sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Ronaldo Laranjeira - Cannabis medicinal é muito risco para (quase) nenhum benefício, FSP

 Ronaldo Laranjeira

Médico psiquiatra especialista em álcool e drogas, é professor titular de psiquiatria da Escola Paulista de Medicina/Unifesp e presidente da SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina)

A função de uma agência sanitária é proteger a população com base na melhor ciência disponível. As recentes medidas da Anvisa que ampliam o uso e regulamentam o cultivo da Cannabis sativa para fins medicinais vão no sentido contrário.

Há dois problemas centrais: a fragilidade da evidência científica e o atalho institucional que levou a preocupantes decisões da agência reguladora, que abrem precedentes para o aumento do consumo de maconha, maior número de dependentes da substância e consequente elevação da criminalidade.

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Folhas e flores da planta de Cannabis em um cultivo particular nos arredores de Brasília - Pedro Ladeira - 14.ago.2024/Folhapress

É público que a Anvisa só avançou no tema após determinação do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que fixou prazo para regulamentar o cultivo da Cannabis medicinal. Ocorre que o assunto nunca foi aprovado pelo Congresso Nacional, instância à qual cabe legislar sobre o assunto.

No campo científico, o entusiasmo também não se sustenta. Uma revisão ampla publicada recentemente no Journal of the American Medical Association (Jama) concluiu que as evidências não apoiam o uso de Cannabis ou canabinoides para a maioria das condições para as quais é promovido, como dor aguda, insônia, ansiedade ou depressão. As exceções são raras e restritas, sempre com formulações farmacêuticas padronizadas.

O mesmo estudo é claro ao afirmar que diretrizes baseadas em evidência não recomendam Cannabis inalada nem variedades com alto teor de THC para fins médicos. Ainda assim, é justamente esse tipo de produto que tende a se expandir quando o discurso "medicinal" se mistura com interesses comerciais e ativismo político.

Os riscos estão bem documentados. A literatura aponta associação entre Cannabis e maior risco de sintomas psicóticos, transtornos de ansiedade, prejuízos cognitivos e piora de quadros depressivos, além de sinais crescentes de risco cardiovascular, como infarto e AVC em usuários frequentes. No campo da dependência, estudos recentes indicam que o chamado "uso medicinal" não reduz o risco de transtorno por uso de Cannabis. Ao contrário: usuários com essa justificativa apresentam, em média, maior frequência de consumo.

A regulamentação da Anvisa prevê limites de teor de THC e controle rigoroso do cultivo, mas a experiência internacional demonstra que o teor estipulado pode ser facilmente desrespeitado ao longo da cadeia produtiva, seja por falhas técnicas, seja por desvio deliberado. Uma planta cultivada legalmente pode, com relativa facilidade, ultrapassar os limites estabelecidos ou ser redirecionada para mercados paralelos.

Nesse contexto, é ilusório supor que a liberação do cultivo não terá impacto sobre a criminalidade. A produção da droga em território nacional tende a facilitar desvios, alimentar o tráfico e fortalecer mercados ilegais. Experiências internacionais mostram que a criminalidade organizada não desaparece com a regulamentação: ela se adapta, explora brechas regulatórias e mantém operações paralelas, muitas vezes com maior escala.

Há também o efeito simbólico da política pública. Ao chancelar a Cannabis para fins medicinais sem respaldo científico robusto, o Estado contribui para a normalização de uma droga psicoativa, reduzindo a percepção de risco, especialmente entre jovens. Isso tende a ampliar o consumo geral e a pressão sobre sistemas de saúde, segurança pública e assistência social, dentre outros.

Em saúde pública, prudência não é conservadorismo. É responsabilidade. E em democracia, respeitar os limites entre os Poderes não é detalhe jurídico, e sim condição para decisões legítimas, seguras e sustentáveis.

Supersalários serão tema da eleição e Congresso foi capturado por lobby, diz fundador de instituto, FSP

 Adriana Fernandes

Brasília

Fundador da República.org, instituto que atua por reformas no serviço público, o economista Guilherme Cezar Coelho diz que a restrição aos supersalários será tema das eleições neste ano por pressão popular.

