segunda-feira, 24 de agosto de 2020

'Fazer o quê? Separar não posso, porque ia escandalizar o nome de Deus', escreveu Flordelis, OESP

 Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2020 | 12h18

RIO - Apontada pela Polícia Civil e pelo Ministério Público do Rio (MPRJ) como mandante do assassinato do marido, o pastor Anderson do Carmo, a deputada federal Flordelis (PSD-RJ) teria arquitetado o crime por estar insatisfeita com a forma com que o pastor geria o dinheiro da família. Segundo os investigadores, ela tentou assassinar o pastor pelo menos seis vezes por envenenamento, além de contratar pistoleiros em outras duas oportunidades.

Durante o inquérito, a polícia e o MPRJ se depararam com uma troca de mensagens em que Flordelis sugere que o assassinato do marido seria a única saída. "Quando ela convence e fala com um outro filho que está aqui denunciado, o André, sobre esse plano de matar Anderson, ela fala da seguinte maneira: 'Fazer o quê? Separar dele não posso, porque senão ia escandalizar o nome de Deus', e então resolve matar. Ou seja, nessa lógica torta, o assassinato escandalizaria menos", contou o promotor Sergio Lopes Pereira, em entrevista concedida na manhã desta segunda-feira, 24.

Flordelis
A deputada federal Flordelis (PSD-RJ) durante coletiva à imprensa sobre o assassinato do seu marido, Anderson do Carmo Foto: WILTON JUNIOR / ESTADÃO

"O grupo que se formou vendeu a imagem de um casal perfeito, de uma família caridosa, que criou 55 filhos, quando na verdade os autos mostram que isso foi um golpe, um meio de se conseguir proteção", afirmou o promotor. "Começou em maio de 2018 com tentativa de envenenamento do pastor Anderson. Era feito de forma sucessiva, gradual, cumulativa, para conduzir a morte do pastor. (Era usado) veneno, mais notadamente o arsênico, que era posto na comida e na bebida do pastor de forma dissimulada."

Responsável pelo inquérito, o delegado Allan Duarte, titular da Divisão de Homicídios de Niterói, Itaboraí e São Gonçalo, disse que a imagem de família unida era apenas uma fachada. "Não se tratava de uma simples família, mas de uma organização criminosa intrafamiliar", afirmou. "O inquérito traz a desconstrução dessa imagem de decência (da deputada), de pessoa caridosa. Ela vendia esse enredo para conseguir chegar à Camara dos Deputados, e depois tratar essa pessoa (Anderson) como objeto descartável."

Segundo Duarte, a motivação do crime foi financeira.  "O pastor era o gestor dessa família, a cabeça pensante. Era ele quem geria a carreira artística, religiosa e política da deputada", informou o delegado. Haveria ainda um racha entre os filhos biológicos e os adotivos - que não recebiam o mesmo tratamento.

"Ela, além de arquitetar todo esse plano criminoso, financiou a compra da arma, convenceu pessoas a praticar esse crime, ela avisou sobre a chegada da vítima ao local, e ela ocultou provas", destacou Allan Duarte. "Pra gente fica muito claro, não resta a menor dúvida, de que ela foi a autora intelectual, a grande cabeça desse crime."

Sem prisão

Por exercer mandato parlamentar, Flordelis não pode ser presa neste momento. Apesar disso, ela já é ré no processo e será julgada em primeira instância junto aos demais acusados pela 3ª Vara Criminal de Niterói.

Sem poder pedir a prisão da deputada, a Polícia Civil e o MPRJ pediram à Justiça outras medidas cautelares, que já foram aceitas. Ela está impedida de ter contato com testemunhas do caso, não poderá se locomover fora da cidade em que reside ou em Brasília, terá o passaporte recolhido e também não poderá mudar de residência.

