quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

A Petrobras poderá celebrar? Hoje sim, a partir de amanhã, não, FSP

 Rodrigo Tavares

Fundador e presidente do Granito Group; professor catedrático convidado na NOVA School of Business and Economics, em Portugal. Nomeado Young Global Leader pelo Fórum Econômico Mundial, em 2017

Os anúncios públicos de lucros históricos das petroleiras, feitos com gotímetro ao longo deste mês, têm deixado os militantes da sustentabilidade desassossegados.

A Petrobras fechou o ano de 2021 com um lucro anual recorde de R$ 106,6 bilhões; a Galp Energia de 457 milhões de euros; a Shell de US$ 19,3 bilhões (R$ 96,7 bilhões); a BP de US$ 12,8 bilhões (R$ 64,1 bilhões) e a russa Rosneft pagará o maior volume de dividendos da sua história.

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O SPDR S&P Oil & Gas Exploration & Production ETF, um índice que junta as maiores empresas de petróleo e gás, teve um desempenho extraordinário de 67% em 2021. Para quem é investidor em combustíveis fósseis, o Carnaval chegou mais cedo.

Este repasto de lucros generalizados, motivados pela alta do preço do petróleo, não deverá, contudo, afrouxar a transição energética dessas companhias. Por cinco razões.

Sede da Petrobras, no Rio de Janeiro - Sergio Moraes - 16.out.2019/Reuters

Em primeiro lugar, a demanda por petróleo deverá atingir o planalto em até 15 anos, à medida que avança a produção de energias renováveis e a eficiência das baterias automotivas, que se aperfeiçoa a tecnologia em torno de novas fontes de energia (como hidrogênio verde ou querosene verde), e que se fortalece a consciência ambiental das pessoas.

Tudo isto demanda que as petroleiras se preparem para a descarbonização e, elas próprias, se tornem maioritariamente empresas de energia renovável. Por isso, a maioria delas já estabeleceu compromissos de net zero até 2040-2050 e anunciou investimentos obesos em energias renováveis. Para isso são precisos recursos. O caixa gerado em 2021 irá ajudar.

Em segundo lugar, com a crescente obrigatoriedade das emprestas listadas reportarem centenas de dados associados às suas práticas ESG, abrir-se-à uma nova alameda para a litigação. Depois da Exxon Mobil e da Shell terem sido alvo de carnudos processos jurídicos o ano passado, a tendência é para que acionistas e ONGs usem os novos dados públicos para verificarem se existe discrepância entre a teoria do que tem sido anunciado e a prática do que é entregue na área ambiental e social. A pressão da lei será maior do que a pressão da moralidade.

Empresas com menor sustentabilidade ambiental ou social também têm um risco regulatório mais expressivo, bem como uma adaptação mais lenta e cara às próximas mudanças regulatórias. Desde 2000 que as petroleiras já pagaram US$ 53,4 bilhões (R$ 267,7 bilhões) em multas (Good Jobs First, 2022). Atualmente, em fevereiro de 2022, existem 2,545 leis e políticas climáticas em nível mundial (LSE), tendo 38 sido adotadas no Brasil. As mãos que empurram as costas das empresas para a sustentabilidade são também de juristas.

Em terceiro lugar, petroleiras que negligenciem riscos climáticos são empresas com menor valor de mercado. Um estudo da Schroders mostra que as companhias que operam em petróleo e gás são as que têm os maiores custos potenciais para segurarem os seus ativos contra o impacto das alterações climáticas físicas. O valor destas empresas pode cair 4,5% se os temas climáticos não forem devidamente endereçados.

Em quarto lugar, o custo de capital (dívida e equity) de empresas não sustentáveis é superior –cerca de 0,5% para empresas na área de energia. A academia tem sido consensual neste domínio (por exemplo: Yasser Eliwa, Ahmed Aboud, Ahmed Saleh, 2021).

Finalmente, a recente volatilidade no preço do barril de petróleo, ainda que tenha gerado lucros de curto prazo, apenas sinaliza que as petroleiras devem adotar estratégias de longo-prazo, mais resilientes ao nervosismo temporário. Petróleo e gás não são investimentos de longo-prazo. Soluções de baixo-carbono, sim.

Neste contexto, a Petrobras tem razões para celebrar? A curto prazo, sim. O mercado reagirá positivamente e a diretoria da empresa será louvada por sua aparente competência. Mas a Petrobras tem mostrado dificuldades em se esculpir em empresa de baixo carbono e em se preparar para a descarbonização.

