terça-feira, 25 de agosto de 2020

Alvaro Costa e Silva Witzel sem faixa, FSP

 Em seu livro “As Cariocas” (1967), Sérgio Porto levou a desinibida ao Grajaú. Uma escolha que se mostraria explosiva. Loura e bela, Marlene era uma moça moderna, que antes vivia no Leme. “Talvez moderna demais para o Grajaú”, escreve o cronista. Num domingo, ela decidiu lavar o fusca azul que ganhara no concurso Garota da Praia. Vestiu uma blusa, enrolando as pontas e dando um nó debaixo dos seios, e se meteu num shortinho. Dona Esperança, com o corpanzil que mal dava para debruçar no parapeito, gritou da janela: “Lugar de vagabunda mostrar o umbigo é no teatro!”.

O Grajaú, garantem os moradores, é o lugar mais conservador do Rio. Para a fama, concorre o fato de ser um reduto de militares e um bairro inteiramente planejado (um dos poucos da cidade), no sopé do Maciço da Tijuca, com muitas árvores e casas que resistem ao tempo.

Numa delas, de dois andares, morava o governador Wilson Witzel. Após a eleição, ele disse que jamais se mudaria. Mas não cumpriu a promessa. Instalou-se, com toda a pompa, no Palácio Laranjeiras —de onde poderá sair pela porta dos fundos.

Sob suspeita de desviar mais de R$ 1 bilhão da saúde, Witzel enfrenta dois processos: o do impeachment e o da negação. “Conseguimos manter em alto nível as políticas públicas de combate à pandemia”, ele tem a coragem de dizer, após ser acusado de destinar dinheiro para construir hospitais de campanha fantasmas.

Se voltar às origens no Grajaú, Witzel terá algumas opções para passar o tempo. De manhã, exibindo a faixa que mandou confeccionar e que antes dele nenhum governador usara, sairá para comprar pão e leite na padaria Joia, a melhor da região. Com uma espingarda de espoleta, mirará na cabecinha de quem passar na rua e... fogo! Em dias de jogos do Flamengo, pulará no meio da praça Edmundo Rego, sem que ninguém possa imaginar que ele no fundo não estará comemorando um gol, e sim uma morte.

Hélio Schwartsman Os Lusíadas, FSP

 

As armas e os Barões assinalados/ Que da Ocidental praia Lusitana/ Por mares nunca de antes navegados/ Passaram ainda além da Taprobana.

É brincadeira, gente. Não precisarei socorrer-me de Camões nem de receitas de bolo —recursos utilizados pelos jornais durante a ditadura, para indicar que estavam sob censura— ao lidar com a intimidação que o governo Bolsonaro tenta fazer contra mim em particular e contra a imprensa em geral, que inventou um inquérito, com base na Lei de Segurança Nacional (LSN), para me investigar por ter escrito uma coluna em que afirmava torcer pela morte do capitão reformado.

Enquanto tiver um computador e espaço para publicar, não vou deixar de dizer o que penso da atual administração, a mais desastrosa e funesta da breve história da democracia brasileira.

Como acredito que ainda existam juízes em Berlim, São Paulo, Brasília e outras localidades, a tentativa do ministro da Justiça, André Mendonça, de calar-me dará com os burros n’água. Qualquer um que tenha passado pelo ensino fundamental, onde se ensinam os rudimentos da interpretação de texto, e por um curso introdutório de direito penal, onde se ensina o que é e o que não é crime, pode ver que minha coluna original não continha calúnia nem difamação contra Bolsonaro, o que possibilitaria o uso do artigo 26 da LSN.

Aliás, se o Brasil fosse um país mais sério, o exercício de bajulação do ministro se voltaria contra suas pretensões de obter uma cadeira no STF. É que a Carta exige dos candidatos a ministro da corte máxima o notório saber jurídico e a reputação ilibada.

PUBLICIDADE

Se Mendonça viu crime onde existe mera opinião, não conhece direito; se conhece e, mesmo assim, deu curso à truculência, não tem idoneidade moral, o que depõe contra sua reputação. O raciocínio não vale só para o meu caso. Aplica-se também à incrível história dos dossiês. Mas Mendonça não precisa se preocupar. Estamos no Brasil.

Hélio Schwartsman

Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de "Pensando Bem…".