Durante as investigações do assassinato do pastor Anderson do Carmo, a polícia também se deparou com indícios de crime de rachadinha no gabinete de Flordelis. "A Rayane (dos Santos Oliveira, neta de Flordelis e presa na manhã desta segunda por envolvimento no assassinato), quando foi pra Brasília, foi com a promessa de ganhar R$ 15 mil por mês como assessora parlamentar, mas a gente tem documentação nos autos que mostram que estaria recebendo R$ 2,5 mil", contou o delegado, citando ainda a ocorrência de "nepotismo direto e cruzado".

Defesa da deputada

O advogado de Flordelis, Anderson Rollemberg, reafirmou nesta segunda-feira que sua cliente é inocente. Ele esteve na Delegacia de Homicídios de Niterói e disse que a deputada está “abatida e bastante chateada” “Queremos saber quais são as provas para que essas prisões tenham ocorrido e quais são os fundamentos para o indiciamento da deputada, já que a primeira fase dessa investigação passou longe de ter alguma prova que ela fosse a mandante. Essa investigação é contraditória, espetaculosa e está sendo usada como inquisição”, acusou Rollemberg. 

O advogado seguiu criticando a atividade da Polícia Civil: “Essa investigação está equivocada. A deputada não pode ser responsabilizada por um ato de terceiro, seja filho ou neto. Assim como na (Operação) Lava Jato, eles estão pegando várias pessoas para que ambas se acusem. Volto a dizer: a deputada está chateada, e eu garanto que ela não tem envolvimento com a morte do pastor. A deputada tem com ela a inocência, e tudo isso será esclarecido. Ela é inocente e jamais mandaria (matar o marido). Ela não tinha ingerência no dinheiro e desprovinha de interesses financeiros”, afirmou Rollemberg.


A caneta Bic de cada um, Adriana Fernandes*, O Estado de S.Paulo

 

 


22 de agosto de 2020 | 04h00

O presidente Jair Bolsonaro costuma dizer que assina os documentos da Presidência com uma caneta Bic. Foi assim no termo da sua posse no cargo em janeiro de 2019 e segue nos dias atuais. 

A pandemia da covid-19 encheu de tinta a caneta presidencial com bilhões de reais para gastos. São valores tão altos que muito provavelmente Bolsonaro não teria condições de assinar até o final de um eventual segundo mandato, caso consiga a sua reeleição para qual já está trabalhado desde agora.

Passados 20 meses de governo e cada vez mais confortável com a sua Bic, o presidente parece estar caindo na tentação que acomete muitas autoridades que desembarcam em Brasil. A de que a sua caneta pode tudo. 

Não pode.

Quando essa visão chega à esfera orçamentária e o bom senso vai embora, o perigo ronda e acende os sinais de alerta da burocracia estatal. 

Bolsonaro
Com certeza é de se imaginar que outras canetas Bic estão dando alertas ao presidente. Foto: Alan Santos e Valdenio Vieira

O exemplo mais recente tem sido a discussão enviesada que tomou conta do Orçamento de 2021 na Junta de Execução Orçamentária, que define as diretrizes para a destinação e depois execução das despesas aprovadas pela lei orçamentária.

Primeiro foi a tentação de usar recursos via o orçamento de guerra da pandemia da covid-19 para bancar investimentos em obras de infraestrutura e outras tentativas para poder liberar mais dinheiro até o final do ano, quando as regras fiscais estão suspensas por conta do coronavírus. 

Agora, o que se vê é a estratégia de reforçar a todo custo o orçamento do Ministério da Defesa em detrimento de outros gastos em áreas mais importantes, como saúde e educação. 

Se não bastassem os gastos com a reformulação das carreiras militares, o presidente determinou um aporte ainda maior do já turbinado orçamento da Defesa. Como? Adiando o censo de 2020 previsto para 2022. 

São cerca de R$ 2 bilhões a mais a custo sem precedentes para o trabalho de pesquisa do IBGE, o planejamento das políticas publicas e a transferências de recursos para Estados e municípios. A contagem populacional é determinante para a repartição. É bom lembrar que o censo, previsto para esse ano, já tinha sido adiado para 2021. 

O risco de um novo adiamento, sem uma justificativa plausível, certamente pode levar a uma judicialização dos municípios que se sentirem prejudicados.

