sábado, 25 de setembro de 2021

Carlos Neder, presente!, Linha de Frente, GERSON SALVADOR, FSP

 No início dos anos 2000, durante a graduação em medicina na USP, eu participei da direção do Caoc (Centro Acadêmico Oswaldo Cruz). Nossa geração tinha grande orgulho de sermos sucessores de jovens que se engajaram na resistência à ditadura civil-militar brasileira, e passamos a promover encontros entre os estudantes da época com a chamada velha guarda, que dirigiu o Caoc entre os anos 1960 e 1970.

Foi num desses momentos que conheci Carlos Neder. Se vocês não estão lembrados, dá licença de falar, Carlos era de Campo Grande, ingressou na Fmusp em 1973 e recebeu a alcunha de Mato Grosso. Destaco: o Mato Grosso do Sul só foi criado em 1977.

O estudante Mato Grosso atuou no Caoc como diretor do departamento de pesquisas médicas e sociais. Entre suas atribuições, passou a frequentar comunidades carentes da Zona Leste onde, ao lado de seus companheiros da faculdade e orientados por jovens médicos atendia pessoas pobres no terreno de uma igreja e discutia política no território.

Essa militância estudantil foi decisiva para a organização de movimentos populares fundamentais à chamada reforma sanitária brasileira. Quando Neder se formou, não teve dúvidas de que se dedicaria à saúde pública e passou a trabalhar como sanitarista no extremo Leste de São Paulo, de onde seguiu lançando sementes, colaborando com a construção do que seria o nosso Sistema Único de Saúde, com a saúde sendo considerada direito de todos e dever do Estado na Constituição de 1988.

Neder foi secretário municipal de saúde na gestão de Luiza Erundina, vereador da capital e deputado estadual, mas ao falar de Carlos antes de citar qualquer cargo que ocupou, destaque-se um homem que nunca vacilou na defesa dos seus princípios éticos e morais, da democracia como caminho e do socialismo como horizonte. Suas convicções muitas vezes lhe custaram, dentro de um sistema político extremamente pragmático, com os parlamentares apartados de suas chamadas bases sociais, mas Neder sempre teve Mato Grosso, um jovem sonhador, orientando os seus caminhos.

Soube há algumas semanas que meu amigo estava com Covid-19, que fora internado, depois transferido para uma unidade de terapia intensiva, eram sucessivas notícias de agravamento de seu quadro clínico. Há dois dias soubemos que Carlos se encontrava numa situação irreversível, sob cuidados paliativos exclusivos. Confesso que as lágrimas me desafiaram, com tristeza pela iminência da perda de meu amigo, mas de alguma maneira contemporizado pelo fato dele ter o tratamento voltado para o alívio de qualquer sofrimento. Hoje soube que Carlos morreu, mas os semeadores deixam legados bonitos que terão consequências não apenas aqui e agora, mas também no porvir.

Meu amigo Carlos, superaremos essa pandemia, reencontraremos os caminhos para a construção do SUS, obra de sua vida e de tantas outras pessoas valorosas, haverá primavera e haverá memória.

Carlos Neder, presente!


    Alvaro Costa e Silva Cinco dias de isolamento não vão curar Bolsonaro, FSP

     

    Bolsonaro e seus fâmulos armaram em Nova York um picadeiro de fazer inveja a P. T. Barnum (1810-1891), a quem é atribuída uma frase que sintetiza o mundo dos espetáculos: "Nasce um otário por minuto". Em seus circos, o empresário explorava anões, mulheres barbadas, irmãos siameses e o famoso elefante Jumbo. O presidente levou em sua comitiva ministros que deixam a cueca à mostra, dão o dedo do meio e fazem arminha e um filho que, entrevistado na TV, chamou o prefeito da maior cidade americana de "marxista".

    Bolsonaro, Queiroga, Luiz Eduardo Ramos e outros membros do governo comem pizza na rua em Nova York - Instagram/@gilsonmachadoneto/Reuters

    Barnum se autointitulava King of Humbug —algo como Rei da Cascata ou da Trapaça. Bolsonaro quer roubar-lhe a coroa. Nas preliminares do discurso na ONU, encenou o conto do homem simplório. Comeu pizza no meio da rua e pediu picanha bem passada (burp!) na churrascaria, reprisando a farsa doméstica de se lambuzar com leite condensado no café da manhã. O prato custa US$ 50, por cabeça, mais que o auxílio emergencial.

    Único chefe de Estado na reunião do G20 a se vangloriar por não ter tomado a vacina, sua fala resumiu em 13 minutos as mentiras que os brasileiros estamos cansados de ouvir. Em alguns trechos, ao comparar o cristianismo e a família tradicional aos pilares da sociedade, mostrou que está andando para o Brasil. Só pensa na reeleição. O destino do projeto que enviou ao Congresso fragilizando o combate a fake news é o que mais lhe interessa no momento.

    No entanto, a temporada no estrangeiro revelou duas boas propostas para o país. A primeira com a visão da funcionária da ONU encarregada de desinfetar o pódio no qual discursaram os governantes, vacinados ou não. A segunda com a soberba do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que, deixando o nariz fora da máscara, contraiu o vírus e terá de ficar isolado em Nova York.

    Ante a demora do impeachment de Bolsonaro, encontrou-se a solução: desinfetá-lo e isolá-lo. Não por cinco dias e sim de maneira definitiva.


    Na vacinação, a Darwin o que é de Darwin, Hélio Schwartsman - FSP

     O Brasil está atrasado, mas vários países de renda alta e média já vão batendo no teto da vacinação contra a Covid, isto é, aquele ponto em que a cobertura deixa de avançar, embora haja doses disponíveis para quem deseje tomá-las. Características culturais fazem toda diferença. Israel, que saiu na frente na imunização, estacionou na casa dos 60% da população totalmente imunizada. A cobertura é alta para os idosos, mas entre os jovens a hesitação vacinal é grande.

    Vacinação com a terceira dose em São Paulo, iniciada em 15/9 - Ronny Santos/Folhapress

    Algo parecido vale para os EUA, que também largaram bem, mas pararam nos 55%. O que chama a atenção ali é a diferença de cobertura entre estados, que parece obedecer a padrões geográficos e políticos. A Europa ocidental, que, como o Brasil, começou mal, agora se encontra numa situação bem mais confortável. O destaque positivo é Portugal, que já vacinou mais de 80%. Mesmo a França, onde se temia forte resistência à vacinação, já ultrapassou os 60%.

    O problema é que taxas de 60% e de 70% de totalmente imunizados ainda são insuficientes para que se atinja a tão almejada imunidade coletiva. Estima-se que, para alcançá-la, teríamos de vacinar mais de 95% da população. Difícil acontecer.

    O mais provável, portanto, é que tenhamos de nos conformar com uma realidade pós-pandêmica em que o vírus ainda circulará, embora com menos intensidade e causando muito menos destruição. Para que isso ocorra o quanto antes, porém, os países precisam avançar mais na imunização. Na minha opinião, quase todas as armas são válidas: campanhas educativas, prêmios, exigência de atestado para frequentar certos lugares e até a demissão por justa causa em algumas funções. Eu só descartaria mandar a polícia pegar os recalcitrantes a laço.

    O Estado deve oferecer e convencer. Na emergência, pode pressionar. Mas, a partir de certo ponto, a recusa obstinada deve ser interpretada como um autossacrifício darwiniano pela melhoria da espécie.