terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Joisa Dutra- Quem está pagando o pato da conta de luz?, FSP

 Em 2026 haverá eleições presidenciais no Brasil —e, como sempre, é ano de não desagradar o eleitorado. Como a satisfação do cliente-eleitor começa pelo bolso, ou pela percepção do que o incomoda, vale olhar com mais cuidado para um tema recorrente do debate público: a conta de luz.

Nos últimos anos, a agenda ambiental e climática trouxe para o centro das discussões a chamada affordability —a capacidade de pagamento dos usuários. Não basta estar conectado à rede, algo que já é realidade para mais de 99,8% da população. Vida digna também significa poder consumir energia: ligar o ar-condicionado, tomar banho quente, usar eletrodomésticos sem medo da fatura no fim do mês.

Subestação de distribuição de energia elétrica em Marília (SP)
Subestação de distribuição de energia elétrica em Marília (SP) - Alf Ribeiro - 13.mar.24/Folhapress

O tema não é exclusivo do Brasil. Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump prometeu reduzir os custos de eletricidade pela metade em um ano de governo, atribuindo o problema às renováveis variáveis. Até agora, não entregou. Na Europa, o desafio também é grande: a descarbonização exige investimentos vultosos, mesmo com a queda expressiva dos custos da solar e da eólica.

Mas, para dar substância ao debate, é preciso ir além da narrativa.

Os dados mostram que, no Brasil, a tarifa de eletricidade não cresceu sistematicamente acima da inflação quando observada em horizontes mais longos —seja nos últimos 10 ou 5 anos. Mesmo considerando o impacto da crise hídrica de 2021, o comportamento do IPCA-eletricidade não revela uma explosão tarifária persistente.

O que mudou foi outra coisa: a volatilidade. Desde 2012, as tarifas passaram a oscilar mais, refletindo políticas públicas, intervenções e arranjos regulatórios que pouco têm a ver com sinalização eficiente de custos. Volatilidade não é um problema em si —desde que reflita custos reais. O problema é que não reflete.

O verdadeiro motor da pressão sobre a conta de luz está nos encargos setoriais, em especial na CDE (Conta de Desenvolvimento Energético). Prevê-se um aumento de cerca de 7% da CDE em 2026 — número que deve ser lido com cautela. Em 2025, o orçamento inicialmente submetido pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) à consulta pública era da ordem de R$ 40 bilhões, mas encerrou o ano próximo de R$ 49 bilhões.

Criada e ampliada ao longo do tempo, a CDE financia políticas legítimas —universalização do serviço, tarifa social, geração em sistemas isolados, incentivos a tecnologias emergentes, como solar e eólica. O problema não é a política pública em si, mas onde ela é financiada. Ao ser embutida na tarifa, a CDE mascara ineficiências, perpetua subsídios e transfere custos de forma pouco transparente entre consumidores.

O resultado é regressivo. Com o avanço da micro e minigeração distribuída e a abertura do mercado livre, consumidores que podem reagir —residenciais de alta renda, comércios e indústrias— saem do ambiente regulado. A conta fica para quem permanece: em geral, consumidores de menor renda.

Nossa análise para a área de concessão da Cemig mostra que cerca de 75% dos adotantes de painéis solares em 2024 estavam entre os 40% de maior renda. Se as regras permitem essa arbitragem regulatória, é difícil condenar o comportamento individual. No agregado, porém, o efeito é conhecido: reforça-se a espiral da morte na distribuição, na qual quem sai deixa custos para quem fica.

Affordability é, sim, um problema —e um tema eleitoral poderoso. Mas errar o diagnóstico leva a soluções ruins. O custo da energia caiu com o avanço das renováveis, mas os ganhos de competitividade vêm sendo apropriados por grupos capazes de redesenhar a regulação a seu favor. Essa tese não é nova: desde os anos 1970, Gary Becker e Sam Peltzman apontavam que a regulação poderia ser capturada para distribuir rendas, mais do que estimular eficiência.

O setor elétrico se acostumou a discutir a duck curve —a curva do pato da transição energética. Falta discutir quem está pagando o pato. A maior parte da população brasileira está na chamada classe média baixa, fora do CadÚnico e sem acesso a programas de proteção. É esse grupo que hoje financia, silenciosamente, escolhas distributivas feitas longe das urnas —mas sentidas todo mês na conta de luz.

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Engenharia, água e futuro: o sonho que ainda move São Paulo, vários autores, FSP

 


O sonho do engenheiro norte-americano Asa White Kenney Billings foi dar solução a um dos maiores desafios de São Paulo nos anos 1920: a crise energética que ameaçava a industrialização do estado. Sua resposta foi ousada, visionária e transformadora. Ao idealizar o chamado Projeto Serra, Billings lançou as bases de um sistema que mudaria para sempre a relação da capital paulista com a água e a energia.

