sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Decreto que levou ao carro a álcool completa 50 anos, FSP

 A medida que possibilitou a chegada do carro a etanol completa 50 anos na próxima semana. No dia 14 de novembro de 1975, foi publicado o decreto que criou o Proálcool (Programa nacional do Álcool). Era a resposta nacional à crise mundial do petróleo de 1973.

O desenvolvimento dos automóveis ocorria em paralelo às discussões governamentais. O primeiro protótipo foi apresentado em novembro de 1976 no Salão do Automóvel de São Paulo. Era um exemplar do Fiat 147, novidade do evento. A versão a etanol, contudo, só chegaria às ruas em julho de 1979.

Fiat 147 foi o primeiro carro a álcool produzido em série no país - Divulgação

A década de 1980 registrou o apogeu do carro a álcool. Em 1988, 94,4% dos automóveis produzidos no Brasil eram abastecidos com o combustível renovável. O ocaso, contudo, se aproximava.

A crise veio em 1989, com usineiros pressionando por aumentos entre 45% e 50% sobre o valor do etanol distribuído aos postos. Ao mesmo tempo, o mercado internacional do açúcar, caracterizado pela volatilidade na época, passava por um ciclo de alta.

O problema se estendeu por 1990, ano em que encontrar bombas com etanol disponível se tornou uma caça ao tesouro. O resultado não podia ser outro: queda nas vendas.

A pioneira Fiat chegou ao fim da década de 1980 dedicando 95% da produção em Betim (MG) aos veículos a álcool. Em 1995, essa fatia havia caído para 5% do total. A gasolina era novamente protagonista.

A redenção só veio em 2003, quando os primeiros carros flex chegaram ao mercado nacional. Essa tecnologia é dominante nos dias de hoje, sendo incrementada pelas opções híbridas.

COP30 —a conferência sobre mudança climática da ONU— é uma vitrine global para o combustível de origem renovável. A Toyota, por exemplo, vai exibir em Belém uma picape Hilux com sistema que concilia etanol, gasolina e eletricidade.

Um dos objetivos é mostrar ao Sul Global que a tecnologia flex pode ser uma alternativa para além do Brasil. Países como Índia e Tailândia já demonstraram interesse nas opções que envolvem o álcool combustível.

'Larga de ser babaca', diz Nunes a manifestante que protestava contra derrubada de árvores, FSP

 Carlos Petrocilo

São Paulo

O prefeito Ricardo Nunes (MDB) reagiu nesta quinta-feira (6) a protesto contra a derrubada de um bosque no Alto da Lapa, na zona oeste, e disse "larga de ser babaca" a um dos manifestantes.

Nunes fazia um discurso durante entrega de veículos movidos a biometano para coleta de lixo. Um grupo, que se intitula Salve o Bosque, foi até o evento com cartazes com dizeres como "Assassinaram o Bosque" e "A Lapa está de luto".

Vista aérea mostra área de floresta com várias árvores derrubadas e galhos espalhados. Caminhos de terra cercam a área, com máquinas e equipamentos visíveis no canto esquerdo. Edificações e veículos aparecem nas bordas da imagem.
Árvores cortadas no terreno onde será construído condomínio, na zona oeste de SP - Rafaela Araújo - 4.nov.25/Folhapress

Os manifestantes são contra a autorização —Termo de Compromisso Ambiental— que a prefeitura emitiu para a construtora Tegra retirar 118 árvores do chamado Bosque dos Salesianos e construir prédios residenciais.

A área de 7.000 metros quadrados do bosque reúne 207 árvores, entre as ruas Pio XI, Sales Júnior e Presidente Antônio Cândido.

Segundo o Termo de Compromisso Ambiental, a construtora deverá fazer plantio compensatório de 1.799 mudas.

Vídeo publicado na página do grupo no Instagram sugere ainda que o prefeito chegou a mostrar o dedo do meio aos manifestantes, o que a Secretaria de Comunicação nega.

"Quanto à imagem congelada e fora de contexto, é um absurdo e irresponsabilidade querer induzir o leitor a erro de interpretação", diz a gestão Nunes, em nota.

Logo no início do discurso, o prefeito disse que a cidade é dividida em duas categorias, de pessoas civilizadas e não civilizadas. Na sequência chamou os manifestantes de "baderneiros" e "pessoas sem noção".