Coelho espera que isso ajude o debate a avançar, apesar de estar travado no Parlamento devido ao que ele vê como lobby dos setores do serviço público mais privilegiados. "Ele [o Congresso] foi capturado pelas carreiras que são muito influentes e beneficiadas pelos supersalários."

O assunto voltou ao centro do debate após a Câmara aprovar novos penduricalhos, como são conhecidas as verbas extras que escapam do teto do funcionalismo, que acabaram vetados pelo presidente Lula (PT).

Homem de terno cinza e gravata vinho sentado em cadeira preta, com as mãos entrelaçadas. Ao fundo, parede branca com dois espelhos redondos e planta verde em vaso branco suspenso. Ambiente iluminado e decoração minimalista.
Guilherme Cezar Coelho, fundador da Republica.org, no Ministério do Planejamento - Pedro Ladeira/Folhapress

Por outro lado, a decisão do ministro Flávio Dino, do STF (Supremo Tribunal Federal), de suspender os penduricalhos é uma vitória e oportunidade de regular melhor os salários públicos, avalia Coelho.

Herdeiro de uma das famílias mais ricas do Brasil, o economista defende o avanço da tributação da renda e herança para diminuir a desigualdade social.

A República.org participa de um movimento nacional para acabar com os supersalários. Você tem esperança que o Congresso aprove ainda neste ano projeto restringindo os supersalários?
Tem que aprovar. É o patrimonialismo brasileiro expresso em contracheque, é a apropriação do público pelo privado com recibo. Supersalários estão correlacionados com ineficiência e não impedem a corrupção, como vemos nos casos do [ex-deputado estadual no Rio] TH Jóias, compras de sentenças do STJ e também no Master.

Fala-se em acabar com eles, mas a Câmara acabou aprovando novas benesses.
O império dos penduricalhos contra-ataca. O ministro Flávio Dino, ao suspender os penduricalhos por 60 dias, falou em fim do império. É uma enorme vitória para a melhor organização do Estado brasileiro. É uma oportunidade de regular melhor os salários. Menos de 1% dos servidores recebe supersalários, segundo o estudo do pesquisador Sergio Guedes Reis.

Na sua avaliação, qual será o desfecho dessa decisão?
É uma decisão monocrática e temporária. Logo, o debate continua. Enquanto vale esta decisão, muitos MPs e judiciários vão continuar pagando porque tem leis complementares aprovadas pelas Assembleias Legislativas. Agora a necessidade de uma ADI [Ação Direta de Inconstitucionalidade] permanece para regular onde as leis complementares foram criadas.

A maior notícia do ano nessa agenda de reforma do Estado é o Observatório de Integridade e Transparência do ministro Edson Fachin [que debate os supersalários no Judiciário]. O comportamento jurídico do Brasil está com uma governança pública muito ruim. E o caso Master vai puxar o código de ética que está junto com os supersalários no Observatório do Fachin.

O que pode ser feito para melhorar?
O Estado precisa organizar melhor os salários públicos e não viver de puxadinho em puxadinho, beneficiando apenas as carreiras com mais poder de influência. É desmoralizante para os servidores que não recebem supersalários. Precisamos de regulação. A solução técnica é a gente ter uma comissão independente, que não tenha gente apenas das carreiras, que se beneficiam desses penduricalhos. Temos que parar de falar em penduricalhos e ter essa governança.

Homem de cabelos escuros e curtos veste terno cinza, camisa branca e gravata vinho, sentado com as mãos entrelaçadas. Fundo apresenta padrão geométrico branco com detalhes em amarelo e cinza.
Guilherme Cezar Coelho, fundador da Republica.org. - Pedro Ladeira/Folhapress

Por que a proposta de reforma administrativa não avançou, mesmo tendo o apoio do presidente da Câmara, Hugo Motta?
Ele tentou, mas teve dificuldades no caminho. A proposta também é muito abrangente, o que é ótimo, mas isso causa muitos focos de resistência. Agora, foi um avanço ter havido uma proposta que de ponto de partida já não falava em quebra de estabilidade, não vilaniza os servidores públicos. Reflete maturidade nessa discussão. Mas a gente precisa falar das coisas ruins de serviços públicos. Supersalários são o pior exemplo.

