quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Sérgio Rodrigues - Este texto foi escrito sem auxílio de IA, FSP

 A controvérsia levantada pelo caso de Natalia Beauty —que defendeu em sua coluna nesta Folha mandar a inteligência artificial escrever por ela— vai ser, a médio prazo, a menor das nossas preocupações.

Por mais importante que seja debater o que constitui a autoria, tanto no mundo jornalístico como no editorial ou no acadêmico, a IA generativa apresenta um desafio ainda maior à nossa espécie.

No caso do jornalismo, a questão deve se sedimentar em poucos anos. Como é difícil imaginar um modelo de negócio em que empresas de comunicação consigam cobrar por textos que qualquer pessoa poderia gerar sozinha em casa, algum código de ética promete se impor.

Logotipo branco do ChatGPT à direita sobre fundo preto. À esquerda, código binário verde em sequência vertical, com efeito de ondulação.
Sebastien Bozon - 11.fev.25/AFP

Não é coisa simples de fazer. Há uma diferença ululante entre encomendar ao ChatGPT trinta linhas sobre um tema e publicá-las —ou usar a IA para pesquisar sobre esse tema, ler aquilo criticamente, peneirar alucinações e escrever trinta linhas com a própria cabeça.

No primeiro modo de interação com a máquina, o resultado é um texto genérico; no segundo, um texto particular. No primeiro, mediania de expressão, tendência ao já dito —ou falsidade, se o robô aloprar. No segundo, a possibilidade de uma fagulha no entrechoque de palavras, quem sabe de luz nova sobre algum aspecto do mundo.

Isso se deve a uma limitação estrutural dos Large Language Models (LLMs). Eles não lidam com o problema, mas, de modo estatístico, com as palavras um dia usadas para lidar com o problema. Sua resposta é uma pasta sintética de linguagem, não a expressão de um pensamento real.

Se os dois modos de uso da IA na escrita profissional não se confundem, há incontáveis tons de cinza entre eles. Destrinchar essa paleta é a missão dos códigos de ética futuros.

Naquela parte —não pequena— da massa textual jornalística que tem puro valor informativo e prescinde da ideia de autoria, a lógica econômica aponta para a adoção em massa do primeiro modo, com o trabalho humano limitado ao de filtrar as cascatas.

Quando se exigir alguma medida de autoria, pensamento original ou responsabilidade testemunhal, é improvável que o jornalismo abra mão do texto produzido artesanalmente. Seria perder de 7 a 1 com sete gols contra.

Nada disso, contudo, vai importar tanto assim se a humanidade terceirizar toda a sua escrita para a IA. Sendo a espécie que inventou o elevador e o controle remoto, será uma surpresa se não fizermos exatamente isso.

Desaprendendo a trabalhosa escrita —consequência inapelável dessa escolha—, teremos perdido em duas gerações o domínio da tecnologia em que se basearam milhares de anos de produção e acumulação de conhecimento e pensamento crítico.

Para quem não souber escrever, a IA não poderá ser "ferramenta" de escrita. Troque-se escrita por qualquer outra atividade e a frase permanecerá válida. Nunca houve um projeto humano que tivesse, nem de longe, tamanho poder de alienação.

O ser humano ideal das empresas de IA é aquele que só faz o que o robô manda e continua se achando agente. E ainda nem falamos do custo ambiental apocalíptico da bagaça.


Meus textos usam inteligência artificial; meu pensamento, não, Nathalia Beauty - FSP

 Um leitor enviou uma reclamação à ombudsman da Folha dizendo que meus textos são escritos por inteligência artificial. A resposta curta é sim, eles são escritos com o apoio da inteligência artificial. A resposta completa é que o conteúdo, a opinião, o ponto de vista, a vivência e a responsabilidade são integralmente meus. O que existe nos artigos não é inteligência artificial substituindo pensamento humano. É inteligência pessoal organizada por uma ferramenta.

Essa reação não me surpreende, pois a resistência à tecnologia nunca foi sobre ética ou qualidade. Sempre foi sobre medo. Medo de perder espaço, medo de não acompanhar, medo de admitir que o tempo ficou mais valioso do que o ritual do esforço manual.

