quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Construtora autuada por venda irregular de habitação social tem contratos de R$ 1 bi com gestão Nunes, FSP

  

São Paulo

A principal fornecedora de moradia popular da Prefeitura de São Paulo está entre as empresas autuadas pela própria gestão municipal por venda irregular de HIS (Habitação de Interesse Social) —um tipo de imóvel residencial que recebe incentivo público para ser ofertado exclusivamente a famílias com renda de até seis salários mínimos.

Além de construir unidades de HIS, a Plano & Plano Desenvolvimento Imobiliário tem contratos de R$ 1 bilhão para entregar mais de 5.500 apartamentos do Pode Entrar, o principal programa habitacional da gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB). Nessa modalidade, a prefeitura compra unidades habitacionais no mercado para as vender de forma subsidiada a famílias com dificuldade de comprovar renda.

A prefeitura e a empresa afirmam não haver impedimento legal para a contratação da construtora pelo município. A gestão Nunes também diz ter fechado a compra de imóveis para o Pode Entrar antes de o Ministério Público de São Paulo passar a investigar desvios na comercialização de HIS.

A imagem mostra uma vista aérea de uma cidade com muitos edifícios altos e baixos. Há uma mistura de prédios residenciais e comerciais, com algumas áreas de telhados vermelhos visíveis entre os edifícios. O céu está parcialmente nublado, e ao fundo, é possível ver mais prédios e uma linha de montanhas ao longe.
Vista aérea de prédios em Pinheiros, na zona oeste de SP - Rafaela Araújo - 20.mar.25/Folhapress

A inclusão de unidades de HIS em um empreendimento imobiliário confere vantagens como descontos na outorga onerosa —taxa municipal que dá o direito de construir— e permissão para erguer prédios maiores do que o tamanho básico autorizado pelo zoneamento. Benefícios também aplicáveis à modalidade de imóveis incentivados chamada HMP (Habitação de Mercado Popular), voltada para famílias com renda de seis a dez salários mínimos.

Cerca de 6.500 avisos de possíveis fraudes detectadas em transações envolvendo empreendimentos de interesse social foram formalizados por cartórios de registro de imóveis da cidade de janeiro a agosto do ano passado, segundo parecer da Promotoria de Habitação.

A própria prefeitura admite investigar 17% das unidades que receberam incentivos. São 85 mil imóveis averiguados em um universo de 490 mil licenciados desde 2022.

Até dezembro do ano passado, a administração afirmou ter notificado 704 empreendimentos e aplicado 38 multas em transações de habitações sociais.

A Plano & Plano foi responsável pela transação comercial de ao menos 25 imóveis de HIS com indícios de fraude, segundo lista de autuações realizadas pela prefeitura à qual a Folha teve acesso. Nesta etapa, a companhia autuada ainda pode apresentar explicações para não ser multada ou sofrer outras penalidades.

Enquanto responde aos questionamentos da gestão municipal, a construtora segue contratada para erguer três empreendimentos do Pode Entrar nos distritos Ipiranga (zona sul), Perus e Jaraguá (ambos na zona norte). Os contratos de R$ 1,06 bilhão colocam a empresa como detentora de 26,6% da verba total de aquisições do programa, de R$ 3,9 bilhões, segundo dados obtidos por meio de LAI (Lei de Acesso à Informação).

O edital de contratação do Pode Entrar não impede a contratação de empresas autuadas pelo município.

Cunhado de Vorcaro doa apartamento de R$ 2,6 mi para nutricionista, FSP

  

Joana CunhaIran Alves
São Paulo

apartamento de R$ 4,4 milhões doado em dezembro de 2024 por uma empresa ligada ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para uma mulher que se definiu como "sugar baby" não foi a única doação de imóvel pela família no fim daquele ano.

Em 21 de novembro, o pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, doou um outro apartamento, de R$ 2,6 milhões, para a nutricionista Gabriela Amaral Rocha.

