domingo, 22 de outubro de 2023

Metamorfose ambulante na política, Lula mostrou-se camaleônico na diplomacia, Elio Gaspari, FSP

 Metamorfose ambulante na política, Lula mostrou-se camaleônico na diplomacia. Na semana em que rejeitou a proposta americana para adiar a apresentação de um projeto de resolução junto ao Conselho de Segurança da ONU, ele aceitou a vinda de 246 militares americanos para exercícios de treinamento na Amazônia.

Para os americanos, é um bom negócio, pois desde o fim da guerra do Vietnã sua experiência numa selva diminuiu. Já a tropa brasileira é uma das mais experientes do mundo.

No início do ano, tropas francesas fizeram exercícios conjuntos com brasileiros na Guiana.

O presidente Lula (PT) discursa na abertura da Assembleia Geral da ONU, em Nova York
O presidente Lula (PT) discursa na abertura da Assembleia Geral da ONU, em Nova York - Mike Segar - 19.set.23/Reuters

NETANYAHU X NETANYAHU

O jornal israelense Haaretz faz oposição ao primeiro-ministro Binyamin Netanyahu e, na semana passada, lembrou suas palavras em 2007, quando quem estava na oposição era ele:

"Você não pode ter um primeiro-ministro num país como Israel se ele não tem algum tipo de habilidade para conceber um conceito de diplomacia e segurança".

O mau desempenho das forças de segurança israelenses no dia 7 de outubro, quando o país foi atacado pelos terroristas do Hamas, resultou num desconforto interno. Segundo uma pesquisa do Jerusalem Post, 56% dos entrevistados achavam que, depois da guerra, ele deveria renunciar.

OUTUBRO DE 1963

Na quarta-feira, completam-se 60 anos do dia em que o Federal Bureau of Intelligence avisou ao seu agente James Hosty que Lee Oswald esteve no México e visitou a embaixada da União Soviética. (Oswald queria um visto russo para chegar a Cuba, mas não o conseguiu: "Ele nos deu dores de cabeça em várias ocasiões.")

Hosty era o agente do FBI que vigiava o jovem ex-fuzileiro naval americano que havia vivido na URSS de 1959 a 1962. Ele sabia que Oswald tinha voltado para os Estados Unidos, mas havia perdido seu rastro desde que ele saíra de Nova Orleans, em agosto.

Noutra ponta das tramas da época, no dia 7 de setembro, o major Rolando Cubela, um combatente da revolução cubana, contactou a Central Intelligence Agency em Porto Alegre. Ele contou que pretendia matar Fidel Castro.

No domingo que vem, completam-se 60 anos do dia em que Desmond Fitzgerald, chefe da seção de Assuntos Especiais da CIA, embarcou para Paris, onde se encontraria com Cubela.

A CPI expôs a caixa da PRF, Elio Gaspari,FSP

 A Comissão Parlamentar de Inquérito que investigou a ação dos golpistas no 8 de janeiro expôs uma das maiores anomalias do governo de Jair Bolsonaro: o desvirtuamento da Polícia Rodoviária Federal. Sabia-se que no dia do segundo turno ela foi usada para bloquear eleitores nordestinos, sabia-se também que uma polícia rodoviária era usada em operações que resultaram em chacinas, mas a CPI mostrou mais.

O ex-capitão que prometia acabar com a indústria das multas e mandou desligar radares de rodovias elevou os gastos com a PRF de R$ 138 milhões durante a campanha para R$ 809 milhões em 2022. A PRF comprou veículos blindados e softwares de vigilância eletrônica.

Silvinei Vasquez, ex-diretor da Polícia Rodoviária Federal, durante depoimento à CPI do 8 de Janeiro
Silvinei Vasques, ex-diretor da Polícia Rodoviária Federal, durante depoimento à CPI do 8 de Janeiro - Marcos Oliveira - 20.jun.23/Agência Senado

Uma mesma empresa, Combat Armor, venceu três pregões e faturou cerca de R$ 33 milhões. Em dois deles, era a única concorrente.

Criada em 2011, nos Estados Unidos, a Combat Armor ficou inativa entre 2013 e 2018, estabelecendo-se no Brasil em janeiro de 2019, dias depois da posse de Bolsonaro. Ela dizia ter uma tradição no ramo, tendo blindado mais de 5.000 veículos em 30 países. A CPI não achou registro desse desempenho. Seu principal executivo havia sido condenado por fraude no Dubai e tinha o nome na lista de procurados da Interpol. A Combat Armor brasileira fechou suas portas no primeiro semestre de 2023, depois da posse de Lula.

A Armor sabia escolher seus consultores. Em 2023, ela pagou R$ 39 mil à empresa do chefe de gabinete do ex-ministro da Justiça, Anderson Torres. Numa coincidência, essa empresa funcionava no mesmo endereço de Florianópolis de outras três. Duas delas receberam R$ 90 mil da Armor. A terceira, Victory Consultoria, pertence ao então diretor da PRF Silvinei Vasques. Noutra coincidência, todas têm o mesmo contador.

Numa das discutidas decisões monocráticas, o ministro Nunes Marques, do STF, suspendeu a quebra do sigilo bancário do doutor Silvinei Vasques.

Diz o relatório da CPI:

"Antes da decisão proferida pelo ministro Nunes Marques, do STF, [...] tinham sido constatadas informações muito relevantes no bojo da análise dos levantamentos de sigilo de Silvinei Vasques, inclusive com relação a Jair Bolsonaro. Contudo, em respeito à decisão judicial, embora com ela não se concorde, opta-se por não exibir todos os relevantes achados no presente relatório, mas se sugere que as autoridades policiais e judiciais competentes procedam à devida análise dos dados do levantamento de sigilo de Silvinei, para que possam aprofundar adequadamente as investigações".