segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Ambipar: movimento coordenado entre fundo e compra de ações por dono intriga mercado, FSP

 Stéfanie Rigamonti

São Paulo

Investidores estão intrigados com um movimento coordenado que envolve uma empresa de Tercio Borlenghi Junior, dono da Ambipar; o Fidc (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) Fênix, ligado à companhia de gestão ambiental; e uma compra massiva de ações por Borlenghi, tudo a partir junho de 2024.

O período bate com uma investigação na CVM (Comissão de Valores Mobiliários) sobre uma suposta manipulação do preço da ação da Ambipar. O órgão quer saber se fundos e operações ligados ao Banco Master, ao empresário Nelson Tanure e a Borlenghi contribuíram para uma alta irregular dos papéis da companhia.

De junho a agosto, as ações da Ambipar saltaram cerca de 780%. Segundo dados da empresa, nesse período, Borlenghi comprou sozinho R$ 334 milhões em ações da companhia. Nos meses anteriores, não há registro de compra de papéis da empresa pelo seu controlador.

A imagem mostra a fachada de um edifício moderno da Ambipar Group, com grandes janelas espelhadas e uma parede lateral em tom amarelo. Há um jardim bem cuidado na frente, com gramado verde e algumas árvores. No fundo, é possível ver caminhões da empresa estacionados e um céu claro. Uma pessoa está caminhando em direção à entrada do edifício.
Planta da Ambipar movida a energia fotovoltaica e biodigestor - Divulgação - 11.dez.2024

Se considerar o período de junho de 2024 a janeiro de 2025, foram R$ 375 milhões em ações adquiridas por Borlenghi.

Também a partir de junho de 2024, o Fidc (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) Fênix teve o registro de funcionamento aberto na CVM. O fundo tinha nessa época como cedentes de crédito, além de subsidiárias do grupo Ambipar, uma empresa chamada Everest Participações e Empreendimentos, que, segundo dados da Jucesp (Junta Comercial do Estado de São Paulo), tem Tercio Borlenghi Junior como sócio.

Desde julho daquele mesmo ano, porém, a Everest passa a constar como a principal cedente de recebíveis do Fidc. Em junho, o fundo possuía R$ 199,8 milhões em ativos. Em julho, esse montante saltou para R$ 554,8 milhões, uma elevação de 177,6%. Nos meses seguintes, os aportes para o Fênix diminuíram consideravelmente.

Consultada, a Ambipar disse que não comentaria.

Acionistas e credores que conversaram com a coluna sob condição de anonimato disseram suspeitar de que o Fidc foi usado para direcionar recursos da própria Ambipar, por meio de cessões de recebíveis simuladas, para a Everest e, depois, para seu controlador. Este, por sua vez, teria utilizado esses recursos para financiar a aquisição das ações da companhia de gestão ambiental.

sumiço de R$ 4,7 bilhões do caixa da companhia, que foram reportados no segundo trimestre do ano passado, pouco antes de a empresa pedir recuperação judicial, tem levantado suspeitas por parte de credores e acionistas sobre operações envolvendo a empresa e seu controlador.

O estopim para a crise da Ambipar foi uma cobrança de um valor bem inferior, de R$ 60 milhões, por parte do Deutsche Bank a título de "margem de garantia" de contratos de swap cambial, atrelados a dívidas da companhia no exterior.

Os investidores buscam entender, desde então, para onde foram esses R$ 4,7 bilhões reportados pela Ambipar. A companhia adiou por tempo indeterminado a divulgação de seu balanço do terceiro trimestre.

No site de relações com investidores da empresa de gestão ambiental não constam nem mais os resultados anteriores, que já haviam sido divulgados. O último balanço que aparece no portal é o do terceiro trimestre de 2024.


Homens perfeitos são artigo raro, João Pereira Coutinho, FSP

 Chega uma idade em que temos de ser honestos conosco mesmos. Cheguei a essa idade e sou obrigado a perguntar: serei um homem perfeito?

A resposta, temo bem, é "sim". Sou perfeito em matéria conjugal. Essa, pelo menos, é a teoria de Eve Simmons, uma autora inglesa que publicou recentemente o relato da sua triste experiência matrimonial. Para os interessados, o título é "What She Did Next" (Dialogue Books, 304 págs.). Não li, não tenciono, mas o resumo dos jornais é bibliografia suficiente.

Conta a autora que o ex-marido era um príncipe —apaixonado, solícito, companheiro, sensível. Seis meses depois, sumiu de casa sem aviso prévio. Queria o divórcio.

Eve Simmons sentiu-se enganada e perdida. Como era possível ter vivido nove anos de namoro com um estranho?

Homem vestindo roupão, com caneca em uma mão e um livro na outra e cigarro na boca, lê tranquilamente sentado em um salto alto gigante, como se fosse sua poltrona.
João Pereireia Coutinho/Folhapress

Mas depois, quando conversou com outras mulheres que passaram por traumas idênticos, rebobinou o filme da vida em conjunto e encontrou os cinco sinais problemáticos que toda mulher deve vigiar com ferocidade leonina. Que sinais são esses? Little Couto explica –e desmistifica:

1º "Ele ganha menos do que você —e isso o incomoda" – É uma praga entre os machos inseguros, afirma Eve Simmons: eles se sentem diminuídos com a carreira de sucesso da mulher.

