domingo, 1 de março de 2026

Desiludida, geração Z de esquerda tem revolta anticapitalista e críticas a Lula e Nikolas, fSP

  

São Paulo

Todos os dias, o pequeno comércio se instala ao redor da estação Vila Madalena, na zona oeste da capital paulista. Em meio à maré humana, um estabelecimento chama a atenção: a Casa Marx, espaço cultural com livraria, sebo, café e brechó, dedicado a difundir o pensamento de esquerda. Funciona ali também a sede do Faísca Revolucionária, coletivo de jovens anticapitalistas, atuante em 15 países.

Dois jovens posam com punhos cerrados diante de um mural colorido de Karl Marx. O mural exibe o rosto de Marx em tons vibrantes de amarelo, azul, rosa e vermelho, com a frase 'Trabalhadores do Mundo' escrita ao fundo.
Noah Brandsch, 21 (à esquerda), e Pedro Pequini Ferreira, 26, líderes da Faísca Revolucionária, do coletivo Faísca, que atua a partir da Casa Marx, em São Paulo - Rafaela Araújo/Folhapress

"O termo ‘anticapitalista’ tenta dar conta de diversos fenômenos relacionados ao sentimento de que o sistema atual não oferece mais esperança para nós", diz Pedro Ferreira, 26, líder do grupo, nos fundos da casa, de paredes cobertas por lambe-lambes, com gravuras de Vladimir Lênin e de Leon Trótski.

A existência do Faísca se relaciona com o surgimento de outros coletivos de jovens que lutam pela mesma causa, dentro e fora das universidades. Em comum, fazem oposição ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e aos integrantes do MBL (Movimento Brasil Livre), hoje apoiados por parte expressiva da juventude. Ao mesmo tempo, criticam o presidente Lula (PT) e não se sentem representados pelos políticos que despontam como candidatos. Na origem, o sentimento anticapitalista é um traço da chamada revolta da geração Z, jovens desiludidos que agora organizam protestos ao redor do mundo.

Ligado ao MRT (Movimento Revolucionário dos Trabalhadores), o Faísa, criado há uma década, tornou-se conhecido por promover oficinas de estudo sobre comunismo nas universidades. Seus integrantes se tratam por "camarada" e, em vez do ChatGPT, utilizam o ChatMarx, aplicativo de inteligência artificial de orientação marxista.

Noah Brandsch, 21, outro líder do Faísca, está à procura de uma alternativa a Lula. "Utopia é a gente acreditar que é possível mudar as coisas por dentro do sistema capitalista", afirma. "É uma tarefa da esquerda superar o que foi a conciliação de classes do PT, que só reforçou a extrema direita."

A insatisfação com o governo também está presente no Movimento Correnteza, organização estudantil criada há oito anos sob o lema "organize a sua revolta" e voltado à luta pela educação. Thaís Rachel, 32, liderança do Correnteza e vice-presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), prefere votar na candidata Samara Martins, do UP (Unidade Popular).

Segundo Rachel, os jovens estão subrepresentados na política. "Até existem novas lideranças, mas o sistema eleitoral é injusto e só favorece os partidos que estão aí há anos", diz.

Nos últimos anos, a revolta da geração Z, expressão que faz referência aos nascidos entre o fim dos anos 1990 e 2010, desencadeou protestos em países como Peru, Bangladesh, Indonésia e Quênia. Cada um deles tinha motivação própria, mas todos ambicionavam a mudança do status quo. Para tanto, apropriaram-se do mesmo símbolo: a bandeira do "One Piece", mangá em que os protagonistas lutam contra o sistema.

Nos Estados Unidos, o democrata Zohran Mamdani, 34, foi eleito prefeito de Nova York graças a uma articulação com a juventude, excitada com a plataforma socialista apresentada na campanha —78% dos eleitores com idade inferior a 30 anos votaram nele. A realidade é bem diferente no Brasil. Por aqui, a esquerda anticapitalista é minoritária entre os jovens.

Pesquisa Atlas Intel, publicada em dezembro, mostrou que 52% da geração Z se diz de direita ou de centro-direita. Deputados como Nikolas Ferreira (PL) e Kim Kataguiri, do MBL, têm especial ligação com esse eleitorado, que absorve e propaga noções de meritocracia, empreendedorismo e até um desprezo pela CLT, tema que ficou em alta em postagens no TikTok.

