sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Democracias são derrotadas quando deixam de compreender o coração humano, João Pereira Coutinho ,FSP

  

A esquerda americana parece convencida de que o caminho para a Casa Branca passa pelo socialismo de Zohran Mamdani, o prefeito eleito de Nova York.

Homem de terno escuro e gravata azul acena com a mão direita para uma multidão. Ao fundo, três bandeiras estão posicionadas: a dos Estados Unidos, a da cidade de Nova York e outra com símbolos coloridos. A plateia segura celulares para registrar o momento.
O prefeito eleito de de Nova York, Zohran Mamdani, acena a apoiadores após vencer eleição para Prefeitura da maior cidade dos EUA - Jeenah Moon - 5.nov.25/Reuters

É uma hipótese que provavelmente fez J.D. Vance, o herdeiro de Trump para 2028, sorrir: enquanto os progressistas se encantam com Mamdani, talvez esqueçam as suas vitórias nas eleições estaduais da Virgínia e de Nova Jersey —dois casos de moderação e pragmatismo que são o verdadeiro perigo para o universo Maga já nas midterms de 2026.

Outra hipótese, mais sensata, seria suspender por alguns instantes a busca desesperada de uma solução extremista e ler o novo livro do cientista político William Galston. Apresentações: Galston, ex-assistente de Bill Clinton, é pesquisador da Brookings Institution e estará nesta sexta-feira em Lisboa para uma palestra na Universidade Católica. Brasileiros em Portugal, uni-vos!

O título é sombrio: "Anger, Fear, Domination: Dark Passions and the Power of Political Speech" (raiva, medo, dominação: paixões sombrias e o poder do discurso político, Yale, 176 págs.). Trata-se de uma reflexão sobre as vulnerabilidades e ilusões das democracias liberais diante de seus inimigos.

Galston identifica três tipos de vulnerabilidade. A primeira é estrutural: as democracias têm processos decisórios mais lentos que os regimes autoritários.

Em tempos de aceleração constante, há quem veja nisso um defeito e suspire por líderes providenciais capazes de decidir com rapidez e brutalidade.

Um erro, claro. Sem um sistema de freios e contrapesos, os impulsos tirânicos da oligarquia teriam mais espaço para fazer estragos. Além disso, a complexidade dos problemas sociais é incompatível com o simplismo dos populistas, sejam de esquerda ou de direita.

A segunda vulnerabilidade é moral. "Por que razão as democracias toleram opiniões que podem parecer aberrantes?", perguntam os nostálgicos da uniformidade, sejam revolucionários ou reacionários.

A resposta remonta a séculos atrás, depois de guerras religiosas e imperiais devastadoras: porque a paz civil depende disso. Os populismos, com seus anti-pluralismos, apenas repetem erros antigos sob nova embalagem.

Por fim, há uma vulnerabilidade identitária. As democracias modernas, nas suas melhores versões, fazem um esforço gigantesco para separar a identidade cívica das identidades pessoais ou comunitárias.

Em outras palavras: quem deseja que o espaço público seja um reflexo dos próprios valores privados —religiosos, étnicos, familiares— talvez não esteja preparado para viver em democracia. E, nesse caso, deveria procurar uma teocracia onde se sinta mais em casa.

Simplismo, anti-pluralismo e dogmatismo: eis as armadilhas em que as democracias podem cair. Mas caem, sobretudo, por causa de suas próprias ilusões.

William Galston observa que há, entre os democratas liberais, uma certa miopia materialista —uma incapacidade de perceber o peso das questões culturais. É como se o materialismo marxista tivesse conquistado até as cabeças mais insuspeitas, reduzindo tudo à "estrutura" econômica e ignorando as tensões da "superestrutura".

Azar: o conflito entre valores tradicionais (religião, família, autoridade, raízes locais) e valores modernos ou pós-modernos (secularização militante, liberação de costumes, imigração irrestrita) não desaparece só porque decidimos ignorar essa disputa perene.

A ingenuidade das elites demoliberais, convencidas de que todos estariam a bordo do barco do "progresso", criou o terreno ideal para que o populismo tomasse as dores dos que ficaram para trás.
Além disso, os progressistas carecem de repertório para lidar com as "paixões sombrias" que também fazem parte da experiência humana. Leem muito Rawls, mas pouco Dostoiévski. Resultado?