O novo plano estratégico da empresa para o quinquênio de 2022 a 2026 amplia a aposta nos fósseis. De um total de investimentos estimado em US$ 68 bilhões (R$ 340,9 bilhões) para o período, 84% irão para a exploração e produção de petróleo —um aumento de 23% em relação ao plano anterior. Apenas US$ 1,8 bilhão (R$ 9 bilhões) serão investidos na descarbonização da sua atividade. Na direção oposta, a portuguesa Galp, por exemplo, anunciou há alguns meses que decidiu abandonar novas prospecções de petróleo e gás a partir de 2022.

A empresa anunciou também que a sua estratégia de transição para uma economia de baixo carbono está baseada na modernização das refinarias para a produção de combustíveis com menos emissões de gases de efeito estufa. É muito pouco.

Também não tem ajudado a volatilidade governativa com que a Petrobras tem sido castigada desde a sua fundação, em 1953. A empresa já teve 39 CEOs, ou seja, um novo líder a cada 20 meses. E apenas uma mulher.

Apesar do anúncio de hoje, os investidores de longo-prazo, que ainda têm a Petrobras no seu portfolio, continuam não tendo razões para celebrar.

Petrobras tem lucro recorde de R$ 106,7 bilhões em 2021, alta de 1.400% em um ano, FSP

 Denise Luna e Fernanda Nunes, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2022 | 19h52

A disparada do preço do petróleo, que pesou no bolso dos consumidores em 2021, turbinou o resultado da Petrobras. A estatal fechou o ano com um lucro recorde de R$ 106,7 bilhões. O bom desempenho vai beneficiar os acionistas da companhia, que irão receber o volume histórico de R$ 101 bilhões em dividendos. Com o bom desempenho, a companhia anunciou a distribuição de mais de R$ 37,3 bilhões em dividendos aos acionistas, que já haviam recebido R$ 63,4 bilhões em 2021 como retorno pelo lucro dos três primeiros trimestres. No fim do ano passado, o presidente da República, Jair Bolsonaro, chegou a reclamar do lucro “muito alto” da estatal e afirmou que a companhia deveria ter “viés social”.

Petrobras
No quarto trimestre de 2021, o lucro líquido da Petrobras foi de R$ 31,5 bilhões Foto: Sergio Moraes/Reuters

Desde então, o presidente da empresa, Joaquim Silva e Luna, vem repetindo que a contribuição da petrolífera será via remuneração ao governo e pagamento de tributos, e não segurando preços dos combustíveis. A Petrobras, no entanto, não reajusta a gasolina e o diesel desde 12 de janeiro.

“Nada disso (o lucro) seria possível para uma empresa endividada sem capacidade de gerar valor. Estes resultados demonstram que a qualidade do nosso trabalho se traduz de maneira inequívoca em riqueza para a sociedade”, afirmou Luna, em texto do balanço financeiro.

Além da alta no preço do petróleo, a produção no pré-sal também ajudou a engordar o caixa da companhia. A região possui alta produtividade e um custo de extração do petróleo do fundo do mar mais baixo do que nos demais campos da estatal. Além disso, o volume de combustível vendido aumentou, assim como a margem de lucro da empresa com a gasolina e o óleo diesel.

No quarto trimestre, no entanto, o lucro de R$ 31,5 bilhões representou uma queda de 47,4% ante o registrado em igual período de 2020. Ainda assim, veio acima da previsão de analistas consultados pelo Estadão/Broadcast.  A média das projeções dos bancos BTG Pactual, Bradesco BBI e Credit Suisse e também do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), apontava para um lucro de R$ 28,27 bilhões no período. 

Rodrigo Glatt, sócio da GTI ADM de Recursos, avalia o resultado do ano como positivo. Além do benefício da alta do petróleo, ele ressaltou alguns eventos não recorrentes, como a venda de ativos. “Acho que essa distribuição adicional de dividendos talvez tenha vindo um pouco acima do que o mercado esperava”, disse.

A valorização do petróleo ajudou a empresa a incrementar receitas nos segmentos de exploração e produção. Foram arrecadados no ano R$ 3,7 bilhões com a extração de óleo e gás e mais R$ 272,97 bilhões com a comercialização de derivados de petróleo. 

Mesmo com a covid-19, o consumo de gasolina e óleo diesel cresceu em 2021. A Petrobras vendeu 1,8 milhão de barris por dia (bpd) de derivados de petróleo em 2021. O comércio de gás liquefeito de petróleo (ou gás de cozinha) foi de 228 mil bpd. 