"As redes do Nikolas são usadas para referenciar a figura dele. Podem até chamar para atos, mas não para uma organização coletiva a longo prazo", afirma Theo Lobato, 30, líder do coletivo Juntos! —assim mesmo, com ponto de exclamação ao final. Ele se angustia com a crise climática, o avanço tecnológico e a precarização do trabalho. Tendo entrado no Juntos! há uma década, ainda sob o impacto das Jornadas de Junho de 2013, Lobato esteve, em novembro, na COP30, em Belém.

Para Julia Andrade Maia, 27, também militante do Juntos!, a direita tem eficiência na internet porque tem mais poder econômico, em um contexto de crise de representatividade na esquerda. Diante da ausência de opções, ela votaria no Lula, mas não "fará o L" — referência ao símbolo do petista, feito com as mãos pelos apoiadores.

A militante critica o arcabouço fiscal, que limita os gastos do governo, a morosidade da discussão sobre a escala 6x1 e a exploração da Foz do Amazonas. "Quando eu era mais nova, os meus pais me falavam que, se eu estudasse, teria um emprego, uma casa e um carro. Estou na segunda graduação e tudo isso está longe de acontecer."

Na noite da quarta-feira (25), o Juntos! organizou um debate, no campus da USP, com o título de "Os Povos do Mundo Contra Os Imperalismos: A Luta Antifascista e Antirracista para Salvar o Planeta". Na mesa, estavam o professor de filosofia da USP, Vladimir Safatle, a deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP), revelada pelo Juntos!, a codeputada estadual Ana Laura (PSOL-SP) e o filósofo Douglas Barros.

Banco Mundial cobra celeridade do governo federal para liberar dinheiro para extensão do metrô de SP, FSP

Brasília

O Banco Mundial enviou um ofício ao governo de São Paulo, com cópia ao Ministério da Fazenda, pedindo pressa do governo federal no andamento dos processos para liberar o financiamento da expansão do metrô de SP.

Movimentação de passageiros no metrô Barra Funda, em São Paulo. - Zanone Fraissat/Folhapress

O banco vai financiar a extensão da Linha 2-Verde, com US$ 250 milhões, e a extensão da Linha 4-Amarela, até Taboão da Serra, com US$ 400 milhões.

Os contratos estão sob análise do Tesouro Nacional e ainda vão passar pela Casa Civil. O banco alerta, no entanto, que os pareceres já emitidos pelo governo federal são válidos apenas até abril.

"A não assinatura até abril exige o reinício de etapas processuais, com atrasos adicionais e impactos relevantes sobre o cronograma dos projetos", alertou o banco, na mensagem enviada na última quinta-feira (26).

O Banco Mundial pediu atenção urgente para garantir a conclusão dos trâmites o quanto antes.

"Os fatos reforçam a urgência na finalização das etapas pendentes a fim de viabilizar a assinatura dos financiamentos no menor prazo possível, evitando retrabalho processual e atrasos adicionais ao cronograma das operações", finalizou o documento.

O prazo máximo, segundo a instituição, para assinatura dos contratos é de 18 meses, contados da aprovação pelo conselho de diretores. No caso da linha verde, o prazo final vence em agosto deste ano.

Ao Painel, o Tesouro Nacional afirmou que não há atraso e que os trâmites seguem de acordo com a praxe.


Fornecedora do SUS captou R$ 30 mi com investigada por atuação do PCC na Faria Lima, FSP

 Mateus Vargas

Brasília

Alvo de investigações por suspeita de ocultar patrimônio e lavar dinheiro do crime organizado, a Insight Participações S.A. emprestou cerca de R$ 30 milhões para uma distribuidora comprar medicamentos que seriam fornecidos ao Ministério da Saúde.

O aporte custeou a primeira entrega de imunoglobulina da Farma Medical ao SUS. A distribuidora diz ter captado o recurso sem conhecer as suspeitas contra a financiadora e depois de receber negativas de crédito dos bancos tradicionais.

Os lotes chegaram ao Brasil em outubro de 2023, mas foram interditados após a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) identificar falhas no controle de temperatura no transporte do medicamento. O ministério decidiu então romper o contrato com a Farma Medical, que não recebeu o pagamento do governo federal —o que também barrou os planos da Insight de financiar todo o contrato de R$ 87,63 milhões, que previa novas entregas do medicamento.

