terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

Combater discurso de ódio com polícia é burrice, pois dá palanque para odiosos, João Pereira Coutinho, FSP

 "O Canadá", diz o hino. "O Canadá", digo eu, ao acompanhar o protesto dos caminhoneiros no país. Aquilo é uma salada de malucos, admito. Mas quando olho para o premiê também não vejo racionalidade.

Justin Trudeau não quer que os manifestantes antivacinas exerçam uma pressão ilegítima sobre a vida social e econômica do país, bloqueando estradas e pontes? Compreendo e aplaudo.

Polícia em monitoramento de manifestantes organizados por caminhoneiros canadenses, que protestam contra medidas medidas sanitárias para conter a pandemia, em Ottawa - AFP

Mas, depois, quando olho para as medidas do estado de emergência, engulo em seco. Congelar as contas bancárias dos manifestantes, como se o país estivesse a ser atacado por terroristas internos? A sério?
Péssimos augúrios. Hoje, são os caminhoneiros. Amanhã, será qualquer pessoa ou grupo que o governo da ocasião queira punir com igual ferocidade.

Sem falar das leis contra o discurso de ódio que o governo quer aprovar. Existem duas no pacote que a revista Economist sinaliza com horror.

A primeira lei pretende privar os acusados por discurso de ódio das mesmas garantias legais que estão à disposição de qualquer cidadão na lei criminal comum. Como se um odioso fosse pior que um pedófilo ou um serial killer, imagino.

A segunda, digna de uma história de Philip K. Dick, pretende punir o discurso de ódio antes mesmo de ele ser proferido. Basta suspeitar que alguém vai ultrapassar os limites para que a lei acolha uma ação judicial preventiva.

Se essas duas aberrações vingarem, podemos despedir-nos do Canadá como um Estado de direito democrático. Estaremos em território autoritário em que as liberdades civis foram esmagadas inutilmente —e de forma contraproducente.

Na semana passada, fiz uma breve referência às leis da República de Weimar contra o discurso de ódio. Erradamente, afirmei que Hitler foi preso por suas proclamações antissemitas. Absurdo. Hitler foi preso depois da tentativa frustrada de golpe na Baviera. Obrigado, leitores, por cuidarem da minha senilidade.

Mas meu ponto sobre a liberdade de expressão em Weimar não se altera. Anos atrás, Flemming Rose, editor do jornal Jyllens-Posten que em 2005 incendiou o mundo muçulmano com seus cartuns do profeta Maomé, publicou um dos mais importantes livros sobre a liberdade de expressão que conheço. O título é "The Tyranny of Silence", ou a tirania do silêncio, que analisa a República de Weimar em detalhes.

Afirma o autor que, durante esse período, a Alemanha tinha leis férreas contra o que designamos hoje por discurso de ódio. Insultar comunidades religiosas (protestantes, católicos, judeus) valia três anos de cadeia. Disseminar falsos rumores com a intenção de degradar indivíduos ou promover a guerra entre classes era brindada com dois anos.

Vários nazistas foram processados ou presos por causa disso. Joseph Goebbels era presença assídua nos tribunais. O seu jornal, Der Angriff, foi confiscado várias vezes —e Goebbels aproveitava suas sessões em tribunal para fazer comícios que reverberavam por toda a Alemanha.

Julius Streicher, editor do infame Der Stürmer, teve o jornal confiscado em várias ocasiões —e ele próprio foi preso, duas vezes por seu virulento antissemitismo.

Como conta Flemming Rose no livro, quando Streicher era levado para a cadeia, centenas de simpatizantes o acompanhavam em tom festivo. Quando saía da cadeia, tinha milhares à sua espera em manifestações ainda mais histéricas.

A moral dessa história não é, como alguns imaginam ou acusam, que o discurso de ódio é uma coisa boa. Podemos deixar de ser infantis? Nenhuma pessoa civilizada gosta desses charcos fétidos.

A questão é outra: o que ganhamos (ou perdemos) com a criminalização de palavras que não gostamos de ler ou ouvir?

Ilustração representando um muro coberto por desenhos que formam um painel de listras, estrelas e engrenagens
Ilustração publicada em 21 de fevereiro - Angelo Abu

Ganhamos pouco. Os odiosos ganham muito mais: novos auditórios e uma aura de mártires que jamais teriam se tivessem sido ignorados.