Faltou empenho do governo Lula à reforma?
O tema da reforma do Estado, infelizmente, não é muito para o Lula. Mas a gente espera que isso seja um tema da sociedade. O Datafolha mostrou que 83% da população são contra os supersalários. É um tema popular e que vai ser um tema de campanha das eleições.

Os supersalários se concentram nas carreiras jurídicas e advocatícias do Estado, que além de serem os profissionais que devem garantir o cumprimento da lei e da Constituição, deveriam também trabalhar por maior previsibilidade, melhor regulação e mais segurança jurídica. E isso não está acontecendo. O Brasil vai muito mal nestes quesitos.

Se o Congresso não aprovou a reforma em ano pré-eleitoral, neste ano das eleições é mais difícil ainda?
É uma grande proposta em construção para o próximo ano. Mas eu acho que o tema de supersalários pode e deve ser regulado esse ano por pressão social. O problema da governança dos salários no Brasil é que a própria carreira define seus salários. Outros dizem que é uma corrida para o fundo do poço, porque as pessoas vão ficar tentando aumentar seus salários ao invés de trabalhar pelo Brasil. É isso que a gente está vendo em muitas carreiras.

Se o fim dos supersalários é tão popular, por que o projeto não foi aprovado até agora pelo Congresso?
Ele foi capturado pelas carreiras que são muito influentes e beneficiadas pelos supersalários. Quase passou um projeto de supersalários, que a emenda era pior do que o soneto. O estudo que divulgamos, com um comparativo internacional, mostrou que o Brasil é um ponto fora da curva. É injustificável. O Brasil é muito capturado por aqueles que recebem os supersalários. O governo tem dificuldade porque existe o sindicalismo de penduricalho. Eles acabam pressionando muito o governo.

Como assim?
O governo tem tido medo dessas pessoas e acaba confundindo os seus servidores com seus algozes. Temos 1% dos servidores públicos recebendo supersalários e influenciando os 99% dos servidores. É como uma síndrome de Estocolmo. Os 99% dos servidores que não recebem supersalários são cooptados, viram massa de manobra contra o fim deles.

Que medo é esse que você cita?
A gente tem contato, por exemplo, com associações sindicatos de servidores públicos que não estão nos supersalários e têm medo de se posicionar contra medo de represálias por parte dos sindicatos que são de supersalários. Coisa de gangster, de milícia.

Mas o que eles podem fazer em represália?
Carreiras muito poderosas no limite também podem até atrapalhar o plano de carreira deles. Essas carreiras dos supersalários são a elite do funcionalismo brasileiro. Não a elite de desempenho, infelizmente, mas a elite de poder, são os patrões. Mas tem uma coisa que se impõe que é a integridade, a imagem, e a questão fiscal brasileira. Os estudos mostram que os supersalários custam, no mínimo, R$ 20 bilhões ao ano.

Você faz parte da elite brasileira como herdeiro de um grupo financeiro. Como você viu o debate sobre o imposto dos milionários? Foi tímido?
Tem que ir em frente com a reforma integral da renda e do patrimônio, inclusive revendo o imposto de herança. Um herdeiro no Rio não pode pagar apenas 8% e, em São Paulo, 4%, enquanto na Alemanha e nos Estados Unidos esse valor chega a 44%, os dois países mais produtivos do mundo. Estamos colocando incentivos errados. Na tributação da renda tem muita distorção, tem muito regime especial. Não tenho nada contra os herdeiros brasileiros. Mas não temos porque subsidiá-los.

