terça-feira, 2 de junho de 2026

Trump e os Bolsonaro vão ajudar Lula de novo?, Joel Pinheiro da Fonseca, FSP

 Em julho de 2025, depois de lobbying de Eduardo Bolsonaro, o governo Trump anunciou um tarifaço de 50% contra o Brasil bem como sanções contra autoridades brasileiras. No momento do anúncio, Eduardo Bolsonaro comemorou efusivamente. Dias depois, já estava claro que o ato de agressão contra o Brasil não era positivo, e sim embaraçosamente negativo para seu grupo.


Em maio de 2026, depois de lobbying de Flávio Bolsonaro, o governo Trump anuncia que passará a designar PCC e CV como organizações terroristas. Flávio e seus colegas celebram efusivamente. A pergunta se impõe: estaremos diante de outro erro bolsonarista?

Homem sentado na mesa presidencial do Salão Oval, com três homens em pé atrás dele. Ao fundo, janelas com cortinas douradas, várias bandeiras americanas e estátuas decorativas.
Flávio Bolsonaro, o influenciador Paulo Figueiredo e Eduardo Bolsonaro com Donald Trump em encontro na Casa Branca em 26 de maio - Divulgação


Num primeiro momento, é uma inegável vitória para ele. No difícil campo da relação com Trump — que tem sido ruim para os Bolsonaro —, ele identificou o tema que é o ponto fraco de Lula: o endurecimento no combate ao crime. A postura do governo de se opor à classificação de terrorismo fica parecendo relutância em enfrentar o crime organizado, enquanto a posição da direita mostra determinação.

O próprio Lula admite em sua nota-resposta que as facções "praticam o terrorismo". Sendo assim, a insistência de que não podem ser definidas como organizações terroristas vira um preciosismo escolástico. Por que não incluir as facções que praticam o terror? Países como o Equador se adiantaram aos EUA, classificando as próprias gangues como terroristas antes mesmo que o governo americano o fizesse. Hoje, têm apoio de inteligência e militar para combater seus cartéis de droga.

Lula cita o caráter inegociável da soberania brasileira, no que está certo. Mas existe soberania quando grupos armados dominam territórios no Rio de Janeiro e atuam desimpedidos na Amazônia? Não seria o caso de acolher a cooperação americana não só no combate aos crimes financeiros, mas também no apoio militar de enfrentamento das facções?


A evidência preliminar de que o preço da cocaína aumentou depois do anúncio— segundo afirmado pela desembargadora Ivana David em entrevista— indica que o mercado negro entende que a entrada e venda de drogas no país ficará mais restrita; ou seja, que a vida das facções ficará mais difícil. Isso é bom sinal.

Ao contrário do tarifaço, que é inequivocamente ruim para o Brasil, o anúncio atual pode ser bom ou ruim. Não há grandes efeitos automáticos. Tudo dependerá de como o governo Trump quererá usar essa ferramenta em nossa relação.

Ironicamente, se ele a tratar como arma política para interferir em nossas eleições— por exemplo, com sanções indiscriminadas contra nosso sistema financeiro—, isso será mais um tiro no pé americano, que aliás tem o pé gelado quando tenta ajudar candidaturas pelo mundo.

Ou ele está buscando mais casos de sucesso para ter o que mostrar em casa? Nesse caso, o efeito pode ser positivo. A segurança é apontada como a principal prioridade dos eleitores. Por mais que os índices de homicídio tenham melhorado, o clima de insegurança está insuportável. É amplamente noticiado que CV e PCC só aumentaram seu poderio nas últimas décadas. Algo tem que acontecer. O governo Lula acertou ao buscar a cooperação americana no combate à lavagem de dinheiro. A recusa intransigente da cooperação americana também nessa esfera mais dura do combate ao crime lhe deixou vulnerável.

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