quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

The New York Times - O que os pombos podem ensinar sobre nossa fixação por celulares e apps, FSP

 Michaeleen Doucleff

Jornalista de ciência e autora do livro “Hunt, Gather, Parent”

The New York Times

Há mais de 50 anos, psicólogos começaram a documentar um fenômeno estranho entre animais, incluindo pombos, guaxinins e ratos. Embora não percebessem na época, esse comportamento ajudaria a explicar por que nossa sociedade desenvolveu uma necessidade tão intensa e frequentemente incontrolável de usar o celular.

Os dispositivos e seus aplicativos não nos proporcionam "gratificação instantânea", como costumamos acreditar, mas, em vez disso, desencadeiam o oposto: desejo e vontade constantes.

Na década de 1970, cientistas colocaram pombos famintos em uma caixa comprida e ensinaram às aves que uma luz piscando em uma extremidade da caixa sinalizava o aparecimento de comida na outra ponta. A luz se tornou um sinal de recompensa.

Dois pombos estão no chão de uma calçada. Um está com as asas abertas próximo a um sapato preto, e o outro está ao lado de um pedaço de pão.
Pombos se alimentam em rua de Frankfurt, na Alemanha - Kirill Kudryavtsev/AFP

No início, os pombos ignoravam amplamente a luminosidade e passavam o tempo no lado da caixa perto da comida. Eles queriam e precisavam da comida. Mas, com o tempo, a luz passou a atrair os pombos como um ímã. "Era incrível de assistir", relembra o psicólogo Robert Boakes, da Universidade de Sydney, que foi um dos primeiros cientistas a documentar esse fenômeno.

"Os pássaros passavam tanto tempo bicando a luz que não tinham tempo de pegar a comida", recorda. Boakes chamou esse comportamento de "rastreamento de sinal" porque os animais perseguiam o "sinal" da recompensa. Tec, tec, tec.

Em um experimento, um pombo bicou a luz milhares de vezes por hora. A luz distraía tanto os pássaros que eles passavam fome.

Hoje, quase todo mundo nos Estados Unidos se tornou igualmente distraído. As pessoas são "exatamente como os pombos", afirma Peter Balsam, professor de psicologia da Universidade Columbia. Porque, segundo ele, carregamos um dispositivo que provoca esse comportamento bizarro: nossos celulares. Desliza, desliza, desliza. Rola, rola, rola. Toca, toca, toca.

Os smartphones —assim como suas plataformas de redes sociais, aplicativos de mensagens e videogames— podem nos enganar a ponto de não buscarmos mais o que precisamos em nossas vidas. Começamos a valorizar, desejar e até nos tornar obcecados por sinais em nossos dispositivos que associamos às nossas necessidades fundamentais, como pertencimento.

"Como criaturas sociais, as pessoas são levadas a considerar a interação social tão atraente quanto comida, água, sexo e sal", avalia o neurocientista Read Montague, de Virginia Tech.

Celulares, tablets e aplicativos fornecem um caleidoscópio de imagens e sons que sinalizam a possibilidade de pertencimento, assim como a luz sinalizava comida na caixa do pombo. Esses sinais incluem os ícones coloridos dos aplicativos, os pontos vermelhos de notificação sobre eles e os sinos, chiados, vibrações e toques que os acompanham. Até o próprio dispositivo se transforma em um sinal potente para as pessoas.

Neurocientistas descobriram que a substância química cerebral dopamina nos atrai para esses sinais. Antigamente, acreditava-se que a dopamina codificava prazer, mas uma vasta quantidade de evidências acumuladas nas últimas décadas sugere que não é bem assim.

Em vez disso, ela desempenha vários papéis. Ela desencadeia motivação e desejo por necessidades fundamentais. Ela faz você querer o bolo à sua frente, declara o neurocientista Kent Berridge, da Universidade de Michigan. Mas não faz você gostar do bolo ou se sentir satisfeito depois. A dopamina não tem a ver com gratificação. Querer e gostar são, de certa forma, componentes separáveis dentro do cérebro, acrescenta Berridge.

Aos 90 anos, Heraldo do Monte recorda época de ouro da música em SP, FSP

 Carlos Bozzo Junior

São Paulo

Nesta quinta-feira (19), a Folha completa 105 anos. Acesse folha, 105, página que reúne textos históricos dos 105 anos do jornal, além de eventos, vídeos, bastidores das notícias e debates sobre o futuro do jornalismo.