A Folha da Faria Lima, Nelson Barbosa, FSP

 


Nelson Barbosa

Professor da FGV e da UnB, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016). É doutor em economia pela New School for Social Research

opinião da Folha reflete o pensamento preponderante na cidade de São Paulo, hoje muito influenciado pela “Faria Lima”, aquela pequena comunidade de 100 mil a 150 mil pessoas cuja vida gira em torno do mercado financeiro.

Tivemos um bom exemplo da lógica “farialimer” no editorial “Jair Rousseff”, que tentou equiparar Bolsonaro a Dilma. Do ponto de vista político, nossa ex-presidente já respondeu à Folha, apontando o absurdo de igualar uma liderança democrata com um presidente de viés autoritário. Neste texto, abordarei o raciocínio econômico do editorial.

Em primeiro lugar, a Folha exagera ao dizer que houve gasto sem limite durante o governo Dilma. Houve expansão fiscal? Sim, houve, sobretudo em 2012-14, mas não muito diferente do ocorrido em outros governos.

Quando se trata de uma razão, numerador e denominador importam. Traduzindo do economês, quando a economia desacelera, o gasto do governo pode crescer mais lentamente do que no período anterior e, ainda assim, subir em proporção do PIB. Foi assim na comparação entre o primeiro e o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso. Foi assim na comparação entre o segundo mandato de Lula e o primeiro mandato de Dilma. O gasto primário desacelerou sob Dilma.

Nelson Barbosa, colunista da Folha, é professor da FGV e da UnB, ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (2015-2016) - Bruno Santos/Folhapress

O gasto deveria ter desacelerado mais? Presumo que a Folha ache que sim, e essa é minha segunda crítica ao editorial. Em momentos de crise, um ajuste fiscal muito forte pode se autoderrotar derrubando o PIB. Ilustro novamente com um exemplo: o Brasil de 2015.

[ x ]

No início do segundo mandato de Dilma, fizemos forte ajuste fiscal, e isso foi um erro (sim, isso foi autocrítica). A economia não estava bem, e a combinação de colapso dos preços internacionais de commodities com os efeitos internos da Operação Lava Jato derrubou o nível de atividade econômica muito além do que era esperado, por governo e mercado, no início de 2015.

Naquele contexto, ao fazer forte contração fiscal e rápido realinhamento de preços de energia, o governo federal empurrou a economia mais para baixo. Era preciso fazer exatamente o contrário, Orçamento com déficit para estabilizar a economia, como Dilma acabou propondo na segunda metade de 2015, mas o Congresso só aprovou em meados de 2016, com Temer.

Assim como hoje, a Folha também pediu mais recessão em 2015. Felizmente, Temer ignorou o pedido e flexibilizou a política fiscal em 2016. Apesar do discurso de austeridade, houve forte elevação de despesa antes da implementação do teto de gasto. O déficit acabou sendo muito maior do que Dilma havia proposto, e isso ajudou a estabilizar economia no início de 2017.

A expectativa era que o PIB decolaria a partir de então, mas isso não ocorreu. Crescemos pouco, com quase estagnação do PIB per capita em 2017-19, tudo isso antes da Covid. Parte da estagnação veio da política fiscal, da decisão de promover consolidação fiscal prematura em uma economia que mal havia saído de uma grave recessão. Hoje corremos o mesmo risco, e essa é minha terceira crítica ao editorial da Folha.

Nosso debate sobre política fiscal frequentemente cai no maniqueísmo: “Teto de gasto versus gastança sem limite”. Quem acompanha o assunto sabe que existem regras alternativas para permitir elevação ou manutenção de alguns gastos necessários —como infraestrutura, saúde e educação— ao mesmo tempo que se controlam despesas não essenciais —como salários elevados de algumas carreiras.

Ao insinuar que toda e qualquer mudança do teto Temer gerará crise cambial e monetária, o editorial da Folha não ajuda o debate racional do tema. Precisamos de regra fiscal mais adequada à nossa realidade econômica e social, bem como devemos levar em conta que a economia pode não se recuperar rapidamente da pandemia.

Já apostamos na fada da confiança e no PIB privado em 2017-19, sem sucesso. Fazer isso novamente é arriscado, sobretudo quando milhões de famílias só não estão na pobreza devido ao auxílio emergencial de R$ 600 criado pelo Congresso.

O fato de até Bolsonaro se render à necessidade de manter um mínimo de transferência de renda e investimento deveria fazer a Folha refletir que, talvez, mais do que “impulso populista”, nossa elevada desigualdade de renda e grande carência de infraestrutura acabam empurrando qualquer governo para a realidade, isto é, para fora da bolha da Faria Lima.

LEIA MAIS