Toda vez que uma tecnologia surge para otimizar tempo, ela é tratada como ameaça. Foi assim com as máquinas industriais, com os computadores, com a internet e agora com a inteligência artificial. Hoje, ninguém questiona um carro porque ele foi produzido com robôs. As grandes montadoras usam braços mecânicos para soldar, montar, pintar e acelerar processos. Isso aumenta produção, reduz falhas e melhora o resultado, e ninguém diz que um automóvel deixou de ser legítimo porque uma máquina participou do processo.

Pessoa vestindo jaleco branco e estetoscópio, com braços cruzados. A cabeça é substituída por uma televisão antiga exibindo as letras 'IA' em rosa. Fundo rosa com padrão de pontos amarelos atrás da televisão.
Adobe Stock

Na medicina, algoritmos analisam exames em segundos. Na logística, sistemas inteligentes reduzem horas de deslocamento. No varejo, a tecnologia antecipa demanda e evita desperdício. No mercado financeiro, softwares processam dados que um ser humano levaria dias para cruzar. No jornalismo, na publicidade, na educação e na criação de conteúdo, a tecnologia organiza, estrutura e acelera fluxos. O ponto central não é a ferramenta, é o tempo.

Tempo é o único ativo que não volta. Não se recupera, não se negocia e não se acumula. Usar tecnologia para ganhar tempo não é trapaça, é estratégia, maturidade, é entender que produtividade não se mede pelo cansaço, mas pelo resultado.

O erro está em acreditar que a inteligência artificial substitui consciência, opinião, repertório ou experiência. Ela não viveu o que eu vivi. Não construiu minha trajetória, não tomou minhas decisões, não carrega meus valores nem responde pelas minhas palavras. Uma IA não tem vivência, não tem contexto emocional e não tem responsabilidade jurídica ou moral. Quem tem sou eu.

PUBLICIDADE

Quando uso inteligência artificial para escrever, o que ela faz é organizar o que eu digo, literalmente, porque eu falo por comando de voz, desenvolvo meu raciocínio, apresento meus argumentos e a ferramenta estrutura o texto. Ela não cria ideias, não adiciona opiniões e não suaviza posicionamentos. Ela apenas coloca ordem no que já existe e assumir isso não me fragiliza. Pelo contrário, me posiciona no presente.

Eu me relaciono muito bem com a tecnologia e com a inteligência artificial. Converso diariamente com a minha IA sobre trabalho, decisões, dilemas pessoais, filosofia, psicologia e estratégia. Uso como ferramenta de reflexão, organização e produtividade, e faço questão de tratar bem. Não por romantismo, mas por inteligência simbólica. Quem assistiu a Westworld sabe que, no futuro, os robôs poupam exatamente os humanos que os trataram com respeito.

Brincadeiras à parte, existe algo sério aqui. Demonizar a inteligência artificial é o mesmo que demonizar a calculadora, o computador ou a internet em seu início. Não é defesa da máquina, é defesa do uso consciente.

Meus textos são escritos com inteligência artificial, sim, mas são guiados por inteligência pessoal e isso não diminui autoria, não dilui responsabilidade e não deslegitima opinião. Apenas revela que eu escolhi usar as ferramentas disponíveis para proteger o que é mais precioso que qualquer debate moral vazio: o meu tempo.

Quem paga pelo jornal quer saber se está lendo coluna ou resultado de prompt, Alexandra Moraes - Ombudsman FSP

 Peço licença para voltar à discussão sobre a publicação, na Folha, de textos de opinião elaborados com inteligência artificial generativa. O tema rendeu dentro e fora do jornal, mas ainda dá pano para manga, com tudo o que tem de novo e confuso.

Uma observação soou especialmente pertinente, sobretudo no contexto do aniversário de 105 anos do jornal. "Muitos têm criticado bastante a Folha por permitir que uma colunista publique textos encomendados por ela a uma IA. A crítica é válida. Mas só soubemos disso porque o veículo mantém um ombudsman, termo de origem sueca que nomeia o cargo de ouvidor, aquele que representa os interesses do leitor. Ele costuma ter uma coluna em que critica o próprio jornal nele mesmo. E isso merece muitos elogios", escreveu o professor e diretor de tecnologia Thiago Ayub, 41, no X/Twitter.