Imagem mostra uma pessoa segurando caixa de medicamento dentro do centro de distribuição de insumos do Ministério da Saúde, localizado em Guarulhos (SP). A imagem também mostra uma caixa de com adesivo escrito "frágil" e a marca do Ministério da Saúde.
Estoque do Ministério da Saúde em Guarulhos (SP) - Myke Sena - 20.ago.21/Ministério da Saúde/Divulgação

Quase dois anos depois, em agosto de 2025, a Insight foi alvo de busca e apreensão na Operação Carbono Oculto, que mirou a atuação do PCC (Primeiro Comando da Capital) na economia formal.

Diretor e fundador da empresa, Himad Abdallah Mourad é primo de Mohamad Hussein Mourad, que está foragido e é apontado como um dos líderes da organização criminosa que teria infiltrado o PCC no mercado de postos de gasolina.

A ação policial cumpriu mandados em edifícios na avenida Faria Lima, em São Paulo, coração do mercado financeiro, onde funcionam gestoras de investimentos e bancos, além de empresas como a Insight. Até o momento, as operações feitas como desdobramento da Carbono Oculto não tiveram como foco o financiamento de grandes contratos do SUS.

Selecionada pelo ministério sem licitação em abril de 2023, a distribuidora Farma Medical, que tem sede registrada em Manaus (AM), assinou em junho uma nota comercial com a Insight prevendo que os recursos seriam usados pela distribuidora para pagar o fabricante chinês da imunoglobulina.

Feito à base do plasma sanguíneo, o medicamento é indicado para pacientes com o sistema imunológico comprometido, inclusive em casos específicos associados ao HIV.

Na nota comercial, a Insight foi representada pela Reag, gestora de recursos que também foi alvo da Operação Carbono Oculto. A administradora acabou liquidada após vir à tona a relação dela com o Banco Master, de Daniel Vorcaro.

O contrato previa que a Insight custearia toda a compra de imunoglobulina. Em troca, receberia o valor emprestado para a Farma Medical com correção pela taxa Selic, além do equivalente a 85% do lucro líquido da entrega ao SUS.

Em nota, o Ministério da Saúde disse que atua "com rigor" na fiscalização e que aplicou uma multa de US$ 1,69 milhão por descumprimento de contrato. O valor, porém, foi cobrado da Prime Pharma LLC, que também ficou impedida de participar de licitações por dois anos. A empresa com sede nos Emirados Árabes era representada pela Farma Medical no Brasil.

O ministério não informou se a multa já foi paga. A pasta disse que o contrato foi firmado muito antes da operação policial e cumpriu regras previstas para todos os concorrentes. "Não há previsão legal de investigação criminal prévia de pessoas físicas, nem interferência na escolha por parte das empresas de seus representantes", disse a Saúde.

Nos documentos ligados à contratação da Farma Medical pelo governo, não há menção à Insight. A empresa investigada também não recebeu pagamentos da Saúde.

Na representação que embasou a Operação Carbono Oculto, o Ministério Público de São Paulo afirma que Himad era um dos "principais expoentes" do grupo liderado por Mohamad Mourad, conhecido como "primo". O dono da Insight se mostra "fundamental para a blindagem patrimonial e a lavagem de capitais da organização, utilizando uma complexa rede de empresas e fundos de investimento", diz o documento.

A representação afirma que a Insight foi inicialmente criada por Himad para abrigar imóveis pertencentes aos investigados. Diz ainda que a empresa teve movimentação financeira de R$ 18,5 bilhões "em comunicações atípicas", considerando créditos e débitos. O documento não detalha o período das transações.

O Ministério Público também afirma que Himad comandaria uma rede de mais de 100 postos de gasolina que seriam usados no esquema criminoso. Os endereços dele e da Insight foram alvos de buscas. Os bens e imóveis de Himad foram bloqueados. Ele ainda é mencionado nas investigações da operação Tank, deflagrada no mesmo dia da Carbono Oculto.

Em outubro, Himad foi alvo da operação Octanagem, um desdobramento da Carbono Oculto que mirou postos de combustível, sob suspeita de que os estabelecimentos estariam por trás de um esquema de adulteração de gasolina e lavagem de dinheiro.

A reportagem não conseguiu localizar Himad e a Insight não respondeu a um email enviado na quarta (25) com pedido de manifestação. A Reag disse que, apesar de ter representado a Insight, não tem vínculo com a empresa