quarta-feira, 5 de novembro de 2025

O sistema tributário britânico é um caos; estas são as prioridades de reforma, Martin Wolf - FT FSP

 Em 26 de novembro de 2025, a ministra das Finanças do Reino Unido, Rachel Reeves, apresentará seu segundo Orçamento. Será um evento constrangedor, tanto para ela quanto para o governo. Reeves terá de admitir que a tentativa de silenciar dúvidas sobre sua capacidade de cumprir as metas fiscais até o fim desta legislatura, supostamente asseguradas em seu primeiro Orçamento, no ano passado, fracassou.

Ela terá de aumentar impostos novamente, ainda que isso implique violar promessas de campanha. Na verdade, ela praticamente admitiu isso em seu discurso desta terça-feira (4), ao afirmar: "Se a pergunta é o que vem primeiro, o interesse nacional ou a conveniência política, para mim é o interesse nacional todas as vezes, e o mesmo vale para Keir Starmer."

Pessoa de cabelos castanhos e roupa formal roxa fala em púlpito com placa vermelha escrita 'Strong Foundations | Secure Future'. Ao fundo, parede de madeira com brasão oficial e duas bandeiras do Reino Unido posicionadas simetricamente.
Ministra das Finanças do Reino Unido, Rachel Reeves, durante entrevista sobre orçamento - Justin Tallis - 4.nov.25/AFP

A ministra deve, de fato, prometer um aperto fiscal. Não tanto por causa das regras que impôs, embora essas promessas devam ser mantidas sempre que possível, mas porque os mercados demonstram ceticismo em relação às perspectivas fiscais do país. O Reino Unido depende fortemente de capital estrangeiro e, ainda que a proporção entre dívida líquida e PIB não seja extrema em padrões internacionais, ela é desconfortável. É preciso reconstruir as margens de segurança fiscais.

Também está claro que o governo não tem disposição, e talvez nem capacidade, para cortar gastos. Assim, aumentar impostos é inevitável. A questão é se isso pode ser feito sem prejudicar ainda mais o desempenho econômico. A única chance é substituir impostos ruins por melhores, na esperança de que, no longo prazo, isso favoreça o surgimento de uma economia mais dinâmica.

Segundo o Instituto de Estudos Fiscais (IFS), "a arrecadação tributária como proporção da renda nacional deve atingir um recorde britânico de 37,4% em 2026-27". Ainda assim, o índice não é alto em comparação com o restante da Europa. Para fins práticos, portanto, deve-se considerar o nível atual de gastos, que impulsiona os tributos, como dado.

A abordagem correta para a tributação está descrita no Green Budget, relatório anual do IFS, que afirma que "em geral, e salvo bons motivos para se desviar disso, o sistema tributário deve tratar atividades semelhantes de maneira semelhante". O problema é que o do Reino Unido não faz isso. "Ignorar esse princípio costuma gerar injustiça e ineficiência, já que as pessoas tomam decisões baseadas no que reduz mais sua conta de impostos", argumenta o IFS.

A esse princípio de neutralidade soma-se o da progressividade: os mais ricos devem arcar com uma carga proporcionalmente maior. Isso já ocorre no Imposto de Renda. De acordo com o IFS, "os impostos diretos são hoje mais baixos para a classe média do que em qualquer outro momento desde meados da década de 1970". Um estudo da Biblioteca da Câmara dos Comuns mostra que, no período de 2022 a 2023, o 1% mais rico da população ganhou 13% da renda total, mas pagou 29% do imposto de renda, proporção que era de 21% no período de 1999 a 2000.

O problema crucial é que a falta de neutralidade está em toda parte no código tributário britânico. Os empregados pagam mais impostos do que autônomos ou aposentados; há "degraus abruptos" nas alíquotas marginais, em que um pequeno aumento de renda gera grande perda de benefícios; emigrantes conseguem evitar impostos sobre ganhos de capital vendendo ativos após deixarem o país; doações feitas mais de sete anos antes da morte são isentas do imposto sobre heranças —permitindo que herdeiros de grandes fortunas escapem totalmente da tributação.

As distorções se multiplicam em todo o sistema de impostos sobre o capital. A lista de inconsistências é interminável. Ninguém ou, ao menos, ninguém sensato, teria criado um sistema tão absurdo.

Um dos exemplos mais gritantes está na variedade de bens isentos do imposto sobre valor agregado (IVA). O economista Tim Leunig escreveu um artigo revelador sobre essa aberração para a organização Nesta. Ele cita, por exemplo, "a diferença entre uma barra de granola e um "flapjack" (tipo de bolo de aveia). A primeira paga VAT, o segundo não". Leunig argumenta que, se todas essas isenções fossem eliminadas, seria possível aplicar VAT sobre alimentos, roupas infantis e produtos como pasta de dente, e ainda assim tornar os pobres apenas um pouco mais pobres, pois a receita permitiria reduzir a alíquota geral de 20% para 10%. Ou, mantendo a alíquota mais alta, o dinheiro poderia ser usado para financiar políticas que beneficiem os mais pobres muito mais do que flapjacks baratos.

sistema de tributação de propriedades também é um caos: o imposto municipal é calculado com base em valores de 1991, e as residências mais caras pagam alíquotas proporcionalmente baixas. John Muellbauer, da Universidade de Oxford, propõe substituir o imposto municipal dos dois níveis mais altos, que abrangem cerca de 1,14 milhão de imóveis na Inglaterra e no País de Gales, por um imposto anual sobre o patrimônio imobiliário de 0,5% do valor do imóvel, com possibilidade de adiamento no caso de aposentados com ativos, mas pouca liquidez.


