sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Alvaro Costa e Silva -Pelé e o Maracanã, FSP

 

Dois dos maiores símbolos do futebol brasileiro no mundo, Pelé e o Maracanã viveram uma relação amorosa com lances sensacionais. Tudo começou quando o jogador do Santos, aos 16 anos, pisou pela primeira vez no estádio vestindo a camisa da seleção para marcar o gol de honra do Brasil contra a Argentina, que venceu por 2 a 1. Estava em disputa a velha Copa Roca e, a partir daquele 1957, a estatística de vitórias favorável aos hermanos foi diminuindo. Era o fator Pelé.

No ano seguinte, Nelson Rodrigues, profético, já o chamava de rei do futebol, depois de o Santos bater o América por 5 a 3, pelo torneio Rio-São Paulo. O garoto desequilibrou o jogo no Maracanã, fazendo quatro gols: "Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope. Racialmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis".

Pelé salta para cabecear a bola na vitória do Santos sobre o Benfica, no Maracanã - Acervo Última Hora - 19.set.1962/Folhapress

Em outro Rio-São Paulo, o de 1961, o gol que mereceu uma placa na parede do hall de elevadores do estádio. Com invejável equilíbrio, velocidade e visão de campo, Pelé driblou sucessivamente cinco defensores do Fluminense e desviou, com leve toque, a bola para o fundo das redes do goleiro Castilho. Ele tinha 20 anos, e ninguém mais duvidava de que se tornaria o melhor jogador de todos os tempos. Sem ajuda da internet —que hoje pode transformar um pereba em craque por um único lance de sorte exibido ao infinito.

Conseguiu fazer do Santos um clube quase carioca, um time que se sentia em casa no Maracanã. Na lista de 69 gols que marcou no ex-maior do mundo, fez o primeiro e o terceiro na vitória sobre o Benfica, por 3 a 2, na primeira partida do Mundial de Clubes de 1962. Escolheu o estádio como palco do gol 1.000, em 1969, e da sua despedida da seleção, em 1971, num amistoso contra a Iugoslávia. Aos 31 anos, saiu de campo agitando a camisa amarela num adeus. O Maraca, com 140 mil presentes, gritava: "Fica! Fica! Fica!"

Pelé fica para sempre.

Luis Fernando Verissimo: Pelé, o reinventor, OESP

 O Santos veio jogar em Porto Alegre e o menino entrou no segundo tempo. Eu gostaria de dizer que identifiquei logo o gênio, mas não seria verdade. Só me impressionei com a sua pouca idade, ele parecia ainda não ter físico para jogar com gente grande.

Como o resto do Brasil, descobri que Pelé era um fenômeno apenas na Copa de 58. Quando morei no Rio de Janeiro, eu ia ao Maracanã ver o Pelé jogar. O Maracanã enchia para ver o Pelé jogar, não importava contra quem. Um caso raro no mundo de jogador que tinha sua torcida particular, muito maior do que a torcida do seu clube.

Ele era brilhante. Mas nunca se viu ele fazer uma brilhatura só pela brilhatura. A jogada espetacular do Pelé era sempre um meio para chegar mais rapidamente ao fim, que era o gol. Se para chegar no gol adversário ele ia reinventando o futebol pelo caminho, melhor para nós.

Pelé posa com uma bola em seu primeiro ano de seleção brasileira: primeira convocação foi aos 17 anos. 01/10/1958
Pelé posa com uma bola em seu primeiro ano de seleção brasileira: primeira convocação foi aos 17 anos. 01/10/1958 Foto: Arquivo/ Estadão Conteúdo

Adeus, Edson Arantes do Nascimento: o Pelé que você deixa garante para sempre a memória do Brasil no mundo, FSP

 

Cynthia Araújo
(FILES) In this file photo taken on December 04, 2013, Brazilian former football star Pele waves during an activity to promote healthy living and lifestyle among children, in Sao Paulo, Brazil. - Brazil started three days of national mourning on December 30, 2022, for football legend Pele, the three-time World Cup winner widely regarded as the greatest player of all time, who has died at the age of 82. (Photo by Miguel Schincariol / AFP) ORG XMIT: BRA014 - AFP

