segunda-feira, 23 de outubro de 2023

Petrobras promete lotar estaleiros, mas não há consenso sobre ritmo das encomendas, FSP

 Nicola Pamplona

RIO DE JANEIRO

O presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, já prometeu "lotar os estaleiros" brasileiros com obras, mas o governo ainda estuda medidas para viabilizar as encomendas e resolver gargalos para garantir as compras no país sem necessidade de mudanças legais.

O ritmo das licitações não é consenso nem na própria Petrobras, que mais uma vez recebeu a missão de liderar o programa de retomada da indústria naval. O debate interno foi admitido por Prates em entrevista na semana passada.

"Já existe consenso na Petrobras de que é melhor fabricar aqui do que afretar? Não existe. Ao contrário, existe uma cultura bastante arraigada de que o afretamento [aluguel] é mais competitivo", disse o executivo. "Para fazer navio ou plataforma aqui tem de fazer um esforço."

Estaleiro Rio Grande, no Rio Grande do Sul, que pegou a primeira obra de desmantelamento de plataformas antigas da Petrobras. - Eduardo Anizelli - 16.mai.23/Folhapress

Em pouco mais de nove meses de gestão petista, a Petrobras já prometeu encomendar navios petroleiros, embarcações de apoio à produção de petróleo em alto-mar, equipamentos para plataformas e, uma novidade, o desmantelamento de plataformas que chegaram ao fim de sua vida útil.

Empresa e setor se esforçam para vender a ideia de que o processo será diferente do último ciclo de construção naval do país, que terminou com obras inacabadas, uma série de pedidos de recuperação judicial e prejuízos até para cidadãos comuns que acreditaram nas promessas do governo.

Parte das encomendas anunciadas pela Petrobras não depende de apoio federal, diz o diretor de Engenharia, Tecnologia e Inovação, Carlos Travassos, responsável pelas compras de bens e serviços da estatal.

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Ele estima que apenas as plataformas de produção de petróleo já aprovadas pela empresa garantiriam uma demanda de módulos (os equipamentos que ficam no convés para gerar energia, separar óleo de gás, entre outras funções) superior à do último ciclo.

Travassos calcula que os estaleiros nacionais estarão processando 70 mil toneladas de aço para a produção de módulos em 2025, volume superior ao pico de 60 mil atingido em 2014 —entre 2018 e 2021, o número não passou de 10 mil.

Em entrevista à Folha em julho, o diretor da Petrobras antecipou também a necessidade de contratar 38 embarcações de apoio à produção de petróleo em alto-mar, que podem mobilizar estaleiros de menor porte.

No primeiro caso, as regras atuais de conteúdo local já garantem a demanda no país. No segundo, a lei brasileira prevê preferência pela contratação de barcos de bandeira brasileira quando houver competição com estrangeiros.

A Petrobras começa também um processo de desmantelamento de plataformas antigas, com previsão de vender 26 unidades até 2027. A primeira licitação foi vencida pela siderúrgica Gerdau, que contratou para o serviço o Estaleiro Rio Grande, no Rio Grande do Sul.

Nesse caso, em vez de construir, o objetivo é desmontar a plataforma para uso do aço como sucata na produção de vergalhões, por exemplo. A expectativa do sindicato local é que esse contrato gere cerca de 1.500 empregos.

Considerada um pilar desse novo plano de retomada, porém, a encomenda de 25 navios pela Transpetro ainda é alvo de debate tanto na estatal quanto no governo. O projeto prevê contratos de R$ 12,5 bilhões, com licitações iniciando em 2024.

A Transpetro quer acelerar o processo e já recebeu manifestação de interesse de 16 estaleiros, entre eles alguns dos gigantes construídos nos primeiros governos Luiz Inácio Lula da Silva (PT), como o Rio Grande e o EAS (Estaleiro Atlântico Sul), em Ipojuca (PE).

Mas Prates diz que a Petrobras não deve incluir todos os navios na próxima versão de seu plano quinquenal, que será anunciado até o fim deste ano, e que a empresa ainda estuda a viabilidade das encomendas.

No ciclo anterior de retomada, a contratação de navios nacionais mais caros levou a estatal a assumir custos superiores para manter sua frota de transporte de petróleo e gás, causando grande queima de caixa.