A raiva, o medo, o ressentimento, a humilhação —sentimentos tão reais quanto o racionalismo e o otimismo das elites urbanas – emergiram com força no século 21.

Desprezar essas emoções, sem compreendê-las nem oferecer respostas ponderadas a problemas de insegurança, desigualdade ou abandono, é um caminho suicida.

Eis o principal mérito do livro de Galston: lembrar que as democracias não são derrotadas apenas pelos seus inimigos externos. Elas morrem, também, pela incapacidade de compreender o coração humano que pretendem governar.


Precisamos de dignidade para enfrentar a pobreza, FSP

 Edu Lyra

Fundador e CEO da ONG Gerando Falcões

O que é dignidade para você? A palavra traz muitas nuances. Pode significar uma atitude pessoal, um respeito próprio. Pode ser um status e é também a base do princípio jurídico. Mas para mim e para milhões de brasileiros que vivem em favelas brasileiras, dignidade significa autonomia, liberdade, direito humano.

Sim, porque para uma vida digna é preciso ter o básico: moradia, saúde, educação, renda, segurança. O básico, o mínimo, para viver em paz e para buscar novos horizontes.

O problema é que muita gente não tem o básico e não vive em dignidade no Brasil. Segundo o Censo Demográfico do IBGE de 2022, cerca de 25% da população brasileira, ou seja, quase 50 milhões de pessoas, não têm saneamento básico e mais de 100 milhões não contam com coleta de esgoto.

Edu Lyra, fundador da Gerando Falcões, na Favela Marte, em São José do Rio Preto (SP), escolhida para projeto-piloto da Favela 3D - Yan Marcelo Carpenter - 23.jul.2021/Divulgação

Dados recentes da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) mostram que 993 mil crianças e adolescentes de 4 a 17 anos estão fora da escola. Apesar de recentemente termos saído novamente do Mapa da Fome da ONU, estamos longe de comemorar, pois ainda temos 35 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar em um dos países que mais produz alimentos no mundo.

Para enfrentar a pobreza, precisamos mensurá-la. É por isso que a Gerando Falcões acaba de lançar o Dignômetro, uma ferramenta de inovação social escalável, aplicada para acompanhar a superação da pobreza em projetos desenvolvidos pela ONG em favelas e periferias brasileiras.

Orientado por 10 perguntas-chave, o Dignômetro mede a realidade das famílias em temas indispensáveis, como moradia, alimentação, acesso à educação, saúde, saneamento e água, além de geração de renda, poupança, conectividade e bens essenciais.

A partir de respostas "sim" e "não", é possível visualizar quais são as dimensões da vida das famílias que ainda não as permite viver em dignidade.

Cada resposta traz um encaminhamento concreto para uma atitude que precisa ser tomada: qual atividade de geração de renda a família deve acessar, serviços públicos nos quais ela ainda não está incluída, conexões que podem ser feitas com parceiros públicos e privados para superar essas dificuldades. A ferramenta une diagnóstico e transformação em escala.

Temos o sonho e a meta de liderar uma revolução social para tirar 1 milhão de pessoas da pobreza no Brasil em dez anos.

Para isso, além de desenvolver projetos e tecnologias sociais que buscam emancipar as pessoas, é preciso entender as realidades, ter uma bússola, que nos ajude na medição da pobreza. Com isso, podemos mobilizar, juntar mais pessoas, pois saberemos exatamente o caminho que temos que seguir.

Para continuar desenvolvendo projetos que buscam simplificar medições e facilitar a comunicação de como mensuramos a pobreza multidimensional, estudamos referências no mundo nessa área, como tecnologias implementadas em Bangladesh, e contamos com apoio de acadêmicos que nos ajudam a aperfeiçoar essas ferramentas e dar o rigor científico necessário para esses números.

Tudo para que a Gerando Falcões, outras organizações e governos possam aprimorar políticas públicas e iniciativas destinadas a populações em vulnerabilidade.

O contrário de pobreza não é riqueza, é dignidade. Nem todo mundo vai ser rico no Brasil –e no mundo–, mas se todos tiverem uma vida digna, com o básico, teremos vencido enquanto sociedade.

Para atingir esse sonho, precisamos traçar caminhos com base em informações confiáveis, que nos levem a soluções rápidas de problemas.

Necessitamos usar o que há de mais moderno e potente em termos de tecnologia e conhecimento humano para buscar formas de proporcionar a todos as bases essenciais para a construção de futuros mais dignos.