O imóvel de 94 metros quadrados de área privativa está localizado na alameda Franca, no bairro dos Jardins, área rica de São Paulo.

Mulher de cabelos longos e lisos usa vestido vermelho sem alças e óculos escuros. Ela está ao ar livre, com árvores e plantas ao fundo, em um ambiente ensolarado.
Gabriela Amaral Rocha, que recebeu doação de um apartamento do pastor Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro - Reprodução de redes sociais

Em 16 de dezembro, ou seja, 25 dias depois, a empresa Super Empreendimentos doou o apartamento de R$ 4,4 milhões para Karolina Trainotti, que teve o nome citado em uma operação policial contra tráfico internacional de drogas em 2022. A defesa de Trainotti negou as acusações e afirmou que ela atuava como "sugar baby", tendo os seus gastos pessoais custeados no período do relacionamento amoroso que mantinha com um dos réus naquele caso.

Além de ser ligada a Vorcaro, a Super teve Zettel como diretor, e uma sócia do pastor permanece na direção.

Procurada pela reportagem, Gabriela Amaral Rocha disse que, no caso do apartamento de R$ 2,6 milhões, a doação fez parte de um investimento realizado por Zettel em sua empresa de marmitas, a Feed Me Up.

No entanto, os dados da firma registrados na Receita Federal e na Jucesp (Junta Comercial do Estado de São Paulo) não demonstram qualquer investimento realizado pelo pastor.

A Feed Me Up, com capital social de R$ 10 mil, foi constituída em abril de 2023, mas Gabriela só aparece nos registros da junta em 10 de dezembro de 2024, quando ela entrou com R$ 2.000 de participação na sociedade.

O registro formal da entrada da nutricionista como sócia pela Jucesp só aconteceu em março de 2025, ou seja, meses depois de ela ganhar o imóvel.

Em nota enviada à Folha, Gabriela diz que é "nutricionista, empreendedora e sócia da Feed Me Up, empresa regularmente constituída e em atividade, dedicada à produção e comercialização de refeições saudáveis, cujas operações sempre foram conduzidas de forma lícita e transparente".

Em conversa anterior com a reportagem por videochamada, ela disse que a empresa decretou falência em novembro de 2025. Dados da Receita apontam que a firma segue em atividade.

Sobre a doação do apartamento, a nota enviada por Gabriela afirma que "em 2024, houve investimento na Feed Me Up por parte do sr. Fabiano Zettel, realizado de maneira formal e regular, mediante a aquisição de 20% das cotas sociais por meio de fundo de investimento regularmente constituído".

"Como parte do ajuste, o investimento foi realizado mediante a transferência regular de um apartamento. Os fatos ocorreram antes de qualquer notícia pública ou investigação conhecida envolvendo o referido investidor", afirma a nota.


Zettel é fundador e CEO da Moriah Asset, que se define como uma empresa de private equity especializada em investimentos direcionados a negócios de bem-estar. A Feed Me Up aparece no site da Moriah, na lista de investidas, ao lado de nomes como a rede de açaí Oakberry e a academia Les Cinq, além de marcas como Desinchá e Super Nutrition, de suplementos e creatina.

O empresário foi um dos alvos da segunda fase da Operação Compliance Zero deflagrada na última quarta-feira (14) pela Polícia Federal. Ele foi preso ao tentar viajar para Dubai, mas foi liberado horas depois. Zettel foi afastado do posto de pastor da Igreja Batista da Lagoinha no dia seguinte.

Em 2024, Gabriela foi processada pela SulAmérica em um caso em que a operadora acusava um grupo de cerca de dez pessoas de participar de um esquema de fraude contra plano de saúde, no qual ela teria recebido aproximadamente R$ 20 mil em solicitações de reembolso falso, segundo a companhia.

A nutricionista firmou um acordo, extinguindo seu processo e ressarcindo a SulAmérica em maio de 2025.