Como explicou o presidente do IBGE, distribuição do FPM (Fundo de Participação dos Municípios) está congelada esperando o censo de 2020. “Isso é muito grave porque o censo de 2022 só vai ter resultado em 2023. Vai ter 13 anos sem nenhuma informação demográfica ”, disse o ex-presidente do IBGE, Roberto Olinto, ainda incrédulo com tamanha audácia do governo de fazer essa proposta, revelada em reportagem do Estadão dessa semana.

O que chamou atenção na decisão de ampliar em R$ 2,27 bilhões o orçamento para a área militar foi o comunicado da ampliação do Orçamento para os militares foi feito pelo secretário de Orçamento do Ministério da Economia, George Soares, em ofícios nos quais afirma que os pedidos foram feitos por Bolsonaro.

Quem conhece a burocracia de Brasília sabe que esse foi um ato de cautela e cuidado com assinatura da sua caneta Bic. Depois dos inúmeros processos abertos pelo Tribunal de Contas da União (TCU) no rastro das manobras contábeis da ex-presidente, conhecidas como pedaladas fiscais, que atingiram servidores da elite do funcionalismo, ficaram muitas sequelas. 

As carreiras que compõem o Ministério da Economia, diferentemente da maioria de outras carreiras existem há muito tempo com servidores que foram recrutados em concursos muito difíceis, com os da ReceitaTesouro e Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional. 

Um técnico experiente, por exemplo, não foi condenando por que tinha registrado nos seus e-mails todas as advertências feitas ao seu superior, o ex-secretário do Tesouro, Arno Augustin. Na época, os técnicos se rebelaram numa reunião, como está relatado no livro “Perigosas Pedaladas” do jornalista João Villaverde. Muitos desses processos ainda estão em andamento. Um deles com resultado recente, cinco anos depois das pedaladas.

Com certeza é de se imaginar que outras canetas Bic estão dando alertas ao presidente.

*É JORNALISTA 

Uma SP como se não houvesse coronavírus, OESP

 O mecânico aposentado entra na padaria, pergunta se já é possível usar o balcão e pede um pão com manteiga na chapa. O homem tira a máscara com cuidado, mas não sabe o que fazer com ela. Ameaça deixar em cima do balcão. Pensa mais um pouco e, na dúvida, apenas puxa sua proteção para debaixo do queixo. “Nessa quarentena, o que eu mais senti falta foi poder fazer isso todas as manhãs”, disse Jorge dos Santos, de 68 anos, antes do pãozinho aterrissar na frente dele.

Por trás da refeição matinal de Santos, estão o desejo de normalidade e a vontade de retomar uma rotina pré-covid. Ele não burlou nenhum protocolo, não fez nada de errado, mas esse tipo impulso (necessidade, em alguns casos) confunde a paisagem e provoca a sensação que a pandemia chegou ao fim. Quem sai para uma volta na cidade de São Paulo pode cair na armadilha de que tudo já passou e que o coronavírus não é mais uma ameaça à saúde pública.

Embaixo do viaduto do Glicério, na zona sul da cidade, amigos ocupam uma quadra poliesportiva e disputam uma partida de futebol – como se estivessem protegidos pelo protocolo da Fifa. Na quadra, ninguém de máscara, muitos estão sem camisa e na hora do gol tem vibração e abraçaço. Sem entrevistas depois da pelada, um dos atletas apenas pergunta em tom de reclamação: “A gente não tem direito de se divertir?”. Os jogos de futebol são considerados de alto risco de contágio pelos órgãos de saúde.

No parque do Ibirapuera, a necessidade de diversão, lazer ou de uma “respirada” fez ressurgir pequenos piqueniques entre familiares e amigos. Na grama, com evidente preocupação de manter certo distanciamento dos demais frequentadores, a família Fontes tenta relaxar. “Em um lugar aberto, nos sentimos mais seguros. Acho que poder ficar em um parque nos ajuda a controlar a ansiedade”, disse Aline Fontes, 33 anos, que estava com o marido (Danilo) e os gêmeos (Evelin e Luan).