A gestão Nunes afirma que não houve ofensas do prefeito, "mas sim uma série de interrupções desrespeitosas por parte dos manifestantes que estavam ali apenas para gerar tumulto."

A prefeitura também destacou que "não é responsável pelo local, trata-se de negociação entre particulares com autorização da Justiça e determinação para compensação ambiental".

Antes, o grupo havia feito protesto na terça-feira (4). "Mais do que uma relação com a comunidade, o bosque tem uma fauna e flora riquíssimas, com pássaros e até macacos. É um dos poucos lugares de São Paulo em que você tem isso", disse a fotógrafa Sílvia Simões, um das integrantes do movimento.

A Tegra comprou o terreno da Unisal (Centro Universitário Salesiano de São Paulo) por quase R$ 95 milhões, em maio deste ano.

A construtora defende que o empreendimento é regular e possui todas as autorizações, incluindo o alvará de execução e o TCA, emitidos pela SVMA (Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente).

O Ministério Público de São Paulo chegou a ajuizar ação pedindo a paralisação das obras. Obteve decisão liminar favorável à suspensão do projeto, medida que posteriormente caiu.

O argumento era de que o local estaria protegido por um decreto de 1989 que proibia a supressão das árvores. A norma, no entanto, foi revogada pelo governo Luiz Antônio Fleury Filho, em 1994, em mudança que atribuiu ao município a decisão sobre o corte de espécies nativas. A ação acabou julgada improcedente.

Se a família importa, os pais importam, Deborah Bizarria, FSP

 O Congresso aprovou, nesta semana, a ampliação da licença-paternidade de cinco para até vinte dias. O relator do projeto, o deputado Pedro Campos (PE), contou com uma articulação que uniu Tabata Amaral (PSB-SP)e Damares Alves (Republicanos) na defesa de uma medida de alto retorno social: permitir que os pais fiquem mais tempo com seus filhos recém-nascidos.

Mesmo com esse consenso, a proposta foi desidratada em plenário de 30 para os 20 dias aprovados, depois de forte atuação de entidades empresariais contrárias à ampliação e do silêncio de vários parlamentares que costumam invocar a defesa da família. A nova regra terá implementação gradual e só alcançará o limite de vinte dias em 2029, condicionada ao cumprimento de metas fiscais.

Um homem branco segurando um bebê branco rescém-nascido no colo. O homem, possível pai, está de camiseta preta e o bebê de macação vermelho
Licença-paternidade teve ampliação gradual aprovada na Câmara para até 20 dias - Getty Images

O argumento para a limitação foi o impacto orçamentário. O projeto prevê que o custo da licença será coberto pela Previdência Social, com estimativa de R$3,3 bilhões em 2027 e R$5,4 bilhões em 2029. O valor equivale a menos de 0,1% dos R$678 bilhões em subsídios federais concedidos em 2024, entre renúncias tributárias, crédito subsidiado e transferências financeiras.

A dificuldade não está na falta de recursos, mas na prioridade dada a cada política pública. O país mantém uma estrutura de gastos que protege setores específicos, mas reluta em financiar medidas que beneficiam famílias comuns. O orçamento, no fim, é sempre um espelho de escolhas políticas.

A decisão expõe um problema da economia política: quando os custos são concentrados e os benefícios são dispersos, a proposta perde força. No caso da licença-paternidade, os principais beneficiários são bebês ainda por nascer e famílias com pouca voz organizada, enquanto os custos recaem sobre setores capazes de pressionar diretamente o Congresso. Esses setores atuaram para encolher a proposta, evocando perda de produtividade e novos encargos, embora a conta tenha sido deslocada para o setor público.

Esse desenho ajuda a explicar por que nosso debate fiscal se encurta: fala-se muito de metas e pouco de mérito. Subsídios setoriais resistem a cortes quase por reflexo; quando a política envolve cuidado e infância, surge contenção de gastos antes mesmo de se pesar os benefícios.

Com a licença, crianças têm melhor desempenho escolar e menor risco de evasão, pais elevam sua participação no cuidado cotidiano e as mães apresentam menos afastamentos por questões de saúde ao longo dos anos.