Em 2021, a empresa ainda concluiu a venda da Refinaria Landulpho Alves (Rlam), na Bahia, ao fundo Mubadala, dos Emirados Árabes Unidos, um negócio de US$ 1,6 bilhão, e recebeu uma parcela relativa à venda do campo Carcará. 

A geração operacional de caixa, que reflete de fato a saúde financeira da companhia subiu 64,1% para R$ 234 bilhões no ano, comparado a 2020. Já o endividamento bruto permanece inferior aos US$ 65 bilhões, marca definida para a distribuição de dividendos aos acionistas. A Petrobras fechou o ano com dívida líquida de US$ 47,62 bilhões.

Sérgio Rodrigues - A sopa, a cartolina e o veneno, FSP (definitivo)

 

Escrever sobre palavras é uma atividade sempre encarada com alguma suspeita. Antiintelectuais em geral ficam irritados com a simples ideia de que se possa perder tempo com isso, mas nem os leitores argutos e de boa vontade conseguem impedir que um alarme soe de vez em quando no fundo da consciência: "São só palavras, a realidade é outra coisa!".

No momento em que ganha aceleração mais uma campanha eleitoral —quando as palavras importam como nunca—, convém esclarecer alguns pontos. As coisas têm precedência sobre os nomes que lhes damos, claro. No entanto, o modo como decidimos nos referir às coisas também são coisas. Convém explicar.

Colher com sopa de letrinhas
Colher com sopa de letrinhas - Adriano Vizoni - 17.mar.2015/Folhapress
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Uma vez imaginei a seguinte historinha. Um homem faminto (depois de visitar a Disneylândia em 2006, ele perdeu emprego e moradia durante a guarda de Paulo Guedes) tem diante de si os seguintes itens: um prato fumegante de sopa de legumes com carne e um pedaço de cartolina no qual se lê, escrito com pilot, "Sopa de legumes com carne".

A pergunta sobre qual dos dois itens é mais importante para a vida do sujeito parece ter resposta tão óbvia que chega a ser ofensiva, certo? Mesmo assim, é preciso fazê-la: qual dos dois itens, prato de sopa ou cartolina, é mais importante para a vida do homem que tem fome?

William Shakespeare poderia responder, falando pela boca de Julieta, que uma sopa, se tivesse qualquer outro nome, continuaria desprendendo o mesmo aroma delicioso. Com rosa no lugar de sopa, é o que diz a jovem de Verona no solilóquio famoso em que relativiza o fato de Romeu ser um Montéquio: "O que há num nome?". Ou seja, o cartaz é tão secundário que chega a ser irrelevante.

Muito bem. Então vamos imaginar que diante do homem faminto haja os seguintes itens: um prato fumegante de sopa de legumes com carne e um pedaço de cartolina no qual se lê, escrito com pilot, "Cuidado! Sopa com arsênico". Que tal repetir agora a pergunta sobre qual dos dois itens é mais importante para a vida do sujeito?

A trama nesse ponto se complica ao infinito, como é próprio da linguagem. O homem é analfabeto? Sendo alfabetizado, saberá que arsênico é um veneno? Sabendo de tudo isso, qual será seu grau de confiança na informação que consta do cartaz? E se for um trote de péssimo gosto? É possível que, apesar da incerteza, a fome atroz o leve a pagar para ver?

A palavra que nomeia a coisa não é, afinal, tão irrelevante quanto dizia Julieta. O próprio fim trágico dos amantes adolescentes de Shakespeare é uma prova disso. Se Romeu não se chamasse Montéquio, nome que o condenava a ser inimigo da família da amada, o fim da história teria sido outro. "O que há num nome?" Coisa à beça. Quem sabe a diferença entre a vida e a morte.

"No que depender de mim, lutarei até o fim para proteger a vida de nossas crianças", escreveu em sua conta no Twitter o presidente Jair Bolsonaro, a propósito da descriminalização do aborto na Colômbia.
Sim, estamos falando do presidente cujo negacionismo contribuiu decisivamente para a morte de 650 mil brasileiros, de um homem mundialmente famoso pelo desprezo à vida, que já criticou a ditadura militar por haver matado pouca gente e que fez as armas de fogo, os agrotóxicos e a devastação ambiental explodirem no Brasil.

Nessa hora, todos os que detêm a palavra se veem diante do dever moral de apregoar, com máxima ênfase, que a sopa tem arsênico. Se o pessoal vai saber ler o cartaz é outra história.