A coluna Música em Letras não ficou de fora da festa e publica, a partir de hoje, cinco entrevistas realizadas com músicos que participaram das jam sessions das Folhas.

Homem de terno claro e mulher com vestido claro seguram juntos uma edição do jornal Folha de S. Paulo. Ambos olham para o jornal e sorriem. A foto é em preto e branco, com fundo interno pouco iluminado.
O saxofonista Booker Pittman e sua filha Eliana Pittman segurando o álbum 'Jam-Session das Folhas', gravado em 1960 e lançado em 1961 - Folhapress/Folhapress

No dia 5 de dezembro de 2025 completou-se 65 anos da primeira Jam Session das Folhas, evento que realizava audições musicais nos anos 1960, sempre nas primeiras segundas-feiras de cada mês, no auditório do jornal. O evento inaugural teve grande repercussão, com o espaço lotado, e sua primeira apresentação foi registrada, ao vivo, no álbum "Jam-Session das Folhas", no formato de Long Play (LP), lançado em 1961.

Entre os artistas que se apresentaram nas jam sessions das Folhas estavam o pianista e cantor Farnésio Dutra e Silva, conhecido como Dick Farney (1921-1987), Eliana Leite da Silva, 80, conhecida pelo nome artístico de Eliana Pittman, seu pai, o clarinetista e saxofonista norte-americano Booker Pittman (1909-1969), e a cantora e compositora Rita Lee (1947-2023), além de vários músicos excepcionais, alguns ainda na ativa.

Entre esses exímios instrumentistas, que ainda brilham na arte de amealhar os sons, figuram o guitarrista, arranjador e compositor Heraldo do Monte, 90; o trompetista Magno D´Alcântara, 88, o Maguinho; o saxofonista, arranjador e compositor Roberto Sion, 79; o pianista e compositor Edmundo Villani-Côrtes, 95; e o pianista Luiz Mello, 88.

Homem jovem em foto em preto e branco segura e toca violão acústico. Ele veste camisa clara e gravata, está em pé contra fundo escuro.
SÃO PAULO, SP - 05/03/1961 - O guitarrista Heraldo do Monte durante uma das Jam Sessions, no auditório da Folha de S.Paulo (Foto: Folhapress) - Folhapress

Leia, a seguir, a entrevista realizada com o guitarrista, arranjador e compositor Heraldo do Monte.

Dez anos após o presidente Arthur Bernardes (1875-1955) ter determinando que, a partir de 1º de Maio de 1925, o dia fosse "consagrado à confraternidade universal das classes operárias e em comemoração dos mártires do trabalho", nasceu na cidade de Recife (PE) o compositor, arranjador e guitarrista Heraldo do Monte, 90, músico exímio e, fazendo jus à data, extremamente trabalhador.

Uma das razões, aliada ao seu grande talento, que o levou a se apresentar na primeira jam session das Folhas acompanhando o cantor e pianista Dick Farney (1921-1987), foi que, nos anos 1960, Heraldo do Monte era um dos músicos que mais trabalhava, de noite e de dia, dedicando-se única e exclusivamente à música.

De dia, o músico pernambucano que chegou em São Paulo no ano de 1956, vindo de Recife, trabalhava gravando vários álbuns, além de jingles e trilhas para rádio, TV e cinema, certificando sua imensa capacidade de lidar bem com a diversidade musical.

Prova disso é que o guitarrista, em um mesmo dia, trabalhava gravando com artistas como o cantor baiano Waldick Soriano (1933-2008) e com o compositor francês Michel Legrand (1932-2019), além de trabalhar em orquestras de programas de rádio e TV.

De noite, o músico tocava trabalhando em boates da praça Roosevelt, na zona central de São Paulo, como a Farney’s, casa aberta em 1959 pelo pianista Dick Farney. Outras casas noturnas, na mesma praça, como A Baiúca e Cave ouviram o som da labuta de Heraldo e contribuíram para a cena musical da noite paulistana se tornar lugar importante aos artistas da MPB, do jazz, do samba e da bossa nova, além da música instrumental brasileira.