"Vou pagar mais caro [pelos navios]? Vou. Não tem jeito, tudo é mais caro no Brasil do que na China", disse o presidente da Transpetro, Sergio Bacci, em palestra a executivos do setor em setembro. "Mas não vou pagar o dobro", afirmou.

O governo defende que a geração de empregos e renda justifica algum sobrepreço nas encomendas, mas, ainda assim, precisa resolver gargalos para pôr em prática o plano. Um deles é a falta de uma política mais incisiva de conteúdo local.

Diante da impossibilidade de abrir licitação apenas para estaleiros nacionais, uma das propostas na mesa é retomar o imposto de importação de navios, zerado pelo governo Jair Bolsonaro (PL), o que melhoraria a competitividade da indústria brasileira.

Capacidade financeira e requalificação de mão de obra são outros gargalos, já que empresas que participaram do último ciclo estão em recuperação judicial e, sem contratações, trabalhadores migraram para outros segmentos.

Para tentar encontrar soluções, o governo criou grupos de trabalho envolvendo ministérios, Petrobras e BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), mas ainda não foram anunciadas medidas.

O MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) disse em nota que avalia aspectos como governança, formação de mão de obra, tributação e financiamento, entre outros. O diagnóstico deve ser anunciado até o fim do ano e servirá como base para "a nova política do setor naval".

Na avaliação de Prates, o excesso de encomendas no ciclo anterior incentivou a corrupção. A "inflação de projetos", afirmou, "deu apetite às pessoas que estavam comungadas com sistemas de financiamento de eleições".

Agora, a empresa prega "equilíbrio", nas palavras de Travassos. Ele não vê, por exemplo, o país voltando a construir cascos de plataformas, como se tentou no passado, nem as sondas de perfuração que geraram a natimorta Sete Brasil.

"Não podemos errar de novo", afirmou o presidente da Transpetro em setembro, prometendo controlar preços e prazos de entrega nos novos contratos. Ele disse ainda que procurou CGU (Controladoria-Geral da União) e TCU (Tribunal de Contas da União) para acompanhar a formulação das licitações de navios.

Formador de mão de obra, Pernambuco exportou trabalhadores após crise dos estaleiros, FSP

 Nicola Pamplona

IPOJUCA (PE)

Inaugurada há 15 anos para abrigar os trabalhadores da então nascente indústria naval de Pernambuco, a Vila do Estaleiro, em Ipojuca, a 50 quilômetros do Recife, deixou de ser um condomínio de casinhas geminadas para abrigar toda a sorte de pequenos comércios.

Os empreendimentos —lanchonetes, mercados, academia de ginástica, entre outros— foram a saída encontrada por demitidos dos dois estaleiros da região, EAS (Estaleiro Atlântico Sul) e Vard Promar, após a derrocada do programa de construção naval dos primeiros governos petistas.

Homens trabalham perto de um navio em reparo no dique seco do Estaleiro Atlântico Sul, em Ipojuca (PE) - Eduardo Anizelli/Folhapress

"A princípio imaginei voltar para a minha terra, mas decidi montar um negócio", conta Jonas Slociak, 37, que deixou Itajaí (SC) em 2009 para trabalhar em uma empresa que prestava serviço aos estaleiros. Foi demitido em 2017 e usou a rescisão para abrir uma padaria.

O carioca Avelino Faustino de Oliveira Neto, 58, chegou em 2012. Foi demitido três anos depois e decidiu aplicar a rescisão em uma academia de ginástica. "Estou alimentando a família e tocando a vida", diz ele, que também foi lutador de boxe.

Jonas e Avelino exemplificam a história da Vila do Estaleiro, que atraiu muitos trabalhadores de outros estados quando Pernambuco ainda não tinha condições de treinar gente para construir os estaleiros e, quase ao mesmo tempo, as embarcações encomendadas pela Petrobras.

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"Quando eu cheguei aqui não tinha nada, não. Não tinha nem refeitório. Para almoçar almoçar, dava uma base de 40 a 45 minutos de carro", lembra Avelino. Sua experiência em estaleiros do Rio de Janeiro foi fundamental para formar as primeiras equipes de montadores locais.

