domingo, 9 de novembro de 2025

O melhor retrato do Corinthians, Juca Kfouri, FSP

 Eram precisos 39 minutos de jogo em Itaquera, com 40 mil torcedores, quando Memphis Depay bateu falta na meia-lua da área do Ceará, que jamais havia vencido os alvinegros paulistas, pelo Campeonato Brasileiro, em São Paulo, e ganhava por 1 a 0, gol marcado nove minutos antes, em raro ataque que, dominados, os cearenses conseguiram armar.

Memphis ajeitou a bola com carinho só menor do dedicado por ele à seleção holandesa e bateu rasteiro, na direção do gol.

Eis que, de repente, não mais que de repente como disse o poeta, surge do nada, como assombração, a figura do zagueiro corintiano André Ramalho, que se joga no chão de costas para a bola, como se tivesse sofrido um ataque epilético, e leva uma senhora, com todo respeito, bolada no traseiro, no bumbum, na bunda. Sim, uma bolada na bunda!

Cinco jogadores do Corinthians vestindo uniforme branco comemoram gol no campo. Um está ajoelhado, outros abraçados e um com expressão de alegria. Torcida lotada ao fundo com faixas e bandeiras em preto e branco.
Jogadores do Ceará comemoram gol do atacante Galeano que garantiu primeira vitória contra o Corinthians em Itaquera - Marcus Viniccius Silva Nascimento - 9.nov.2025/MyPhoto Press/Folhapress

Perdoe a rara leitora, talvez devesse ter escrito "derrière" porque em francês é mais chique.

Só que o Corinthians não tem feito por merecer vocabulário de salão, daí a verdade nua e crua, de botequim: abundam motivos para escolher palavreado chulo.

Se bem que dona Luiza Kfouri, educadora e chamada de Tia Luíza nos bons tempos da Escola Lourenço Castanho, mãe deste indignado jornalista que voz escreve, dizia ser bunda uma palavra linda, e crisântemo, sim, feia.

O Corinthians, saco de pancadas como visitante, perdeu pela quinta vez em casa neste Brasileirão, com quatro empates e sete vitórias, apenas 25 pontos ganhos dos 48 disputados em Itaquera.

Sem ser capaz de apresentar nem sequer uma ideia interessante de jogo, jogadas ensaiadas só as secretas, tão sigilosas a ponto de os jogadores, como os torcedores, as desconhecerem.

Dorival Júnior fracassou no Corinthians a exemplo do que aconteceu na seleção brasileira e, caso venha a vencer a Copa do Brasil, o que é altamente improvável com o Cruzeiro pela frente nas semifinais, tudo indica, terá o mesmo fim que teve no Flamengo, mesmo campeão: a porta da rua, serventia da casa.

Com a quarta folha de pagamentos do campeonato, o Corinthians está em 13º lugar e só não corre risco de rebaixamento porque há times ainda piores.

Quanto a sonhar com vaga na pré-Libertadores, convenhamos, por mais que signifique alguns trocados para saldar a dívida bilionária, melhor evitar.

Preferível será se contentar com a Copa Sul-Americana, a única que falta na sala de troféus — e, por favor, entenda que contém ironia, porque nem mesmo a segunda divisão continental é para o bico corintiano, de avestruz, mais para buraco que para pódio.

Existem no fundo do poço, ou como luz no fim do túnel sem ser um trem na contramão, apenas duas saídas para o centenário Sport Club Corinthians Paulista, segunda maior torcida do país e bicampeão mundial de clubes Fifa: a SAFiel e a possível solução negociada com a Caixa Econômica Federal para ser detentora dos direitos de botar sua marca no estádio na zona leste paulistana.

Para tanto, porém, que o Fiel não se iluda: ou pressiona, se manifesta nos jogos e exige mudanças, ou o futuro será ainda pior que o presente, uma lição de como não se administra a mina de ouro que um grupo de operários fundou e um bando de desqualificados afundou.

Salvem o Corinthians, ex-campeão dos campeões!


O esporte nascido na Europa que conquistou as pistas e o público brasileiro, The News

 

(Imagem: Getty Images)

Em quase qualquer lugar do mundo, quando alguém pensa no Brasil, pensa em esporte. Pelé, Marta, Guga, Senna — o país sempre teve talento pra competir.

O esporte sempre foi mais do que passatempo por aqui. É o que move as pessoas, enche estádio, vira conversa e, de um jeito ou de outro, explica quem a gente é.

O futebol sempre esteve na frente, claro. Mas, escondida entre as manhãs de domingo, uma outra paixão também cresceu: a Fórmula 1.

Um esporte que nasceu longe, nas pistas europeias, e acabou encontrando no Brasil um público que vibra do mesmo jeito.