Contratado pela empresa Light em 1922, Asa Billings rapidamente se destacou como um engenheiro pioneiro em sistemas de geração de energia no Brasil. Diante da grave escassez energética vivida entre 1923 e 1924, ele propôs uma solução inovadora: reverter o curso do rio Pinheiros, represar suas águas e as do rio Tietê no alto da serra do Mar, e utilizar o expressivo desnível para gerar energia na usina de Cubatão no pé da serra, hoje conhecida como usina Henry Borden.

A imagem mostra uma comunidade localizada à beira de um rio, com várias casas de diferentes tamanhos e cores, predominantemente em tons de terra e pastéis. A área é montanhosa, com as casas empilhadas em uma encosta. O céu está parcialmente nublado, e a água do rio reflete a paisagem ao redor.
A represa Billings, que completou 100 anos em 2025, sofre com ocupação desenfreada em suas margens - Zanone Fraissat - 25.mar.25/Folhapress

O projeto começou a tomar forma por volta de 1927. O reservatório, concluído em 1935, passou a ter uma área entre 127 e 132 km² e se tornou peça-chave tanto para o abastecimento de água quanto para a produção de energia. Durante décadas, o sistema de reversão com o reservatório e a usina Henry Borden foi responsável por 80% a 90% da energia consumida em São Paulo, sustentando o crescimento industrial do estado até os anos 1950. Em reconhecimento à sua importância, em 1949 o reservatório passou oficialmente a se chamar represa Billings.

Um século depois, o legado de Asa Billings permanece atual. A represa é hoje um dos principais reservatórios da região metropolitana de São Paulo (RMSP), embora enfrente desafios históricos relacionados à poluição e à ocupação irregular de suas margens.

Nesse contexto, o projeto da Sabesp hoje de utilizar a água da Billings para abastecimento público não é uma novidade conceitual, mas traz uma inovação estratégica relevante: a integração definitiva desse manancial ao chamado Sistema Integrado Metropolitano (SIM). A água do Tietê e Pinheiros armazenada em Billings se somaria aos sistemas produtores Cantareira, Guarapiranga, Alto Tietê, Rio Grande, Rio Claro, Alto Cotia e São Lourenço.

Cerca de 12 anos atrás, a Sabesp ainda estatal cogitou comprar a Emae (Empresa Metropolitana de Águas e Energia). As negociações não avançaram porque a despoluição do Tietê-Pinheiros levaria tempo incompatível com a retomada do pleno uso da usina Henry Borden para resultar num plano de negócios exequível. Na época, o ritmo de investimentos era cerca de R$ 3 bilhões por ano. Mais do que investia qualquer outra concessionária de saneamento, mas bem menor do que investe atualmente a Sabesp não estatal.

Mas, para utilizarmos a Billings para abastecimento da região metropolitana, será necessário concluir a despoluição dos rios Tietê e Pinheiros. Há muito a ser feito, mas muito também já foi realizado. Isso vai requerer a conexão de mais de 2 milhões de residências às redes de coleta e tratamento de esgoto na região leste da capital. Um esforço de grande envergadura a custos, segundo a Sabesp, de mais de R$ 23 bilhões associados a inovações técnicas e administrativas. A atual possibilidade de acelerar investimentos é que torna possível transformar o sonho em realidade.

Seriam, portanto, oito sistemas produtores integrados ao SIM. O número oito, que muitos associam ao símbolo do infinito, pode até sugerir abundância. Mas não devemos nos enganar.

A água não é infinita. A disponibilidade hídrica per capita na Grande SP é menor do que a do semiárido nordestino. Para superar essa limitação é preciso realizar obras de engenharia, como a concebida por Billings, assim como as que estão sendo atualmente executadas para coleta e tratamento de esgotos. A realização de obras, porém, é apenas uma condição necessária. Para que seja também suficiente, é preciso vencer a cultura do desperdício no uso da água.

Durante a crise hídrica de 2014-15 a população da RMSP demonstrou cabalmente que essa mudança cultural é exequível quando todos se unem em torno do interesse comum e a sociedade fica menos polarizada.

Dar asas ao sonho de Asa Billings —e de tantos outros visionários— exige entender que, no planeta Terra, só é infinito aquilo que é circular. E a regra para manter esse ciclo hídrico é simples: boa engenharia e uso parcimonioso da água. Economizar água não porque ela é cara, mas porque vale mais do que ouro, petróleo ou diamantes. Valorizar a água para garantir um futuro para si mesmo, filhos e netos.

Adriano Candido Stringhini
Ex-superintendente e diretor da Sabesp

Benedito Braga
Ex-presidente da Sabesp e ex-secretário de Saneamento e Recursos Hídricos)

Dilma Pena
Ex-presidente da Sabesp e ex-secretária de Saneamento e Energia

Gesner Oliveira
Ex-presidente da Sabesp e professor da FGV

Jerson Kelman
Ex-presidente da Sabesp e colunista da Folha