Hoje, o Vard Promar está fechado e, como outros estaleiros que viveram a bonança dos anos 2010, o EAS vive de reparos navais. Em meados de setembro, reparava quatro embarcações. Desde que começou a operar nesse ramo, em 2020, foram mais de 50.

"Mantivemos o estaleiro operando, investimos em novas frentes de trabalho com sucesso e demos atenção especial para a atualização e manutenção de nossa mão de obra", diz o presidente do estaleiro, Roberto Brisolla.

Os reparos garantem a receita para o cumprimento do plano de recuperação judicial da empresa, que chegou a entregar à Petrobras 15 petroleiros e um casco de plataforma de produção de petróleo. Mas demandam uma mão de obra bem menor.

Hoje são cerca de 1.200 empregados contra picos superiores a 7.000 quando o estaleiro construía embarcações. O número chegou a superar os 10 mil quando havia obras simultâneas em navios e nas instalações do estaleiro.

Com dois novos estaleiros construídos para atender a demanda da Petrobras, Ipojuca experimentou um período de grande crescimento econômico.

O PIB do município mais do que dobrou entre 2008 e 2012. O estoque de empregos formais triplicou, batendo o pico de 75.122 pessoas em 2012.

Os forasteiros que chegaram à cidade ajudaram a treinar um contingente de pernambucanos para trabalhar na indústria naval, o que levava o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a repetir que o Brasil estava transformando cortadores de cana em soldadores.

Depois, com a crise no setor e as demissões em massa, além da opção pelo comércio, muitos decidiram sair do país para trabalhar, grande parte indo parar em Portugal. É o caso de Manoel Nascimento, 37, nascido em Cubatão (SP), mas morador do Recife desde os 16 anos.

Filho de soldador, ele foi um dos trabalhadores qualificados pelo Senai de Pernambuco e chegou a trabalhar nos dois grandes estaleiros do estado, construindo navios e plataformas. Após a demissão, voltou para o litoral paulista a arriscou uma carreira como corretor de imóveis.

Hoje, é novamente soldador em uma metalúrgica em Portugal e dá dicas na internet para brasileiros que buscam colocação naquele país. Na sua empresa, diz, há muitos compatriotas que fizeram carreira na indústria naval brasileira. "Querendo ou não, estaleiro é uma escola."

Atrair aqueles que saíram e requalificar os que mudaram de ramo é um dos desafios nessa nova tentativa de reativar o setor. O tema é alvo de um grupo de trabalho que envolve diferentes setores do governo e da indústria.

"O treinamento e requalificação não será tão difícil como no passado", afirma Ariovaldo Rocha, presidente do Sinaval (Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore). Ele diz que, hoje, as empresas já têm centros próprios de treinamento e não dependem de terceiros.

A atividade de reparo de embarcações é menos atraente para os trabalhadores, já que geralmente envolve contratos temporários sem os mesmos benefícios de quando as contratações eram com carteira assinada.

Avelino, por exemplo, diz que não voltaria para trabalhar em reparo. "É trabalho que que quase ninguém quer, o cara pega quando não tem nada", diz.

Mas não pensa duas vezes se for chamado para construir embarcações. "Boto outro para ralar aqui [na academia] e vou na hora."

Intensivo em mão de obra qualificada, o setor é visto como bom pagador de salários, em comparação com outros segmentos da economia. "Nunca mais consegui manter aquele padrão de vida", diz Nascimento, que não descartaria voltar ao Brasil se chamado por um estaleiro. "Ninguém gosta de morar fora do país."

Pai de dois soldadores que migraram para Portugal, o pernambucano Francisco da Silva, 58, conta que seu salário quadruplicou apenas dois anos após deixar o emprego de ajudante industrial em uma montadora de ônibus para trabalhar na área de logística do EAS.

"Tudo que consegui foi graças ao estaleiro", diz ele, enquanto mostra orgulhoso à reportagem a casa de três andares com cozinha planejada, construída sobre o antigo imóvel de um cômodo em que vivia. Hoje, Francisco trabalha como porteiro, com salário bem mais baixo e sem benefícios.

"Tem hora que eu volto um filme e fico pensando: foi um tempo bom", afirma. "Quem sabe, né, bicho, a oportunidade volta? Se voltar, eu estou lá."