Mas o que fez o país começar a assistir carros correndo em círculos?

O Brasil não inventou a Fórmula 1, mas ajudou a ‘’transformar’’ ela.

Nos anos 1970, enquanto o país ainda vivia o eco do tri da Seleção, um paulista de 25 anos começava a correr em circuitos europeus com nomes impronunciáveis.

Em 1972, Emerson Fittipaldi se tornou o primeiro campeão mundial brasileiro e o mais jovem da história da categoria — marcando o início de uma relação que mudaria o lugar do Brasil dentro do automobilismo.

E como bons torcedores, independentemente do esporte, quando a Fórmula 1 chegou o país em 73, já éramos muitos nas arquibancadas, de olho nos brasileiros.

A partir daí, a categoria passou a ser um ritual, e o GP de Interlagos um evento anual.

Depois de Fittipaldi, Nelson Piquet apareceu no fim da década de 70 e começou a colocar o Brasil entre os favoritos.

Foi tricampeão, em 1981, 83 e 87, num período em que o esporte começava a ganhar mais atenção da imprensa e das marcas.

(Imagem: Icon Sport/ND)

Pouco depois, quando veio Ayrton Senna, as transmissões já estavam mais estruturadas e a audiência crescia.

(Imagem: Divulgação)

Senna venceu três campeonatos — 1988, 1990 e 1991 — e levou o Brasil para o centro do noticiário esportivo internacional.

Mas o impacto dele foi além das pistas. O jeito de correr, as entrevistas, o capacete amarelo e o hino tocando no pódio criaram uma imagem que ultrapassava o esporte.

Ele virou uma figura histórica. Estava em campanhas publicitárias, jornais e programas de TV — e, pela primeira vez, um piloto de Fórmula 1 era reconhecido até por quem nunca tinha visto uma corrida.

O domingo virou sagrado

Na época, com as transmissões acontecendo na Globo na voz de Galvão Bueno, era difícil não pensar no domingo sem pensar nas corridas.

O ritual do domingo de manhã era assistir Fórmula 1, as vezes mesmo sem entender de carro, mas sim porque tinha um brasileiro disputando.

Transmissões históricas ficaram na memória de milhões de brasileiros. A vitória de Senna em Interlagos, em 1991, por exemplo, é uma delas:

(Imagem: Rede Globo)

Anos depois, outro momento marcou o autódromo — dessa vez com Felipe Massa. Em 2008, o brasileiro chegou a ser campeão mundial por alguns segundos.

Venceu em Interlagos, mas perdeu o título quando Lewis Hamilton ultrapassou Timo Glock na última curva.

(Imagem: Rede Globo)

O espetáculo e o negócio

Mesmo depois do fim da geração de pilotos brasileiros — com Massa se despedindo da F1 em 2017 —, o interesse do público nunca desapareceu.

Interlagos continuou lotando, e o GP se manteve como um dos eventos esportivos mais importantes do país. Mas, nos bastidores, o problema era outro…

Em 2020, a Globo decidiu encerrar a transmissão da Fórmula 1 no Brasil. O contrato era caro e, na época, a emissora entendia que o retorno de audiência já não compensava o investimento.

Foi o fim de um ciclo de quase quatro décadas em que aquele domingo de manhã tinha dono.

(Imagem: Getty Images)

Ao mesmo tempo, a Fórmula 1 também passava por uma virada global. Em 2016, a categoria foi comprada pela Liberty Media, um grupo americano de entretenimento que redesenhou o produto:

- Foi responsável, junto da Netflix, pela criação da série Drive to Survive, que contribuiu com novos fãs nos EUA, um país que antes pouco se falava do esporte.

- Modernizou o formato de transmissão e marketing, tornando os pilotos personagens e as corridas, narrativas;

Atraiu um público mais jovem e diverso — especialmente mulheres — e expandiu a base de fãs em mercados fora da Europa;

- Fez a receita da categoria praticamente dobrar entre 2017 e 2024, alcançando mais de US$ 1,1 bilhão em direitos de mídia e impacto recorde de audiência global.

A F1 deixou de ser um clube fechado e passou a operar como uma marca mundial — com patrocínios, experiências e contratos bilionários.

E o modelo de negócios ajuda a explicar tanto sucesso. A categoria é o que o mercado chama de asset light: não precisa ter gastos fixos altos nem investir pesado em infraestrutura.

  • As cidades pagam para sediar as corridas — e ainda bancam melhorias nos autódromos;

  • As emissoras compram os direitos de transmissão e produzem do próprio local;

  • As equipes cuidam da própria divulgação e estrutura;

  • E os patrocinadores investem dentro e fora das pistas.