29 de dezembro de 2022. O fim do ano marca o fim de uma era para o futebol. Para muito mais que o futebol.
Eu tinha dez anos quando o Senna morreu. Foi a primeira – e uma das únicas vezes – que vi meu pai chorar e assim soube quão grave aquilo era.
Alguns meses mais tarde, morreria Tom Jobim, brasileiro desde o nome que houvera feito nossa música tocar em todos os lugares do mundo, eu soube desde cedo.
Que ano aquele 1994.
28 anos depois, o Brasil morre um pouco de novo para o resto do mundo.
Muito mais que um ídolo nacional e o rei do futebol, Pelé disputa o título de maior atleta de todos os tempos – e segue vencendo para a maioria dos opinadores, quarenta anos depois de parar de jogar.
A existência do Pelé torna real o Brasil. Em qualquer lugar do planeta, mesmo para aqueles que sabem pouco ou nada sobre nosso país, o Brasil existe, porque existe Pelé. Não sei se ainda somos o país do futebol depois das últimas copas, mas certamente seguimos sendo o país do Pelé.
"Só não conhece Pelé quem não nasceu ainda", alguém acaba de dizer na televisão, em uma homenagem ininterrupta há quase 24 horas.
Fãs de todos os continentes dão depoimentos sobre a perda, tão sentida.
Sempre que morre uma grande celebridade, discute-se a validade do luto de multidões que não a conheciam pessoalmente, mas se sentem profundamente abaladas. É uma relação unilateral, em que apenas uma das partes despende emoção e interesse, enquanto o ser amado não faz ideia de cada um que o ama.
Mas isso não faz com que seja uma relação inexistente. Saber que uma pessoa está viva e a acompanhar à distância pode ser suficiente para preencher o espaço que ela ocupa nas nossas vidas. Muitas vezes e para muita gente, um espaço considerável, dos mais importantes. Temos todo direito de sofrer pela sua morte.

Football fans stand in front of a banner reading "Eternal King Pele" outside the Albert Einstein Israelite Hospital, where the Brazilian football legend died after a long battle with cancer, in Sao Paulo, Brazil, on December 29, 2022. - Brazilian football icon Pele, widely regarded as the greatest player of all time and a three-time World Cup winner who masterminded the "beautiful game," died on Thursday at the age of 82. The Albert Einstein hospital treating Pele said in a statement his death after a long battle with cancer was caused by "multiple organ failure." (Photo by Miguel SCHINCARIOL / AFP) - AFP


A informação de que Pelé estava em cuidados paliativos exclusivos gerou grande comoção. Ainda assim, havia uma negação coletiva a respeito do seu estado de saúde. Não porque cuidados paliativos signifiquem a proximidade da morte, como já explicamos aqui. Mas porque Pelé estava na reta final de uma doença para a qual não havia perspectiva de cura ou sobrevida longa desde que foi anunciada.
Nos últimos dias, muito se falou sobre Pelé. Segundo a Agência Alma Preta, um dos feitos que mais orgulha os fãs aconteceu no continente africano, há 52 anos, quando o governo nigeriano providenciou o cessar-fogo de uma guerra civil que houvera começado dois anos antes – e que ainda duraria mais dois – para receber o Santos de Pelé.
Perguntei ao meu pai qual foi, para ele, o grande feito do brasileiro mais famoso do mundo. Aos 17 anos, um jovem negro, de pele retinta, tornava conhecido como nunca o Brasil- um dos países mais racistas do planeta. Mesmo sendo duramente criticado durante grande parte da sua vida por não se posicionar de forma mais firme na luta antirracista, Pelé será sempre exemplo de excelência e um dos símbolos mais importantes deste Brasil que, para muitos, nunca deixará de ser o país do futebol.
O adeus a Edson Arantes do Nascimento, eterno Pelé, está estampado nas capas dos jornais mais importantes do mundo. Para que não exista qualquer dúvida de até onde chegou, a Nasa publicou imagem de uma galáxia espiral na constelação Sculptor. Nela, as cores do Brasil.
Para que o universo inteiro possa ver.

Assinalamos o falecimento do lendário Pelé, conhecido por muitos como o rei do "jogo bonito". Esta imagem de uma galáxia espiral na constelação do Escultor mostra as cores do Brasil ( Foto: @NASA no twitter ) - twitter