domingo, 27 de fevereiro de 2022

Guerra na Ucrânia deixa Putin encurralado entre tragédias, Mathias Alencastro ,FSP

 A guerra na Ucrânia chegou à sua primeira encruzilhada. A expectativa de Moscou, que invadiu com mais de 150 mil homens, era que Kiev caísse rapidamente e que um governo fantoche assumisse numa questão de dias. Mas surgiram obstáculos.

O primeiro foi o duplo movimento de resistência ucraniana e engajamento ocidental. Apesar das previsões que o condenavam a um fim melancólico, Volodimir Zelenski, o ator convertido em presidente, soube divulgar na perfeição a situação de seu país e de seu povo com vídeos que viralizaram pela combinação inusitada de tom marcial, medo existencial e um jeitinho de série televisiva.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin - Sergei Guneyev/AFP

Em algumas horas, os formadores de opinião ocidentais, estimulados pela euforia nas redes sociais, construíram coletivamente uma novela épica que tem como protagonista o "Churchill ucraniano". Zelenski se encontrou no seu novo papel, e o público, ainda em transição pandêmica, abraçou o conforto da ficção em vez da dura realidade —a chegada de tanques russos a Kiev em menos de três dias de combate.

O fato é que a chama da resistência obrigou o bloco ocidental, inicialmente paralisado pelas divisões entre os seus membros, a reagir.

Italianos e belgas deixaram de lado a baixaria de barganhar exceções para suas exportações de artigos de luxo nas negociações sobre sanções. A Alemanha basicamente reescreveu toda a sua política externa no espaço de dois dias. O Reino Unido aceitou romper com os oligarcas russos que alimentavam a sua economia. Os americanos, que desertaram Kiev na primeira oportunidade, agora se vendem como líderes e jogaram a carta de um ataque ao Banco Central russo.

Os mais assanhados falam até em armar os militares e civis ucranianos.

No final, quando ninguém acreditava, os ocidentais desencadearam o que pode vir a ser o bloqueio geoeconômico mais sofisticado da história moderna. O comandante de um Exército invencível deixou um comediante munido de um smartphone escrever a história da sua guerra.

Vladimir Putin ainda tem chances reais de realizar a sua fantasia e incorporar a Ucrânia em um arranjo imperial sob os aplausos do que resta dos seus aliados. Mas depois terá de explicar aos russos e aos povos subjugados o que ele pretende fazer desse pântano desconectado do sistema financeiro.

Incrivelmente, esse é o melhor cenário. No pior, ele terá de lidar com o arrastamento do conflito e a explosão da dissidência interna. Ameaçado, Putin poderá tentar expandir a guerra além-fronteiras.

O que é certo é que, diante do avanço da destruição de Kiev, o Putin valentão contra o imperialismo americano, que ainda mora em alguns corações, será definitivamente substituído pelo Putin senhor de Guerra de Grozni e Aleppo, que bombardeia os povos até a submissão.

Quando isso acontecer, ninguém vai mais lembrar dos planos maquiavélicos da Otan, das maldades de Biden ou das artimanhas de Zelenski. Porque a morte é um fardo que um homem carrega sozinho. E a loucura da guerra deixou Putin encurralado entre duas tragédias.


Repórter, espécie ameaçada, José Henrique Mariante,FSP

 26.fev.2022 às 23h15

Tropas se movimentam na Europa. CNN 24 horas por dia. Vem à memória a Guerra do Golfo, quando a emissora americana, em feito inédito, cobriu o conflito ao vivo. A lembrança deveria ser apenas Bernard Shaw e Peter Arnett abaixando a cabeça na hora das bombas, mas a verdade é que foram madrugadas de material não editado, transmitido sem narração ou explicação. Som ambiente e imagem, jornalismo cru. Em uma dessas longas noites, um dos primeiros pilotos americanos a aterrissar após combate afirma com naturalidade: "Muito emocionante, parecia um jogo de futebol". Nunca esqueci essa frase, de tão absurda. Anos depois, já jornalista, citei-a em uma apresentação de Super Bowl.

Correspondentes de guerra estão na linha de frente de novo, abaixando a cabeça e levantando fatos. CNN, TVs, agências, sites e jornais do mundo inteiro driblam bombas, internet sabotada e a censura russa para informar o que ocorre na Ucrânia. A diferença agora é que dividem a atenção com milhões, para não dizer bilhões de outros supostos repórteres e analistas. No Brasil do BBB, quem primeiro deu a notícia da invasão, constatou a Folha, foi o perfil Choquei, cuja credencial é agregar mais de 1,3 milhão de seguidores no Twitter. Deixou de lado a cobertura do reality show, até então sua especialidade, para iniciar uma série alucinada de postagens sobre o conflito.

No meio da torrente, na quinta-feira (24), surgiu a reprodução de um título da Folha: "Maioria dos brasileiros lutaria pelo país em caso de guerra, segundo Datafolha". Não havia link, mas a notícia existe, ainda que antiga e apenas uma indagação hipotética, sem relação com qualquer evento. Pouco antes, o perfil fazia um alerta: "Explosões em Chernobyl". Apenas essa frase. Em seguida, outra informação seca: "Fogo atinge prédio na Avenida Paulista". Na sequência, um pouco de opinião emprestada, mas com vídeo: "Craque Neto diz que Putin, presidente da Rússia, tem que morrer".

Quem acompanhou o noticiário nos últimos dias viu muita bobagem e fake news. Até emissora séria usando cenas de game para ilustrar a tela enquanto o opinador falava algo sobre Putin. O choque, sem trocadilho, das redes sociais com o jornalismo profissional nesses momentos é brutal.