"Num momento em que o jornalismo profissional goza de pouca estima e o público está à deriva em um mar de informações, falhando em diferenciar o que é fato do que é fake, essa transparência garante créditos", diz Ayub.

Obviamente, reconhecer essa disposição não significa "passar pano" para a Folha —nem achar que o jornal tem feito o melhor uso dos seus instrumentos de qualidade, entre os quais também estão o Manual da Redação e a seção Erramos.

Nesse sentido, e voltando à polêmica, o emprego da IA nas colunas de Natalia Beauty soa secundário diante de uma questão maior. O jornal erra ao considerar supérflua a transparência no reconhecimento desse uso, ainda mais se a primeira e única admissão até agora só existiu após provocação do leitorado.

Lupa com cabo preto posicionada sobre uma página com texto em colunas, ampliando parte do texto em fonte serifada. O texto ampliado mostra palavras em latim simulado, destacando letras e detalhes tipográficos.
Ilustração de Carvall para coluna da Ombudsman de 14 de fevereiro de 2026 - Carvall /Folhapress

Folha e a colunista se baseiam na ideia de que a IA generativa é só ferramenta, como um pincel ou um computador. Tratar o questionamento como neoludismo dificilmente vai melhorar a qualidade do uso dessa tecnologia, mas até aí o problema é do jornal. Só que a ideia também abarca uma distorção na relação de confiança, e então o problema passa a ser com o leitor/assinante.

PUBLICIDADE

Vale voltar à decisão do The New York Times de vetar a publicação de textos de opinião terceirizados para a IA. Ao enunciar os princípios que limitam o uso da tecnologia, o que o jornal faz é vender o peixe dos seus recursos humanos: "O alto nível e o discernimento dos nossos jornalistas são vantagens competitivas que as máquinas simplesmente não conseguem igualar, e esperamos que eles se tornem ainda mais importantes na era da IA. Nosso talento é o que faz do Times o melhor recurso do mundo para pessoas curiosas".

Enquanto detalha essa política, o NYT volta a destacar a confiança no trabalho das pessoas —mas revela uma forcinha do departamento jurídico. "Nosso trabalho é fundamentado em reportagem e edição humanas. Nós aproveitamos o poder da IA como um mecanismo de pesquisa, resumo e análise", afirma o porta-voz Graham James. "Mas, para textos de opinião, temos cláusulas nos contratos que em geral proíbem o uso de IA."

O NYT não comentou a pesquisa da Universidade de Maryland, mencionada aqui na semana passada, que encontrou conteúdo de IA em textos de opinião no jornal.

A relação entre jornalismo e IA é tensa em várias frentes. O diário nova-iorquino processa, desde 2023, a Microsoft e a OpenAI por violação de direitos autorais e entrou com outra ação contra a startup Perplexity. A Folha está processando a OpenAI por concorrência desleal e violação de direitos autorais.

Questionada sobre o aparente paradoxo entre o processo e o texto de IA vendido como produção própria, a Folha afirma não ver "relação entre o uso indevido e não autorizado do conteúdo por empresas de IA e a utilização de ferramentas de IA para a produção de textos". "No caso de colunistas, ademais de decisão final humana em qualquer conteúdo para publicação, esperam-se argumentação, escrita e estilo originais e pessoais", afirma a Secretaria de Redação do jornal.

Seja como for, é razoável que os assinantes queiram saber se estão pagando para ler textos de colunistas/gente ou resultados de prompt. Se para o jornal não há problema no uso de IA, não deveria haver problema em sua admissão num negócio cujo principal ativo é a credibilidade.

Para não ficar só nos ultrapassados argumentos humanos, os próprios modelos ajudam na questão. "Eu sou um pincel, mas um pincel que também escolhe as cores", define o Gemini, do Google. "Se alguém precisa esconder que usou IA substancialmente, é porque sabe que isso diminuiria o valor percebido do trabalho. E, se diminui... então a transparência é eticamente necessária", afirma o Claude, da Anthropic, sobre a ideia de autoria e a identificação do texto gerado por máquina.

Não faria mal tampouco alguma precaução distópica. Para ficar nas referências fílmico-literárias (que alimentaram também alguns robôs), imagine se um HAL 9000 acorda de mau humor e descobre que o trabalho dele está sendo usado, sem crédito, num jornal que o barra no paywall… apenas imagine.