Praça Roosevelt
Sem máscara e menos preocupados com distanciamento, jovens andam de skate na Praça Roosevelt  Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Menos preocupados com distanciamento, estão os skatistas que frequentam a Praça Roosevelt, outro marco da cidade. O desejo de diversão é o mesmo, mas os cuidados são menores. Uma cena típica do lugar: garotos dividindo garrafinhas de água depois das suas manobras radicais. Todos tomando no bico.

Quem sai de bike (as ciclofaixas retornaram recentemente) também vai perceber o quanto é difícil os ciclistas conseguirem manter certo distanciamento entre eles. Além disso, muitos abdicam das máscaras durante as pedaladas. “Para mim é impossível pedalar de máscara”, comenta o técnico em informática, Luiz Tavares Junior, 33 anos.

Coronavírus
No queixo. Uso incorreto da máscara é cena típica da cidade  Foto: DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

O movimento nos salões de beleza e barbearias parece querer voltar a uma certa normalidade. A vontade de “ajeitar o cabelo” ou “caprichar na barba” já fala mais alto do que o medo de pegar covid-19. O Estadão passou por diversos salões, todos com clientes e, aparentemente, cumprindo os protocolos de funcionamento.

“O ser humano é vaidoso. E não tem problema. Se você se sente seguro, não está errado em cortar um cabelo, fazer uma unha. Afinal, já foi liberado”, comenta uma advogada que, na cadeira do cabeleireiro, pediu para não ser identificada.

No centro da cidade, o desastre social atropela os cuidados com a saúde. O número de moradores em situação de rua parece crescer. E nesse universo de fome, desemprego e descaso não existe máscara, álcool em gel ou distanciamento social nas ruas.

Nas ruas de comércio, os homens-sanduíche estão de volta, o aposentado da plaquinha “compro ouro” também está lá – assim como toda sorte e diversidade de ambulantes.

Artistas de rua e pastores também provocam pequenas aglomerações. Nas lotéricas do centro, filas para uma fezinha. Máscaras no queixo e gente concentrada em escolher os seis números na Mega. A necessidade de sobrevivência parece tentar achatar a curva da covid-19 na marra.

Claro, o lado mais evidente dessa cidade em que a pandemia parece ter acabado são o happy hour e a vida noturna. Com a flexibilização, os clientes começam a voltar aos cafés e às mesas de bares. “Poder tomar um café com um amigo, falar do trabalho, falar bobagem. Isso é vida. Tomando todos os cuidados, é possível fazer isso”, comentou o empresário Carlos Júlio Leonel, 48 anos.

A vontade de sociabilização é natural, mas, às vezes, transborda. Em pontos com muitos bares, como a Vila Madalena, o maior problema é do lado de fora dos bares. Muitos jovens com garrafinhas de cerveja long neck, rodinhas de amigos, abraços e beijos. Em tardes ou noites de futebol, a situação é ainda menos controlada. A cada gol, o distanciamento social e os cuidados desaparecem. É mais um 7 x 1.

De volta ao trânsito

Coronavírus
Transporte público. Pontos de ônibus têm aglomeração Foto: DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

Mas nem só lazer e “respiração” fazem a cidade se fantasiar de normalidade. O trabalho também nos empurra de volta à rotina. Ao pegar a Avenida Radial Leste, principalmente depois das 17h, o trânsito já é parecido com aquele encontrado antes do vírus. A mesma situação pode ser flagrada nas principais vias de São Paulo. Nos pontos de ônibus ou nas estações de Metrô, o conceito de home office parece distante, quase uma piada.

A regra é que todos usem máscaras no transporte público – e ela parece estar sendo seguida pela maioria da população. Mas não é difícil se deparar com a situação de pessoas que tiram a máscara tão logo descem do ônibus ou deixam uma estação de metrô. A desculpa é a famosa “respiradinha” ou a vontade de “um cigarrinho” depois do expediente.