segunda-feira, 1 de junho de 2026

O custo do clima - Por Caio Mello e Yasmim Restum, MEIO

 O custo do clima

Por Caio Mello e Yasmim Restum

No filme O Dia Depois de Amanhã, de 2004, o climatologista Jack Hall (Dennis Quaid) tenta convencer líderes globais de que o colapso climático poderia estar mais próximo do que imaginávamos. Durante décadas, a crise ambiental foi retratada exatamente assim: como uma ameaça futura, distante e quase abstrata. Nos anos 2000, manchetes alarmistas e imagens de ursos polares isolados em pequenas ilhas de gelo ajudaram a consolidar a ideia de um planeta à beira de um colapso. Mas um colapso futuro.

No entanto, com a maior incidência de enchentes, furacões e ondas de calor, começamos a perceber um certo “descontrole” na natureza. E quando a imprevisibilidade passou a ser regra, sentimos o impacto, finalmente percebendo que aquele futuro é agora, e que a questão do clima já está por toda parte. “A gente sente que o clima faz parte de absolutamente tudo: da cultura, da comida, da moda, do ar que respiramos, e ainda assim é considerado uma área totalmente científica”, opina Shereen Daver, diretora de inovação da Syli, empresa britânica que impulsiona o jornalismo.

Na conversa com a especialista, que está no Brasil para palestrar no Festival 3i de jornalismo, que acontece neste final de semana no Rio de Janeiro, ela exemplifica. “Quem não ama comer, certo? Você tem orgulho da comida do seu país, e eu quis experimentar essa tapioca maravilhosa. Agora, se secas frequentes ou enchentes inviabilizassem a compra e o preparo dela, isso feriria o tecido social”, argumenta.

Hoje, a geração Z, que nasceu entre 1997 e 2012, enxerga o mundo como um lugar assustador, de acordo com estudo da Universidade de Montclair, nos EUA, e um dos motivos desse estresse existencial é a mudança do clima. Existe até um conceito na psicologia para descrever essa sensação de desesperança: ecoansiedade.

As gerações que estão no mundo há mais tempo também não trabalham com otimismo. Shereen Daver lembra como o clima muda até hábitos mais rotineiros para determinados grupos. “Idosos na faixa dos 70, 80 anos costumavam sentar do lado de fora, nas calçadas, em grupos. Só que está ficando quente demais, então eles ficam no ar-condicionado dentro de casa e mal se sentam com os amigos.” Com isso, não só a conta de luz fica mais cara, mas eles também não se conectam e podem se sentir solitários.

Na opinião dela, não é que a abordagem catastrofista não tenha impacto, mas sim que falar de crise com alarmismo e jargões é um erro de narrativa. Mesmo que 92% dos brasileiros confiem na ciência, engajar o público em assuntos climáticos fica difícil quando o jornalismo não transforma números em vida cotidiana. “Você sofre para sair de casa porque está muito quente, vê um aumento de doenças transmitidas por mosquitos, a conta de luz e o preço de alimentos básicos subirem. Tudo isso são questões econômicas refletidas em situações diárias, e, quando uma pessoa sente isso, ela tende a mudar de opinião e agir”, explica.

Mas qual a melhor forma de agir? O conceito climateXchange (cXc) propõe uma virada na comunicação climática, para que ela possa ser inserida de maneira transversal nas conversas sobre política, moda, economia ou decoração — encontrando pontos de intersecção que importem para os seres humanos. “Ao retratarmos clima como desastre, não trazemos uma história cativante, e assim assustamos as pessoas a ponto de gerar inação”, defende Shereen.

A nova narrativa precisa combinar quatro elementos: crise, soluções, esperança e ação. Ou seja, falar do problema para dar contexto; então, pensar em uma linguagem ou em iniciativas que já estejam lidando com a crise; em seguida, mostrar o potencial ou os resultados já obtidos; e, por fim, demonstrar ou citar maneiras práticas de agir, fazendo com que as pessoas se sintam empoderadas para fazer parte da solução. Aliás, já existem exemplos práticos.

Em uma reportagem do portal Nonada, financiada pela cXc, músicos amazônidas mostram como traduzem jargões técnicos e o tom alarmista para a realidade local, cantando sobre os impactos do clima nas alterações dos rios, e até mesmo na escassez de matéria-prima para a construção de instrumentos.