No Brasil, o espaço deixado pela Globo foi rapidamente ocupado pela Band, que assumiu as transmissões em 2021.

A nova fase coincidiu com o fortalecimento do GP de São Paulo, que se firmou como um dos mais rentáveis do calendário.

(Imagem: Duda Bairros/MotorSport)

Esse ano, o evento vai movimentar mais de R$ 2 bilhões na economia da cidade e vai atrair cerca de 300 mil pessoas no fim de semana — um recorde histórico.

Encerramos esse texto te contando isso porque… Curiosamente, em 2025, cinco anos depois de deixar a categoria, a Globo voltou ao desejo de transmitir a Fórmula 1, reassumindo os direitos a partir do ano que vem.

💡 O GP de São Paulo de 2025, decisivo em meio a um acirrado campeonato de pilotos, acontece nesse domingo, à partir das 14h. Lando Norris, atual líder, larga na frente.

Atropelos na isenção do Imposto de Renda têm seu preço, Marcos de Vasconcellos, FSP

 No país do futebol, mudar as regras do jogo durante a partida deveria ser motivo para cartão vermelho. No campo tributário, governo federal e Congresso jogaram juntos para aprovar a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000 por mês a toque de caixa, mas o resultado deverá ser uma pilha de novos e caros processos na Justiça.

A lógica da nossa Constituição Federal de 1988 prevê, justamente, que o topo da pirâmide financeira pague mais, para melhorar as condições de quem está na base dela. Questionar a necessidade de "justiça tributária" em si seria dar voz à "classe dominante" que Darcy Ribeiro classificou como "ranzinza, azeda, medíocre e cobiçosa".

O problema é que para conceder as isenções a quem precisa delas, o PL 1.087/2025, que agora aguarda sanção do presidente Lula, deixou armadilhas pelo caminho.

Plenário do Senado Federal com senadores e assessores em atividade. Ambiente com cadeiras azuis, mesas de madeira e painéis eletrônicos nas laterais exibindo imagens de oradores.
Plenário do Senado durante votação do projeto de Isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000 - Pedro Ladeira - 5.nov.2025/Folhapress

Para compensar a perda na arrecadação por um lado, mirou na taxação de dividendos —forma pela qual as empresas remuneram seus sócios, atualmente isentos.

A regra determina, por exemplo, que a nova tributação comece a valer em 2026, mas com base no lucro de 2025. Na prática, dá para dizer que é um efeito retroativo.

Para se esquivar da acusação, o Congresso trouxe uma saída criativa: liberar as empresas que fecharem o balanço, aprovarem a distribuição dos lucros e registrarem suas contas em órgãos competentes até 31 de dezembro de 2025. Ganha um prêmio quem conhecer alguma companhia que fecha as contas antes de o ano terminar.

Ao não cumprir o prazo, empresários verão seus dividendos isentos transformados em lucro tributável, ainda que a obrigação tenha sido inventada de última hora.

O resultado prático disso, nós conhecemos bem: pilhas de novos processos nos tribunais, que, quando derem razão para os empresários, virarão novos precatórios, a serem pagos pelo Brasil do futuro.

Somando os impostos hoje recolhidos por empresas, IRPJ (Imposto de Renda), CSLL (Contribuição Social sobre Lucro Líquido) e o novo imposto sobre dividendos, a mordida do leão pode chegar a 44% do lucro das empresas —sem contar o futuro IVA (Imposto sobre Valor Agregado), que ainda vem por aí.

O projeto aprovado pelo Congresso criou um redutor, para evitar "exageros" como esse. Mas ouvi do tributarista Eduardo Diamantino, que estuda cada vírgula do projeto desde o início da sua tramitação, que a conta é mais uma ilusão de ótica. O cálculo, quando aplicado a casos reais, vai deixar o contribuinte a ver navios.

Sem contar o problema das offshores, empresas fora do país, que já pagam cerca de 15% de imposto sobre o lucro, e terão agora mais 10% retidos quando mandarem dividendos de volta ao país. É a famosa (e proibida) bitributação, com outra roupa.

Podem parecer detalhes, mas são eles que fazem uma nova lei dar certo ou errado. E é para esse tipo de correção que projetos de lei tramitam no Congresso.

No caso em questão, o relator do PL 1.087 no Senado, Renan Calheiros (MDB-AL), declarou abertamente que lutaria para que nada fosse modificado durante a passagem do PL por aquela Casa, para evitar que voltasse para a Câmara, o que atrasaria (ou até impediria) sua aprovação ainda este ano.

Fazer política na base do atropelo pode dar boa propaganda e votos, mas cobra seu preço quando a eleição dobra a esquina.