Quando juntamos a esse caldo perverso uma crise econômica brutal, como aconteceu na Alemanha depois da Primeira Guerra —e sobretudo depois do crash da Bolsa de Nova York em 1929— estão reunidas as condições para o desastre.

Excetuando casos extremos em que existe um perigo real, imediato e tangível para a paz civil, a melhor forma de lidar com os odiosos é pelo desprezo ou pelo debate intelectual.

Usar a lei para punir quem nasceu no esgoto é a melhor forma de resgatar do esgoto quem só merece lá ficar.

Suzana Herculano-Houzel A economia do cérebro, como a do mundo, é limitada pela oferta de recursos. FSP

 O mundo infectado pelo vírus da vez (porque outros virão, mas isso é outra história) descobriu recentemente o significado e as consequências da expressão "cadeias de distribuição" (supply chains): prateleiras vazias e preços mais elevados, quando as vias de transporte e distribuição de produtos não dão conta da demanda por produtos. Por enquanto, as consequências ainda estão majoritariamente limitadas a bens de luxo, ou supérfluos; hora, então, de aprender com a experiência, antes que seja tarde demais.

A economia do cérebro, como a do mundo, é limitada pela oferta de recursos
A economia do cérebro, como a do mundo, é limitada pela oferta de recursos - Raman Oza/Pixabay

A lição aqui é que bens escassos precisam ser reconhecidos como tais —e a origem da escassez pode estar não no bem em si, mas na rede de transporte e distribuição que faz o bem chegar às unidades de consumo. É a diferença entre se saber morando em uma casa com placas solares e bateria em clima quente e ensolarado numa cidade com rede elétrica ampla e redundante, ou em um vilarejo remoto cuja eletricidade depende de um único cabo vindo de uma única fonte —e seus vizinhos ainda teimam em ligar chuveiro elétrico e ar condicionado todos os dias. Moradores de ambas localidades podem ter as mesmas habilidades, desejos e planos, mas sua capacidade de realização é limitada pela energia que recebem.

Tal parece ser também o caso do cérebro, como acabo de descobrir.

Minha nova paixão científica é a economia do cérebro: não como o cérebro lida com a Economia que ele cria no mundo —o tráfego e tráfico de recursos escassos—, mas como é a economia do tecido cerebral em si. Quanta energia o cérebro usa, e como isso se compara com quanta energia ele tem disponível? Venho trabalhando em colaboração com Douglas Rothman, expert em metabolismo cerebral na Universidade Yale, e juntos acabamos de publicar, em um número especial da revista Frontiers in Integrative Neuroscience, nossa descoberta de que também a economia do cérebro, como a do mundo, é limitada pela oferta de recursos.

Talvez a ideia pareça obvia ao leitor acostumado com escassez de recursos, mas boa parte dos neurocientistas opera sobre uma premissa bem diferente: a ideia de que a energia trazida ao cérebro pelo sangue é sempre abundante e em excesso, comparado ao necessário para a atividade dos neurônios. Ao contrário, Doug e eu mostramos, usando modelos matemáticos da distribuição de oxigênio ao tecido cerebral, limitada pela densidade de capilares no tecido, que o cérebro, mesmo à toa, de bobeira, já funciona perto do limite.

O problema é que o cérebro não funciona como um músculo, o qual, em repouso, tem capilares fechados, como mangueiras colapsadas, que se abrem automaticamente quando as artérias respondem à atividade muscular bombeando mais sangue. No caso do cérebro, todos os capilares estão sempre abertos, e a mangueira principal, que é a artéria carótida interna, sempre bombeia o que pode. Resultado: o cérebro faz o que pode com o tanto constante de sangue que recebe.

O que isso significa? Deixo você pensando a respeito, caro leitor cujo cérebro já funciona a todo vapor o tempo todo. Volte aqui em duas semanas que eu explico...

Painel - Rodrigo Garcia é um Doria melhorado e sem antipatia, diz dirigente do União Brasil, FSP

 Guilherme Seto

SÃO PAULO

Vice-presidente do diretório paulista do União Brasil e líder de um dos principais grupos de aliados do PSDB em São Paulo, o deputado federal Alexandre Leite define Rodrigo Garcia como um "João Doria melhorado", sem os "problemas de personalidade" que a população enxerga nele.