Pelo mundo, claro, as mudanças climáticas já provocam aumento nos preços e reconfiguram a economia global. Mas será que a população em geral consegue conectar o medo da inflação às mudanças do clima?

A conta chegou?

Na mesa dos brasileiros, a conta climática já chegou há um tempo. Eventos climáticos recentes, como as secas históricas na Amazônia e no Pantanal — que registraram chuvas até 40% abaixo da média — e as enchentes sem precedentes no Rio Grande do Sul, reduziram drasticamente a produtividade agrícola e forçaram o setor a repensar a sua logística de abastecimento.

Quando as safras quebram, ocorre uma disparada na volatilidade dos preços dos alimentos frescos, o que empurra populações mais pobres para produtos ultraprocessados. A desigualdade de renda é, então, evidenciada e aprofundada. Gabriel Junqueira, sócio e gestor da Santa Fé Investimentos, cita mudanças na dieta das pessoas. “A demanda por um tipo específico de proteína é altamente sensível ao preço relativo. Qualquer alta na carne bovina leva o consumidor a substituir por opções mais baratas, e foi exatamente isso que impulsionou o consumo de frango nos últimos anos”, explica.

Aliás, para Junqueira, os eventos climáticos extremos já mudaram estruturalmente a dinâmica da inflação de alimentos. “É uma mudança estrutural, não um choque pontual. Quando olhamos para o arroz na prateleira do supermercado, esquecemos que por trás dele existe uma cadeia inteira: desenvolvimento de sementes, defensivos, fertilizantes, a operação agrícola em si, transporte e armazenagem”. No entanto, ele lembra que o clima é um amplificador desse quadro, não a causa isolada.

Além disso, o especialista cita que a margem do produtor está “apertadíssima”. O contexto econômico marcado por custo de capital alto, risco elevado e preços de commodities em queda formam o cenário atual. Para Junqueira, fica difícil até mesmo para o mercado financeiro precificar a crise climática. Isso porque o impacto é altamente regionalizado, podendo chover demais numa região e de menos em outra.

Juros não fazem chover

Se a inflação sobe, os Bancos Centrais, por prerrogativa, precisam tentar combatê-la, mas o desafio não tem sido trivial. Isso porque subir juros ataca a inflação de demanda, ou seja: quando muitas pessoas, com renda disponível, procuram um item de forma mais elevada do que as empresas têm capacidade de produzi-lo. Mas a inflação de alimentos é de outra natureza. Por ter a chamada “demanda inelástica” — isto é, as pessoas precisam continuar comprando comida, mesmo mais cara, pois não podem simplesmente parar de comer — a inflação não é a de demanda, mas a de oferta. O analista pontua que, pela ótica da política monetária, a crise climática é um choque de oferta, e os juros são um instrumento desenhado para conter excesso de demanda, não para fazer chover.

Por isso, os BCs tendem a olhar os chamados núcleos de inflação, que são as métricas que excluem itens voláteis, como alimentos e energia, do número cheio da inflação. “O problema é quando o choque deixa de ser pontual e contamina expectativas e os demais preços, gerando os chamados efeitos de segunda ordem”, diz Junqueira.

Neste caso, o Banco Central é obrigado a reagir, mesmo que o choque seja de origem climática. Aliás, o clima já está formalmente no balanço de riscos. A autoridade monetária brasileira integra uma rede global de Bancos Centrais para o tema climático e, desde 2021, exige que as instituições financeiras gerenciem riscos físicos e de transição, afinal uma quebra de safra vira inadimplência no balanço dos bancos.

Em meio a um cenário de tamanha desesperança, a principal virtude a ser preservada é justamente a esperança. Shereen argumenta que não é como se falar de meio ambiente tivesse de se tornar apenas notas positivas ou reportagens sobre soluções. A decisão de abandonar o catastrofismo é incentivar a ação diante das consequências climáticas que já enfrentamos. Uma abordagem transversal é, portanto, o reconhecimento da nossa habilidade adaptativa. “Se você pensar em como evoluímos ao longo dos séculos, temos uma capacidade incrível de nos adaptar. Então, é esse o papel que o jornalismo climático tem que assumir”, ela atesta.



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