Raio-X | Guilherme Cezar Coelho, 46

Formado em economia na Universidade Stanford é também cineasta. Dirigiu filmes como "Fala Tu" (2004), "Órfãos do Eldorado" (2015) e "Oceânico", a ser lançado em 2026. Fundou a República.org, dedicada a promover a excelência do serviço público brasileiro, e a MaisProgresso.org, organização dedicada a políticas econômicas para maior crescimento e melhor distribuição de renda. Coelho é filho do ex-deputado Ronaldo Cezar Coelho, que atua no setor de energia e mercado financeiro e é um dos 100 bilionários do país, segundo a Forbes.

Feminicídio e outras violências do país dedicado a bandalheira, besteira e acordão, VTF FSP

 No começo de fevereiro, reinício oficial do ano oficialesco, líderes dos três Poderes assinaram o "Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio". Basicamente, criaram uma comissão, que pode dar em nada ou em alguma coisinha, a depender da política. É o "Comitê Interinstitucional de Gestão", de acompanhamento de dados e ações, com representantes dos Poderes, do Ministério Público e das Defensorias Públicas.

O que tem isso a ver com as conversas do momento, de bandalheira, besteira e acordão nos Poderes ou de governo e oposição envolvidos nessa história de escola de samba do Lula? Nada. É o problema: mais do que de costume, estamos bestificados a assistir um palco tomado por podres e bobagem. Convém lembrar do que não estamos cuidando por causa disso. Por exemplo, feminicídio.

Homem de cabelos grisalhos e barba branca fala ao microfone em evento com painel ao fundo escrito 'Brasil contra o feminicídio'.
Presidente Lula na cerimônia de lançamento do Pacto Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio no Palácio do Planalto - Gabriela Biló - 4.fev.26/Folhapress

No reinício do ano político-jurídico, ainda estava na memória mais comum a história de horror de Tainara Souza Santos, torturada ao ser arrastada pelo carro de um homem. Morreu aos 31 anos, na véspera do Natal do ano passado. Desde então, teriam morrido outras 228 mulheres, dado o número médio de quatro feminicídios por dia. Deve ter sido bem pior.

A taxa média de solução de homicídios no Brasil tem ficado entre 30% e 40% nos últimos nove anos, segundo dados compilados pelo Instituto Sou da Paz. Até o fim de 2024, apenas 36% dos homicídios dolosos que ocorreram em 2023 tinham sido esclarecidos —o instituto avisa que não há informações para todos os estados, mas em geral para algo em torno de 17 deles, por precariedade até do mero registro dos homicídios.

Quantos mais feminicídios há enterrados nessa violência obscura toda? Quanta subnotificação de feminicídio há mesmo entre as mortes registradas e investigadas?

Por falar em homicídio: em 2024, dado mais recente, houve no Brasil 44.127 "Mortes Violentas Intencionais", segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Cerca de 37 mil pessoas morreram no trânsito. Não importa a conversa fiada do calor e do amor no país do Carnaval (que nem é mais muito disso): um lugar que convive sem revolta maior com esse morticínio é monstruoso e morto. "Ah, vão votar (talvez) uma PEC da Segurança". Planos reais, com coordenação nacional, apoio político, projetos e supervisão de gente especializada, com verificação de resultados, não existem. Não sabemos nem mesmo quem foi morto, por qual motivo.

O que isso tem a ver com o tumulto vexaminoso na cúpula dos Poderes e agregados? Com a República afundando ainda mais, como na lama do Master? Há até esforços meritórios e que devem aparecer no palco do ano, como a tentativa de Flávio Dino de conter a roubança com emendas parlamentares ou a lambança com penduricalhos. Mas que esses casos estejam no STF e sejam sabotados pela politicalha também é mau sinal. Assim como tantos outros assuntos fundamentais, o feminicídio não tem nada a ver com isso. Perde o lugar.

Qualquer cidadão prestante pode fazer sua lista de assuntos cruciais e ignorados no centro do debate constante: pobreza e ineficiência crônicas, baderna da energia, ciência precarizada, ou notas sempiternamente ruins nas escolas. Ignoramos até assuntos da moda, como o nosso atraso terminal em IA. Nosso assunto é desordem institucional, a politicalha mais baixa degradando a função dos Poderes, sem movimento político ou social forte ou de partido relevante de oposição a esse estado de coisas.