domingo, 4 de abril de 2021

Reinaldo José Lopes Morte e ressurreição, FSP

 Reinaldo José Lopes

SÃO CARLOS (SP)

Escrevo esta coluna, que será publicada num domingo de Páscoa, durante a Sexta-Feira Santa.Diante do peso avassalador do sofrimento trazido pela Covid-19 a tantas famílias no Brasil e no mundo, ficam rodando naminha cabeça as palavras que João Paulo 2º (1920-2005) pronunciou num de seus sermões mais famosos —a homilia que, diz a lenda, teria selado sua eleição como papa quando ele ainda era só um prelado relativamente obscuro num país debaixo da Cortina de Ferro.

“A Terra se tornou um cemitério”, dizia ele, “com tantos túmulos quanto existem homens. Um vasto planeta de tumbas”. Vivemos no Planeta-Cemitério e, pior, no País-Cemitério. Haverá ressurreição para nós?

O primeiro passo para que haja um fiapo de esperança de um “sim” como resposta é reconhecer que, coletivamente, grande parte do Brasil, a começar por muitos dos seus cidadãos mais ricos e poderosos, escolheu a “cultura da morte” condenada com tanta veemência por João Paulo 2º. E escolheu ainda a “cultura da mentira”. A mais cruel das ironias é que o sujeito que não para de repetir “a verdade vos libertará” é incapaz de reconhecer um fato verdadeiro que vá contraasua ideologia carniceira.

O projeto que boa parte do país engoliu, por conveniência, autoengano ou ignorância suicida, sempre foi um projeto de morte e mentira. Derrotá-lo e construir algo novo em cima da terra arrasada que ele deixará para trás inevitavelmente passa pela capacidade de perscrutar e reconhecer amajestadedosfatos,o granito nos alicerces da realidade, e erigir umaoutra casa para todos em cima dessa rocha.

No lugar de um país de grileiros, madeireiros e latifundiários, sedentos por transformar em pasto a maior catedral verde já erigida por bilhões de anos de evolução, sonho com a possibilidadede fazer do conhecimen a respeito da Amazônia, e não da destruição dela, a raiz de novas indústrias, medicamentos inovadores e energias renováveis. A estratégia de nuvem de gafanhotos que o Brasil adotou até aqui pode produzir reis da soja e da picanha no curto prazo, mas seus frutos mais duradouros serão desertos—inclusive no Sudeste, jáque tudo está conectado—, se não mudarmos de rumo logo.

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Sonho comachance de usar esse tipo de conhecimento para que sejamos inventores de vacinas, e não seus importadores desesperados e imprevidentes. Para que as armas definitivas contra dengue, zika e chikungunya sejam criadas aqui e beneficiem o mundo todo.

Gente qualificada para fazer com que esses sonhos se transformem em realidade não nos faltam. Antes dos últimos anos de catástrofe econômica e social, formamos as melhores gerações de cientistas brasileiros de todos os tempos —pessoas que, é bom lembrar, estão sendo empurradas para fora do país por um sistema de investimento em pesquisa sucateado e por incentivos econômicos perversos, que nos mantêm presos à maldição de pilhar recursos naturais e exportá-los a preço de banana. Mas é claro que não surpreende o desprezo diante do nosso melhor capital humano num país que despreza meras vidas humanas, quaisquer que sejam.

Sonho, por fim, com o óbvio que parece impossível: uma comunidade política que tome decisões sobre que caminhos seguir com base em evidências factuais e compaixão humana básica, juntas, e não divorciadas. Não há outro caminho. Talvez seja pedir demais, num país tão desumano quanto o nosso. Mas, nem que seja só por hoje, olhar para o sepulcro vazio me dá alguma esperança.