Sobre o processo do plano de saúde, o comunicado enviado pela nutricionista diz que ela "foi excluída do polo passivo antes de qualquer decisão de mérito, não tendo integrado o julgamento da causa, inexistindo condenação ou imputação de responsabilidade judicial em seu desfavor".

Ela diz ainda que "não é investigada, não possui vínculo com o Banco Master e não teve qualquer participação ou conhecimento acerca dos fatos atualmente apurados, os quais não guardam relação com suas atividades profissionais ou empresariais".

Procurada pela reportagem, a assessoria de Zettel não respondeu.

O Enamed é uma vitória, Elio Gaspari, FSP

 A má notícia veio na semana passada. A Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) queria barrar na Justiça a divulgação dos resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed). Logo depois, veio a boa notícia: o pedido foi negado, e na segunda-feira os dados do Enamed foram divulgados.

O comportamento da Anup equivale ao de um médico que se recusa a mostrar ao paciente os resultados de um exame mandado pelo laboratório.

Deu o que se previa: de uma maneira geral, os melhores cursos são de universidades públicas (gratuitas) e os piores são de faculdades privadas (pagas).

Dois profissionais de saúde em jalecos brancos realizam treinamento de ressuscitação cardiopulmonar em manequim. Um aplica compressões torácicas enquanto o outro utiliza bolsa de ventilação manual.
Doutorandos de medicina participam de aula prática em um hospital de Porto Alegre - Carlos Macedo - 28.mai.25/Folhapress

Uma guilda querendo abafar os resultados de um exame é um mau sinal. Se esses resultados estão relacionados com a proficiência dos médicos, o comportamento da associação de universidades particulares passa a ser um problema de saúde pública.

A guilda argumentava que a divulgação dos dados traz "riscos de danos irreparáveis aos alunos e às instituições de ensino superior". Quem traz riscos e danos irreparáveis para a sociedade são as faculdades de medicina que cobram mensalidades de até R$ 15 mil para formar alunos sem a capacidade necessária para exercer a medicina.

Médicos de renome, como o cirurgião Raul Cutait, batalham há anos para que o poder público avalie as faculdades de medicina. Elas são cerca de 400 e há outras 300 pedindo para funcionar. O Brasil passa por uma epidemia de novas faculdades de medicina. Pelo andar da carruagem, na próxima década o Brasil poderá bater a marca de 1 milhão de médicos. Resta saber se esse doutor é capaz de diagnosticar um caso de diabetes. Num exame de 2023, era alta a porcentagem dos incapazes.

O Enamed que a guilda queria abafar revelou que 3 em cada 10 cursos de medicina foram reprovados no exame que mede a qualidade da formação. Esse ensino custa perto de R$ 1 milhão à família de um aluno de faculdade particular. Segundo o Enamed, metade dos alunos não tem a proficiência necessária para exercer a profissão.

Em 2023, 13% dos cursos mostraram-se insatisfatórios, em 2025 foram 20%. A situação piorou e provavelmente os doutores da guilda de faculdades privadas suspeitavam disso. Seis em cada 10 faculdades privadas tiveram resultados insatisfatórios. Foram avaliados 351 cursos de medicina e ouvidos cerca de 90 mil alunos.

Quando a guilda das faculdades privadas tenta abafar o resultado do Enamed fortalece-se a ideia de uma prova semelhante ao exame da OAB para estudantes de direito. A faculdade forma bacharéis, mas só são advogados aqueles que passaram na prova da OAB. Se uma seleção desse tipo filtra os advogados, mais motivos existem para que se crie um filtro para os médicos.

Médico incapaz, por burrice ou interesse político, foi o do presidente Costa e Silva em 1969. Depois de ter perdido a fala por duas vezes, o marechal perguntou-lhe: "Isso não é derrame?"

"Não", respondeu o médico do palácio.

Era uma isquemia cerebral que em algumas horas emudeceu o presidente e paralisou seu lado direito, incapacitando-o.