segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Mathias Alencastro - América do Sul, enquanto utopia de construção política, acabou, FSP

 A América do Sul, enquanto utopia de construção política, acabou com a pandemia. Se os blocos regionais foram fortalecidos na Ásia, na Europa e na África, eles foram praticamente desmantelados nas Américas.

Esvaziado de suas funções, o Mercosul virou um simples coordenador de espaços fronteiriços. Incrivelmente, os chefes de Estado de Brasil e Argentina nem sequer se comunicam por telefone. Até a Coreia do Norte e do Sul mostram mais vontade em cooperar.

Da esq. para a dir., o chanceler Ernesto Araújo, o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes, durante reunião virtual do Mercosul
Da esq. para a dir., o chanceler Ernesto Araújo, o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes, durante reunião virtual do Mercosul - Marcos Correa - 2.jul.20/Presidência da República via AFP

Impossível negar a responsabilidade do governo Jair Bolsonaro. Antes mesmo da posse, Paulo Guedes já sugeria que o Mercosul seria secundário. Em seu primeiro ano de mandato, o presidente sabotou as negociações do tratado entre o Mercosul e a União Europeia, definitivamente enterrado pela Alemanha na semana passada.

O abandono de qualquer pretensão de liderar a região é, no mínimo, surpreendente.

Afinal, Bolsonaro chegou ao poder por força de uma onda conservadora somente comparável à onda da esquerda do início deste século.

Praticamente todos os países vizinhos eram chefiados por aliados potenciais. Replicando as ideias de Steve Bannon, Eduardo Bolsonaro alimentava uma conversa fiada sobre um movimento populista na América no Sul.

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Nada disso avançou, e o melhor que o governo Bolsonaro conseguiu foi inaugurar uma era de vandalismo diplomático marcada por ações pontuais, violentas e escabrosas, mal organizadas e contraproducentes.

A tentativa de emplacar na marra Juan Guaidó, numa produção digna de um filme da "Sessão da Tarde", acabou reforçando a ditadura de Caracas.

Hoje, Nicolás Maduro tortura ativistas, persegue indígenas e trata os doentes da pandemia como bioterroristas, sob os aplausos dos fanáticos que ainda se dignam a apoiá-lo no Brasil.

Talvez ainda mais revoltante, Ernesto Araújo e sua claque entregaram a cambaleante democracia boliviana a um bando de autocratas descarados, que têm como único objetivo adiar as eleições até eliminar todos os seus opositores.

Mas o descalabro do Itamaraty não explica tudo. A deliquescência do bloco regional tinha um quê de inevitável. Com a entrada em cena da China, Peru e Chile assumiram sua virada para o Pacífico, enquanto a Colômbia embarcou no projeto da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

A Venezuela, que nunca hesitou em torrar petro-dólares em iniciativas de integração regional, desapareceu do mapa para as próximas gerações.

A despeito dos gestos de boa vontade de seu presidente, a Argentina parece acomodada no isolacionismo, e regionalistas convictos como Paraguai e Uruguai serão incapazes de reverter a tendência sozinhos.

Longe vão os tempos em que mentes brilhantes como o centenário Celso Furtado desenhavam o futuro da região. Quando o Brasil voltar a ter uma agenda regional, seus formuladores serão obrigados a sair da zona de conforto.

Eles e elas terão de aceitar que a integração da América do Sul, entendida como um destino natural, não terá passado de uma centenária ilusão.

Mathias Alencastro

Pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento e doutor em ciência política pela Universidade de Oxford (Inglaterra).

Marcus André Melo Bolsonaro e o Nordeste, FSP

 Há uma perplexidade descabida com o crescente apoio de Bolsonaro no Nordeste. Reação semelhante ocorreu quando ele propôs o 13º ao Bolsa Família.

A perplexidade está ancorada em argumentos equivocados sobre a natureza do voto dos setores pobres.

Na sua versão, digamos, maximalista (ou "milenarista"), assume-se que os pobres em certas conjunturas são despertados do seu torpor e adquirem "consciência de classe". Uma delas teria ocorrido, nesta visão, em 2006, quando o voto no PT deslocou-se dos centros urbanos para os "grotões".

Na versão mais difundida, há o suposto de que o eleitorado pobre da região sempre premiará as políticas redistributivas da esquerda, ignorando que a competição política cria incentivos para todos os atores envolvidos promoverem políticas semelhantes (vide o teorema do eleitor mediano).

Nesse debate, há muita falácia ecológica: inferem-se atributos de eleitores a partir de atributos da região.

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Aqui não estamos sós: nos EUA é frequente a incompreensão sobre o fato de que indivíduos de mais baixa renda votam nos democratas, mas os republicanos ganham nos estados mais pobres do sul. E vice-versa.

Trata-se de um jogo em dois níveis: estadual e federal, em que o governador é ator central. O caso do Maranhão é exemplar: em 2016, quando o PC do B elegeu 46 prefeitos —um aumento de 920% em relação à 2012, época em que o partido controlava cinco prefeituras—, a esquerda festejou a transformação, em apenas quatro anos, do Maranhão na maior concentração já vista de prefeitos comunistas em democracias. Mas isso foi um claro subproduto da conquista pelo partido do governo do estado em 2014; era uma manifestação extremada de "qualunquismo" —combinação de governismo resultante da impotência somado à uma certa indiferença e cinismo cívico.

O eleitor —do Maranhão ou do Paraná— maximiza a mesma função de bem-estar. O que muda regionalmente é a centralidade do governo estadual na política. Nos estados pobres, o/a governador/a controla a máquina que alimenta as redes políticas locais e depende mais do governo central.

Para o eleitor pobre, a estratégia dominante é votar nos candidatos dessas redes --por suas conexões federais e também pelo receio de ser excluído dos benefícios gerados por elas. O eleitor será o árbitro de trade offs entre ganhos "federais" e "locais". O mapa do voto reflete incentivos múltiplos e não se reduz a identidades partidárias ou ideológicas.

O bloco de governadores oposicionistas no Nordeste reflete a hegemonia do PT no plano federal por 14 anos. Esse equilíbrio político foi alterado pela eleição inesperada de Bolsonaro, o que engendrou a inusitada geografia do voto atual.

Marcus André Melo

Professor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-professor visitante do MIT e da Universidade Yale (EUA).