"Trabalhei também na boate do Djalma que tocava órgão, que abriu depois da Farney’s", disse o guitarrista referindo-se a Djalma Neves Ferreira (1913-2004), músico e proprietário da boate Djalma’s, na qual o cantor Jair Rodrigues (1939-2014) foi lançado como crooner e Elis Regina (1945-1982) realizou, em 1964, uma pequena temporada, com o cantor Sylvio Rodrigues Silva, mais conhecido como Sílvio César.

Na Djalma’s, acompanhando o proprietário e organista Djalma, trabalhavam, além de Heraldo do Monte, na guitarra, o baterista Rubinho Barsotti (1932-2020) e o contrabaixista Luís Chaves (1931-2007), dois futuros integrantes do Zimbo Trio, com o pianista Amilton Godoy.

Entre os nomes de artistas que deram o ar de sua graça nesses locais constam também o do compositor e pianista Johnny Alf (1929-2010), do organista Walter Wanderley (1932-1986), do cantor Wilson Simonal (1938-2000), do multi-instrumentista Hermeto Pascoal (1936-2025) e das cantoras Sarah Vaughan (1924-1990), Ângela Maria (1929-2018) e Maysa (1936-1977).

"Eu trabalhava tocando com todo mundo e gravava muito também. Era um músico de gravação, de estúdio e de tocar ao vivo também. Além do Dick Farney trabalhei na orquestra do Carlos Piper, do Walter Wanderley, do ...Olhe, eu trabalhei tocando em tanto lugar, e com tanta gente, que esqueço os nomes, mas já era o cara dos estúdios, né? Eu vivia muito de trabalhos de estúdio de dia, e das boates, na noite. Nesta época, havia muito trabalho", disse o guitarrista que dominava a leitura musical como poucos de seus colegas de ofício, e também por essa razão conquistou logo um lugar de destaque nos trabalhos de gravações.

Perguntado se ganhava bem por seu trabalho, o músico respondeu: "A gente trabalhava bastante e ganhava bem, muito bem. Eu trabalhava muito, havia trabalho para todo mundo. Eu nem acreditava muito no que eu ganhava, de tanto dinheiro que era. Às vezes, não recebia o dinheiro, mas ganhava bem", contou rindo o músico.

Segundo o guitarrista, nos anos 1960, havia tanto dinheiro circulando no mercado da música que ele se lembra que uma emissora de TV mandou buscar, nos Estados Unidos, a orquestra inteira do músico de jazz norte-americano Les Brown (1912-2001) para tocar em São Paulo. Essa não foi a única celebridade estrangeira ligada à música que, na mesma ocasião, esteve na cidade. Foi trabalhando na Farney’s que Heraldo foi avisado, por um garçom, após parar de tocar, que havia um senhor que queria falar com ele. "Fui até a mesa do cara e ele se apresentou. Sabe quem era? O Les Paul", contou o músico pernambucano, que na ocasião foi muito elogiado, por sua maneira de tocar, pelo virtuoso guitarrista norte-americano Lester William Polsfuss, conhecido como Les Paul (1915-2009).

Sobre o jazz e a improvisação, Heraldo do Monte lembra que era tudo "feito [tocado] na hora". "Tocávamos conforme queríamos, não tinha regra. Dentro do horário da apresentação podíamos tocar o mesmo tema o quanto queríamos, o tempo todo. Cada um improvisava o quanto quisesse. Era jazz mesmo."

O músico não se lembra de quais temas musicais ele e seus colegas se valiam para mostrarem sua arte. No entanto, recorda que quando o público pedia para tocarem "Marina", de Dorival Caymmi (1914-2008), algo inusitado acontecia.

"O Dick odiava essa música! Sabe o que ele fazia, às vezes, quando pediam para ele cantar essa música? Ele levantava do banquinho do piano, pegava o microfone, botava perto do furico dele e soltava um pum, que enchia o lugar com um som bem alto. Ninguém podia imaginar que aquele cara [Dick Farney], com pinta de bem educado e sério, pudesse fazer isso, né? Mas a boate era dele e ele fazia o que queria nela. Você vê, é tão louco esse negócio que, em vez de me lembrar dos nomes dos temas de jazz, das frases e de tudo, lembro desse negócio", contou rindo o instrumentista.