Eu, pelo contrário, me sentiria aliviado. Sonho há vários anos viver às custas de uma. Ser, em poucas palavras, um elfo do lar: ficar em casa, com meus livros e filmes, acenando em roupão da janela para a patroa que sai cedo para trabalhar. Serei o único homem que vê o salário da mulher como uma prova de amor?

Se Eve me tivesse conhecido nos tempos de solteiro, eu jamais teria abandonado o casamento só porque a conta bancária dela era superior à minha. Abraçaria essa conta bancária com o amor e o carinho que ela merece.

2º "Ele nunca reclama" – O marido de Eve vivia sorrindo enquanto executava as tarefas domésticas mais variadas. Nunca reclamava. Um dia, por por uma questão banal, explodiu de raiva e disse à mulher o que Maomé não disse do toucinho.

Pobre Eve. Reclamar? É o meu nome do meio. Acordo reclamando do estado do corpo. Sigo reclamando do estado do mundo. Reclamo de coisas reais e irreais. E, se não tenho do que reclamar, até disso reclamo.

O ex-marido de Eve era um caso clássico de silêncio passivo-agressivo. Eu sou um caso raro de ruído ativo-agressivo. Só quando meu humor não está ao nível de Schopenhauer é que a família estranha e se preocupa. "Estará doente?", perguntam uns. "Ele me incluiu no testamento?", perguntam outros.

Capa do livro 'What She Did Next'
Capa do livro 'What She Did Next' - Reprodução

3º "Vocês tiveram um noivado longo… e um casamento grandioso" – Aconteceu com Eve. Nunca aconteceria comigo: casamentos grandiosos depois de noivados longos são cerimônias de encerramento.

Nessas matérias, sou um orientalista: o ideal era ter casamentos combinados em que noivo e noiva só se conhecem no altar. É um erro dar o nó quando a novidade já acabou há nove anos.

Pode haver surpresas desagradáveis com uma noiva que não escolhemos?

Pode. Mas prefiro o choque inicial à erosão lenta.

Casamentos grandiosos são uma contradição nos termos: a ideia da festa é receber dinheiro dos convidados, não é gastar dinheiro com eles. Além disso, nada é mais suspeito do que um amor que precisa de bufê, banda e drone para convencer os outros –e a si próprio.

4º "As mensagens de texto começam a mudar" – No início, as mensagens amorosas pingavam com frequência. Os enjoativos emojis também. Subitamente, tudo muda: a frequência, as palavras, o tom.

Não sofro desse mal. Minhas mensagens são sempre lacônicas, de preferência monossilábicas, para não alimentar expectativas. É melhor decepcionar cedo do que desaparecer tarde. O amor passa, mas um "ok" é para sempre.

5º "Vocês estão a tentar ter filhos (mas sem grande empenho)" – Eve queria ter filhos; ele se retraía; a intimidade se esvaziou.

Já eu adoro crianças. Sempre achei que o número certo fosse "mais uma". Por vontade própria, a minha casa seria uma creche: crianças por todo o lado, cuidando da logística, enquanto a minha senhora, munida de mais um cheque gordo, financiaria a experiência.

P.S.: Só mais uma coisa. Informo o leitor romântico que a vida de Eve teve um final feliz. Segundo o jornal "Daily Telegraph", encontrou um novo amor, casou e já foi mãe. Homens perfeitos são artigo raro, mas alguns de nós ainda andam por aí.

Na novilíngua da extrema direita, matar é 'neutralizar', Alvaro Costa e SIlva, FSP

As romarias ao presídio de El Salvador —custeadas com dinheiro público, a última contagem estava em R$ 400 mil— são a principal diversão de deputados, senadores e governadores da extrema direita. Com encarcerados no segundo plano, o registro fotográfico é indispensável à lacração nas redes. Alguns deles aparecem de braços cruzados e camisetas justas no melhor estilo "mamãe, sou forte".

Outra distração é copiar terminologias e cometer análises geopolíticas. Desde a megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha, a mais letal da história, não existem mais traficantes nem milicianos no Brasil. Todos são chamados de "narcoterroristas", denominação adotada por Donald Trump e Nayib Bukele, o presidente salvadorenho que governa em regime de exceção.

Nayib Bukele e Trump em encontro na Casa Branca, em 2025 - Brendan Smialowski - 14.abr.25/AFP

Tema que mais preocupa a sociedade, o combate a facções criminosas não é mais considerado uma atribuição dos governos estaduais ou do Planalto, mas equiparado a uma guerra sem quartel —daí surgindo a proposta servil de uma intervenção trumpista no país.

Na novilíngua, matar é "neutralizar". O verbo está no projeto de lei aprovado pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro —e questionado pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF— que prevê bônus de 10% a 150% do salário para policiais civis envolvidos em confrontos com mortes. A gratificação faroeste, que remete aos cartazes de "procurado vivo ou morto", já vigorou entre 1995 e 1998, durante o governo Marcello Alencar. A média de mortes em ações policiais dobrou, e a criminalidade não deixou de crescer.

Num jogo de cena, Cláudio Castro alegou falta de verbas e vetou a proposta —veto derrubado no plenário. No entanto, anunciou a compra de fuzis, metralhadoras, drones, robôs táticos e até um helicóptero Black Hawk, com preço estimado em R$ 72 milhões.

O governador —que só agora apresentou um plano para recuperar áreas dominadas, aliás um plano bastante tímido— parece não se conformar de o Rio perder para São Paulo no campeonato de número de mortes causadas pela polícia.