Esses problemas são caracterizados por Leite como dificuldades de Doria em ser percebido como carismático pela população, o que tem se transformado em fracasso para converter os méritos da gestão em vantagens eleitorais.

O parlamentar afirma que o vice-governador tucano tem habilidade na relação com a classe política, o que o titular nunca conseguiu aprender, e que, caso Doria não consiga melhorar seu desempenho eleitoral, sugerirá que o vice-governador descole sua imagem da dele na campanha pelo governo de SP.

Ele afirma que ele e os demais aliados estarão de olho em possível contaminação negativa de Garcia por Doria, que não tem conseguido se livrar dos altos índices de rejeição.

Alexandre Leite, deputado federal e vice-presidente do União Brasil-SP
Alexandre Leite, deputado federal e vice-presidente do União Brasil-SP - Cleia Viana-11.ago.2021/Câmara dos Deputados

"Você está vendo a âncora afundar e não dá para agarrar", diz o deputado, filho de Milton Leite (UB), presidente da Câmara Municipal de São Paulo.

"Não acho que o Rodrigo deva se agarrar à imagem dele se o Doria continuar em decadência. A gente tem que sentir a água passando debaixo da ponte. Tem muita água para passar. A partir de abril a gente vai ter um feeling mais real do que vai ser eleição estadual e quais são os candidatos que vão despontar de fato", completa.

"Quem conhece o Rodrigo e ouve falar, gosta dele. É difícil alguém ouvir o Rodrigo falar e ficar com ranço. O Doria sempre solta alguma coisa que deixa o povo com ranço. Na hora de falar com o povo, muitas vezes ele é antipático. O Rodrigo não tem essa antipatia. Foi deputado estadual, presidente da Assembleia [Legislativa de São Paulo]. Ele tem um know how político que o Doria não tem", completa.

Leite elogia a capacidade de gestão de Doria e diz que ele faz uma boa administração em São Paulo, com avaliações favoráveis em todos os setores, como Saúde e Educação. "Ele delega as pastas, sabe tocar a máquina, é fora de série", afirma. No entanto, afirma, o reconhecimento popular não é proporcional devido a dificuldades na comunicação.

Nesse sentido, raciocina Leite, Doria e Jair Bolsonaro (PL) são similares. Ou, como ele coloca, são "iguais de maneiras diferentes, elefantes na loja de cristais: um do lado de dentro e outro querendo entrar".

Ele diz que o tucano deveria zerar sua campanha presidencial, a começar por retirar Bruno Araújo, presidente do PSDB, da coordenação.

"Em rede social hoje Doria representa 0,8%. Ele tem que zerar e começar de novo. Se continuar assim vai ser difícil ter adesão de alguém. Como que eu vou aderir sabendo que quem coordena a campanha dele quer sabotar?", afirma Leite. "Tem que desconstituir o coordenador de campanha. O cara sabotou ele a campanha inteira. Não é fazer gesto político. Tem que fazer para ganhar", afirma.

"Como você vai disputar uma eleição presidencial olhando para dentro de casa?", acrescenta, em referência aos questionamentos que Doria tem sofrido no interior do partido de tucanos que pedem que ele desista da candidatura.

O União Brasil planeja celebrar o apoio a Garcia com evento em 22 de março. Para Leite, o segundo turno será entre Garcia e Fernando Haddad (PT). Sobre Tarcísio de Freitas, ministro da Infraestrutura apoiado por Jair Bolsonaro (PL), ele acredita que perderá força com o início do horário eleitoral e dos debates.

"É onde a população define [o voto]. Debates e propaganda na TV. Nas majoritárias é TV. Depois que começarem o horário de TV e os debates o Rodrigo vai deslanchar", defende.

Segundo Leite, a estratégia dos aliados para tornar Garcia mais conhecido deve ser a de colocá-lo para divulgar as entregas feitas pelo governo do estado nos últimos anos.

"Tem muito em todas as áreas. O governo mandou dinheiro para todos os municípios. Nunca teve isso antes. Os municípios mendigavam emenda parlamentar. Vai ser um trabalho de trazer a paternidade disso para o Rodrigo, o que o Doria não tem conseguido devido à rejeição à personalidade dele, e não à capacidade de gestão, que é bem avaliada", conclui.

O União Brasil reivindica a escolha do vice na chapa de Garcia. Em relação ao diretório paulista da sigla, planeja eleger ao menos dez deputados federais por São Paulo em 2022.