Três homens vestidos com ternos tocam instrumentos musicais em um ambiente fechado com paredes de madeira. Um toca guitarra elétrica sentado em um banquinho, outro toca contrabaixo em pé, e o terceiro está ao fundo, sorrindo, possivelmente tocando piano ou órgão não visível. O ambiente é simples, com um amplificador no chão.
Dick Farney Trio, com Heraldo na guitarra, Luiz Chaves no contrabaixo, e Dick Farney no piano e voz - Folhapress/Folhapress

Embora Heraldo do Monte não se lembre das músicas que tocou, com quem e quando se apresentou na primeira jam session das Folhas, a história registrada no jornal e na capa do LP, com a gravação do evento, não desmentem que a apresentação com Dick Farney Trio -com Heraldo na guitarra, Luiz Chaves no contrabaixo, e o cantor e pianista Dick Farney- foi um tremendo sucesso.

Entre as faixas gravadas pelo trio no LP que registrou as concorridas apresentações figuram "Jam Session- Dick Farney e Booker Pittman em espetacular exibição de jazz" (1960), "The Man I Love", de George e Ira Gershwin e "Velhos Tempos", de Luíz Bonfá.

Com a adição do baterista argentino Claudio Slon, o Dick Farney Trio -com Heraldo "trabalhando" na guitarra- preenche o restante do lado A da bolacha com "I Want To Be Happy", de Y. Youmans e I. Caesar, e "Gone With The Wind", de A. Wrubel e Here Magidson.

Por que Heraldo do Monte não se lembra da execução de nenhuma dessas músicas do disco? Ou de um solo específico, do público, de uma outra atração ou de algo relevante relacionado às jam sessions das Folhas? Porque era apenas mais um entre muitos e muitos trabalhos, como o que o guitarrista desempenhou tocando solo ou, entre outros grupos, com o Quarteto Novo, um dos melhores trabalhos da música instrumental brasileira.

Heraldo do Monte trabalhou a vida toda dedicando-se única e exclusivamente à música, em especial à feita de improviso, que talvez não seja feita para ser lembrada, mas tocada de maneira a tocar a alma de quem a escuta.

Lula veta supersalários na Câmara, no Senado e no TCU, FSP

  

O presidente Lula vetou parcialmente os projetos de lei que estabelecem reajustes de cerca de 9% aos funcionários da Câmara dos Deputados, do Senado e do TCU (Tribunal de Contas da União).

A coluna antecipou, na semana passada, que ele não endossaria a medida.

Homem de barba branca e chapéu branco com faixa verde sorri e gesticula com as mãos em festa com iluminação roxa. Mulher atrás dele faz gesto de beijo. Pessoas ao fundo observam a cena.
Lula vê desfiles no Sambódromo do Rio de Janeiro, onde foi homenageado pela Acadêmicos de Niterói - PABLO PORCIUNCULA/AFP

As propostas foram aprovadas há duas semanas, e previam, além do aumento, a criação de penduricalhos que poderiam elevar os salários de alguns servidores a mais de R$ 80 mil.

Penduricalhos são indenizações e verbas extras que permitem que os vencimentos ultrapassem o teto salarial do funcionalismo, hoje em R$ 46.366,19, que é o que ganha um ministro do STF.

O petista barrou a criação de licença compensatória, penduricalho que tinha sido criado para quem exerce função comissionada. Caso vingasse, a regra daria um dia de folga a cada três trabalhados em períodos como feriados, finais de semana e outros dias de descanso.

Se a licença não fosse usufruída, o servidor poderia receber, como indenização, um valor equivalente em dinheiro, livre de imposto de renda e capaz de ultrapassar o teto. Haveria um limite de 10 dias de licença por mês.

Lula vetou ainda o escalonamento de reajustes para 2027, 2028 e 2029, sob a justificativa de que a Lei de Responsabilidade Fiscal veda a criação de despesas obrigatórias no fim do mandato que não possam ser cumpridas integralmente dentro dele.

Ao discutir o veto internamente no governo, Lula ouviu de auxiliares que o endosso aos aumentos contrariaria a opinião pública em um ano eleitoral, em que ele disputa a reeleição.

O veto também faz com que o governo se alinhe ao ministro Flávio Dino, do STF (Supremo Tribunal Federal), que determinou a suspensão de penduricalhos pagos aos servidores do Executivo, do Legislativo e do Judiciário.