Elio Gaspari De Jango@edu para Bolsonaro@gov, Elio Gaspari FSP

Presidente,

Faz tempo, no dia de hoje, eu estava num aviãozinho Cessna pilotado pelo Maneco Leães, voando de minhas terras para Montevidéu. Pousamos, pedi asilo e só voltei ao Brasil, em 1976, morto.

Escrevo-lhe porque vi que o senhor já falou em estado de sítio, um deputado da sua copa tentou aprovar uma medida parecida e há no seu pelotão o interesse de montar um dispositivo militar.

Não tenho simpatia por vossa figura e sei que a recíproca é verdadeira. Mesmo assim, escrevo-lhe para contar minha experiência, porque ambos sentamos na mesma cadeira.

Estado de sítio, eu também tentei, em outubro de 1963. Parecia boa ideia e a Central Intelligence Agency disse ao presidente John Kennedy que o comandante do Exército e “a maioria dos militares provavelmente apoiariam as medidas fortes”. Estávamos enganados, a proposta do estado de sítio naufragou e tive que retirá-la.

Dias depois empossei na chefia da Casa Militar o general Assis Brasil. Desde o primeiro momento ele se dedicou a montar um dispositivo de apoio militar ao governo. Como ele trabalhava no palácio, era o único general que eu via todos os dias. Considerava seu dispositivo “imbatível”. No início de março de 1964 ele dizia que seu esquema “se não é perfeito, é pelo menos o melhor de quantos já se armaram neste país”.

No dia 30, o Tancredo Neves não queria que eu fosse à reunião de sargentos do Automóvel Clube, mas o general disse que eu devia ir. Quando o Mourão Filho se rebelou, o Assis Brasil achou que dominava a situação. Fomos juntos para Brasília e de lá para Porto Alegre. Aos poucos nos demos conta da gravidade da situação. O dispositivo do general só existia na cabeça dele. Na madrugada do dia 2 de abril, eu estava deposto. Para não ser preso, fui para São Borja e o general voou comigo.

Seguimos para um rancho perdido nas margens do rio Uruguai. Lá eu cozinhei um ensopadinho de charque com mandioca. No dia seguinte, há exatos 57 anos, voamos com o Maneco para Montevidéu.

Depois de desembarcamos, ele me disse: “Sou soldado e tenho de me apresentar. Não quero ser considerado um desertor. Vou avisar ao ministro da Guerra que vou voltar”.

O Assis Brasil voltou, ficou preso por três meses. Tempos depois, cassado, ele foi me visitar em Montevidéu, mas a Maria Tereza destratou-o e ele foi embora.

Outro dia, no churrasco de aniversário do Getúlio Vargas, o general Golbery me contou que, em 1980, quando estava na chefia da Casa Civil recebeu uma carta do Assis Brasil pedindo a transferência de um amigo para Porto Alegre. Foi atendido.

Eu nunca tentei entender como o general do meu palácio armou aquele dispositivo “imbatível”, mas acho que o senhor não deve pensar nesse tipo de armação. Eu aprendi que quanto mais perto do presidente uma pessoa está, mais longe da realidade ela vive.

Respeitosamente

João Goulart 


Esperança

O general Braga Netto aceitou o Ministério da Defesa com uma frase: “Missão dada, missão cumprida”.

Faria melhor se dissesse “missão dada, missão aceita”.

Grandes generais aceitaram missões e foram batidos.

Fritando, fritaram-se

O serpentário do Planalto aprendeu uma lição. Durante dois dias fez circular a fofoca segundo a qual o general Fernando Azevedo havia sido demitido porque havia defendido seu colega Paulo Sérgio.

O chefe do Departamento Geral do Pessoal havia dado uma entrevista ao repórter Renato Souza mostrando a boa qualidade da prevenção sanitária praticada no Exército: uma letalidade de 0,13% na tropa, contra 2,5% no país.

Era pura malvadeza. O general só havia mostrado que no seu quadrado as coisas funcionavam.

Na quinta-feira Bolsonaro nomeou o general para o comando do Exército.