Deirdre Nansen McCloskey - Nobel 2025, FSP

 

Deirdre Nansen McCloskey

Os economistas mais antigos acreditavam que o acúmulo de capital era a causa da riqueza das nações. É uma velha e óbvia verdade que alguém pode enriquecer roubando do vizinho. Essa é a atração. Até mesmo Adam Smith, que se opunha veementemente ao furto, à escravização e à conquista, fosse por uma pessoa ou pelo Estado, acreditava que o que contribuía para a riqueza nacional era o capital acumulado. Afinal, observou ele, a Holanda em 1776 era rica e possuía enormes quantidades de capital físico, enquanto as Terras Altas da Escócia eram pobres e tinham pouco.

Foram necessários dois séculos e meio para que os economistas se livrassem dessa aparente verdade. Marx, que de muitas formas foi um seguidor de Smith, acreditava que a "mais-valia" extraída da classe trabalhadora era reinvestida pelos capitalistas, assim enriquecendo a nação e, principalmente, os capitalistas. O marxista francês Thomas Piketty baseou nessa crença seu livro sensacional de 2013 sobre desigualdade. Contudo, não só os marxistas continuaram acreditando que o acúmulo de capital —o empilhamento de tijolo sobre tijolo, ou de diploma universitário sobre diploma universitário— é a fonte de nossas riquezas.

A ortodoxia do Banco Mundial durante décadas após sua fundação, em 1944, foi a receita "Adicione capital e misture". Não funcionou. Gana recebeu ajuda externa maciça, mas não enriqueceu. Durante a década de 1990, o banco, portanto, mudou para sua nova receita: "Adicione instituições (boas) e misture". Também não funciona.

O que os economistas e seus seguidores não conseguiram perceber é que o bizarro Grande Enriquecimento do mundo desde 1776 envolveu inovação. Os inovadores, como já expliquei, criam novas maneiras de fazer as coisas. Ferrovias. Motores elétricos. A universidade moderna. A internet. Permitir que as mulheres façam trabalho remunerado. Acabar com as tarifas sobre o comércio exterior. E assim por diante, em bilhões de inovações típicas do mundo moderno. O capital às vezes foi necessário, é claro, especialmente nas ferrovias, por exemplo. Mas também foram necessários todos os tipos de condições que, por si sós, não criam novas maneiras de fazer as coisas, como ter uma força de trabalho ou obedecer às leis. O que é suficiente, o molho secreto do crescimento econômico moderno, é a criatividade humana.

Em 1911 Joseph Schumpeter, em 1928 Allyn Young e em 1933 G. T. Jones começaram a fugir do dogma de que capital implica riqueza. Vários economistas mais recentes continuam pensando dessa forma, no que chamam de "teoria do crescimento". Mas Young e Jones morreram cedo, e Schumpeter voltou ao dogma. Foi preciso um artigo de Robert Solow, em 1957, para reiniciar a reflexão sobre a força das ideias na economia, o que ele chamou de "mudança técnica". No entanto, os economistas ainda se apegavam ao dogma de Smith-Marx, e o Comitê do Nobel concedeu dezenas de prêmios a economistas que o expandiram.

No mês passado, o comitê finalmente reconheceu que as ideias, e não o capital, moldaram o mundo moderno. Eles concederam o prêmio a um teórico francês e a dois cientistas empíricos, o canadense Peter Howitt e meu querido amigo, o holandês-israelense-americano Joel Mokyr. Viva!

Mas quando é que os economistas vão perceber que as novas ideias surgiram da libertação das pessoas comuns? Esperemos que não demorem dois séculos e meio.

O gol 1001 de Pelé, pelas crianças, não valeu, Ruy Castro _FSP

 No dia 19 de novembro de 1969, Pelé fez, de pênalti, contra o Vasco, no Maracanã, seu milésimo gol. Correu para as redes, pegou a bola, içaram-no aos ombros e, no que lhe apontaram um microfone, dedicou o gol às crianças pobres do Brasil. O Pasquim, semanário de oposição recém-criado e cuja única arma possível contra a ditadura era o deboche, não o perdoou. Zombou de sua frase, classificando-a de piegas e alienada —esperava talvez uma declaração contra o AI-5—, e fez com que ele se arrependesse pelo resto da vida do que havia dito. Só que Pelé estava certo.

Em 1969, talvez as crianças a que se referia fossem os brasileirinhos pobres de 15 anos, idade com que ele chegara ao Santos e se tornara Pelé. Suponhamos que, em 1989, vinte anos depois do gol, aqueles garotos já tivessem seus filhos de 15 anos. E que, em 2009, estes já tivessem seus próprios filhos de 15 anos, netos daqueles para os quais Pelé chamara a atenção. Pois, dentro de quatro anos, em 2029, poderemos ter a terceira geração das criancinhas de Pelé, bisnetos delas, e também com 15 anos.

Ou não, porque a cadeia talvez haja se quebrado há muito. Quantos nesses 60 anos não terão sido presos, mortos ou apenas desaparecido no vasto underground brasileiro de deseducação, fome, doença, exclusão, violência, famílias destroçadas, falta de oportunidade profissional ou, por excesso de oferta, o crime? Ou todas as opções acima?

Não se percebem muitos maiores de 30 anos na legião dos que hoje assaltam nas ruas, guardam as bocas de fumo ou trocam tiros com a polícia. É como se, tendo passado dessa idade, eles se reservem para funções mais seguras, de chefia ou gerência. Sabem que não faltarão contingentes de garotos para as atividades de frente, como as de soldados e vapores. Os números só agora começam a aparecer, mostrando que estes meninos formavam a maioria dos corpos estendidos no chão na semana passada, no Rio.

Naquela noite de 1969, Pelé não fez apenas seu gol 1.000. A frase foi seu gol 1.001. Mas só o milésimo valeu.

Pelé comemora seu milésimo gol - Reprodução