Dean Baquet, editor-executivo do New York Times, perto da aposentadoria do cargo (por idade, tradição na empresa), afirmou em recente entrevista à New Yorker que "cada geração de jornalistas faz seu próprio jornalismo". "E, francamente, faz melhor." Não falava de si, mas se encaixa na descrição. Primeiro repórter investigativo de origem e primeiro negro na função, vai deixar uma poderosa Redação, com mais de 2.000 profissionais, 10 milhões de assinantes e audiência global. Um jornal bem diferente daquele que recebeu há oito anos, com dificuldades financeiras e futuro incerto.

Ilustração mostra ícone de bomba aérea. Abaixo, ícones de redes sociais em verde e amarelo musgo.
Carvall

"Acho que a reportagem está, não quero dizer ameaçada de extinção, mas penso que sob ameaça." Para Baquet, vive-se uma era em que a força de dar a notícia não é mais plenamente respeitada, em que as redes sociais premiam comportamentos ácidos e opiniões gratuitas. O executivo demonstra certa preocupação moral com quem confunde o papel da profissão ou se vê premido pelos comentários na internet.

Não há dúvida de que jornais podem ser melhores hoje em dia, a começar pelos diversos recursos multimídia existentes. Mas é incrível como precisamos de pestes ou bombas caindo sobre nossas cabeças para entender que o clássico trabalho de repórter, não importa a tecnologia disponível, é imprescindível e vale cada centavo de investimento.

O problema é ninguém lembrar dos imprescindíveis também em tempos de paz.

DEBATE?

Baquet é o editor apupado pela própria Redação em 2020, quando o Times publicou artigo de um senador republicano que defendia militares nas ruas dos EUA na onda de protestos que ocorreu após a morte de George Floyd. A publicação do texto colocava os jornalistas negros da casa em óbvio perigo na cobertura. Até o publisher do jornal entrou na discussão para acalmar os ânimos. Já ouviu algo parecido?

Na última semana, a Folha publicou artigo de Flávio Bolsonaro cujo título não faria feio no Choquei, "Moro soltou Lula". O jornal, obviamente, apanhou mais que o filho do presidente. O PT em nota acusou a Folha de publicar fake news. Uma leitora pontuou que, além de desnecessário, o artigo era mal escrito. Difícil discordar. A argumentação era frágil, apelando para conclusões como a de o petista ser responsável pelos preços da gasolina na gestão de seu pai.

E aqui vem a questão, que nada tem a ver com a necessidade de dar espaço para todos os lados, satisfeita no dia seguinte, como de praxe: os leitores precisam aturar textos ruins em nome da pluralidade?

Em outras palavras, se o artigo é fraco, o debate, propósito de sua veiculação, foi enriquecido ou serviu apenas para a Folha se mostrar equânime?

Marcus André Melo - Bilhões e eleições, FSP

 Sempre houve muito dinheiro nas nossas eleições, e elas estão entre as mais caras do mundo. "Os gastos partidários são astronômicos, as despesas dos candidatos, elevadíssimas", escreveu Hermes Lima, em 1955.

Hoje estão ainda maiores; e a fatura continua a ser socializada. Até 2015, através de doações de empresas (ex. sobrepreço de contratos públicos); agora através de fundos públicos bilionários. A mudança tem elementos positivos —diminuição da influência corporativa sobre as eleições— mas os valores envolvidos, não. Remédio e veneno variam apenas na dose.

Arco íris se forma atrás do Congresso Nacional, na esplanada dos ministérios, em Brasília, em foto tirada por Pedro Ladeira
O prédio do Congresso Nacional, em Brasília - Pedro Ladeira - 3.nov.20/Folhapress

As causas do alto custo das eleições no país são objeto de controvérsias. Os efeitos da representação proporcional (RP) com lista aberta em grandes distritos eleitorais é um dos pontos debatidos.
Lima esboçou o argumento lá atrás: "Cada deputado necessita de votos no estado inteiro e julga-se no dever de distribuir, por intermédio da lei orçamentária, verbas e auxílios pelo estado inteiro... não é por outro motivo que as emendas ao orçamento na Câmara se apresentam aos milhares".

Ele também argumentou que os problemas resultavam da "tremenda influência do dinheiro em nossos prélios eleitorais". E tinha razão: as campanhas majoritárias também são caríssimas. Nas campanhas paga-se um prêmio elevadíssimo pelo valor esperado de estar com a caneta na mão.

O financiamento público de partidos e campanhas políticas (FPPP) tem sido discutido como "custos da democracia". O argumento é estapafúrdio por afirmar o óbvio e ignorar o essencial: o montante envolvido.

Na Europa e nos EUA, os partidos políticos e a democracia precederam o surgimento do FPPP em um século, como mostrou Susan Scarrow. A Alemanha aprovou legislação nesse sentido em 1959, no que foi seguida por Suécia (1965), Finlândia (1967), Noruega (1970), Itália (1974), Áustria (1975) e Espanha (1978). E só na década de 80 foi adotado em França (1988) —que também proibiu doações empresariais—, Grécia (1984), Dinamarca (1987), e Bélgica (1989), difundindo-se nas novas democracias nos anos 90. Mas há democracias onde inexiste FPPP (Suíça) ou ele limita-se a cobrir despesas administrativas dos partidos da oposição (Reino Unido), e ao reembolso de gastos eleitorais de parlamentares.

Há debate na ciência política sobre as consequências do FPPP. De um lado estão os analistas que o consideram um ingrediente que reforça os cartéis partidários, e inibidores da competição política; de outro, os que atribuem à FPPP a crescente fragmentação partidária nas democracias. Entre nós ele produziu hiperfragmentação, mas agora dá lugar ao cartel legislativo. Não é à toa que o apoio ao fundo une esquerda e direita.