aparelhos de ar-condicionado têm regulagem automática de temperatura, e passam regularmente por manutenção preventiva. "Diante dos relatos, a CPTM reforçará a verificação dos equipamentos nas composições que atendem o serviço."

A ligação entre São Paulo e o aeroporto de Guarulhos por trem foi prometido para 2004. A inauguração só ocorreu em outubro de 2018, com o complicador de a estação da CPTM ficar longe dos terminais de Cumbica.

Para chegar até eles, o usuário precisa atravesar a rodovia Helio Smidt por meio de uma passarela e pegar um ônibus ou o aeromóvel, serviço de trem em via elevada ainda em testes. Nos dois casos, não há cobrança de tarifa.

Especialistas dizem que superlotação do expresso indica que o serviço atrai passageiros de transporte regular e não apenas quem vai pegar avião. E que isso demonstra desequilíbrio com outros modais.

"Está faltando metrô entre São Paulo e Guarulhos, com grande capacidade e pequeno intervalo entre composições para deixar o Expresso Aeroporto livre aos usuários com malas", afirma o engenheiro e mestre em engenharia de transportes Sérgio Ejzenberg.

Para Rafael Calabria, pesquisador de mobilidade do BRCidades, a confiabilidade de um trem que sai com horário marcado, sem atrasos, atrai esses passageiros comuns. "É mais rápido que ir de carro no trânsito."

As linhas 11, 12 e 13 foram concedidas pela CPTM para a empresa Trivia Trens —atualmente, a operação está em fase de transição. No início do mês, um dos trens do expresso descarrilou e passageiros tiverm de andar nos trilhos.

O contrato prevê ampliação da linha 13-jade com mais cinco estações, sendo quatro elas a partir do aeroporto, até Bonsucesso, bairro da região norte de Guarulhos cortado pela rodovia Presidente Dutra.

"Os projetos das obras previstas em contrato de concessão estão em andamento e serão apresentados segundo cronograma pactuado com o poder concedente", diz a Trivia.

Em média, cerca de 550 mil pessoas usam o expresso todos os meses, segundo balanço da CPTM.

"Certamente vai aumentar a demanda e será preciso implantar intervalos de linha regular, de quatro a oito minutos", afirma Calabria.

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