sexta-feira, 17 de abril de 2020

Ruy Castro Um a menos, FSP

A imprensa decretou que Rodrigues Alves morreu da Espanhola. A história diz que não

  • 10
Graças ao coronavírus, Rodrigues Alves, presidente da República eleito em 1918 e impedido de tomar posse por doença que o levou à morte, não sai do noticiário. Todos os dias, em jornal, rádio, TV, onlines e podcasts, alguém o faz morrer da Gripe Espanhola, a pandemia que tomou o mundo em fins daquele ano. A própria Wikipédia, fonte a que recorrem os que escrevem antes de pensar, é categórica: “Rodrigues Alves contraiu a Gripe Espanhola e não tomou posse, sendo substituído pelo vice-presidente eleito Delfim Moreira”. E estamos conversados.
Mas, para alguns historiadores, não estamos conversados. Um deles, Heloisa Starling, da UFMG: “Em 24 de outubro de 1917, Rodrigues Alves foi diagnosticado com anemia. Em 3 de novembro, seu filho Paulo, que era médico, opinou que, por questão de saúde, seu pai não deveria concorrer à Presidência. Três semanas depois, um deputado de São Paulo arriscou que, eleito, Rodrigues Alves talvez não fosse empossado. Foi o que aconteceu. Eleito em 15 de março de 1918, não pôde tomar posse em 15 de novembro e morreu em 16 de janeiro de 1919”.
Donde Rodrigues Alves esteve doente por 15 meses, com fadiga, falta de ar, palidez e confusão, sintomas de leucemia. A Espanhola, que durou dois meses, outubro e novembro de 1918, matava em quatro dias. Em janeiro, quando ele morreu, ela já passara. Se fosse caso de Espanhola, sua família teria sido infectada, já que morava com a mulher e os filhos, e eles não a pegaram. O próprio Delfim Moreira, que o visitava diariamente, também não a contraiu.
Para completar, Rodrigues Alves foi tratado por três médicos de peso: Miguel Couto, Matias Valadão e Raul Leitão da Cunha, que assinou o atestado de óbito: “Assistolia aguda no decurso de uma anemia”. Ninguém falou de Espanhola.
A peste matou 15 mil pessoas no Rio em um mês. Mas Rodrigues Alves não foi uma delas.

Bolsonaro quer um ministro que dê verniz técnico a suas vontades, FSP

Presidente fingiu equilíbrio, mas logo provou que não vai abandonar convicções

  • 22
Há duas semanas, Nelson Teich afirmava que a conduta das autoridades de saúde no combate ao coronavírus era perfeita. O oncologista escreveu um artigo em que defendeu medidas de isolamento adotadas nos estados e atestou: “É a melhor estratégia no momento”.
O país ainda não chegou ao ponto mais crítico da pandemia, mas o doutor já mudou o tom. Depois de se encontrar com Jair Bolsonaro, ele evitou repetir a avaliação. “Chegar agora e dar uma opinião seria algo quase irresponsável”, disse, em entrevista ao SBT —enquanto o novo chefe o observava da poltrona ao lado.
O presidente Jair Bolsonaro e o novo ministro da saúde, Nelson Teich, no Palácio do planalto - Pedro Ladeira/Folhapress
Depois de 11 dias de ameaças, Bolsonaro finalmente decidiu pagar o preço da demissão Henrique Mandetta. Livrou-se de um subordinado que o contrariava publicamente e escolheu um substituto com perfil técnico, mas aparentemente disposto a se adaptar a seus comandos.
O novo ministro estreou com um idioma mais parecido com o do presidente. Disse que não mudará a orientação de isolamento de forma brusca, mas indicou que essa será uma de suas missões. Alinhou-se ao discurso de Bolsonaro a favor da proteção da economia, embora já tenha indicado que a preservação de vidas deveria ser prioridade absoluta.
“Qualquer escolha e ação, seja ela da saúde, econômica ou social, tem que ter na mortalidade o seu desfecho final, por mais difícil que seja chegar a esses números”, escreveu o oncologista, no início de abril.
Ao anunciar o nome de Teich, o presidente tentou demonstrar equilíbrio, mas logo provou que não vai abandonar suas convicções. Em transmissão nas redes, ele insistiu que a política de saúde deve mudar e voltou a criticar o isolamento. “Tem que começar a abrir o comércio e voltar à normalidade”, repetiu.
O presidente não cometeu a insanidade de nomear um negacionista do coronavírus ou um vendedor de cloroquina, mas deixou claro o que espera da pasta. Bolsonaro quer um ministro que dê verniz técnico a suas vontades. Não se sabe se Teich vai cumprir esse papel.
Bruno Boghossian
Jornalista, foi repórter da Sucursal de Brasília. É mestre em ciência política pela Universidade Columbia (EUA).

Hélio Schwartsman Bolsonaro, a ciência e a ética, FSP

Nossas decisões são inapelavelmente determinadas pela ética ou pela falta dela

  • 11
Hoje eu vou dar uma de filósofo chato e preciosista. Tornou-se um lugar-comum afirmar que Bolsonaro age contra a ciência e que suas atitudes diante da pandemia de Covid -19 são absurdas. Concordo que são absurdas, mas receio que não seja tão simples carimbá-las como anticientíficas.
Não me entendam mal, sou fã da ciência. É a ela que devemos quase todos os desenvolvimentos que tornaram a existência humana menos miserável nos últimos séculos. Mas, se quisermos usar os conceitos com algum rigor, a ciência nunca nos diz como devemos atuar.
Quem chamou a atenção para o problema foi David Hume (1711-1776). Para o filósofo, existe uma diferença lógica fundamental entre proposições descritivas, que são as que a ciência nos dá, e proposições prescritivas ou normativas, que são as que se traduzem em decisões de como agir. Nós nunca podemos extrair as segundas diretamente das primeiras. Esse passo necessariamente envolve valores, que não são do domínio da ciência, mas da ética.
O filósofo David Hume (1711-1776) - Reprodução
Isso significa que a ciência só vai até certo ponto. Ela nos esclarece sobre o comportamento de vírus novos em populações suscetíveis, alerta para a força avassaladora da curva exponencial e vai nos municiando com os parâmetros epidemiológicos do Sars-Cov-2, sobre os quais ainda paira muita incerteza. O que fazemos com essas informações, porém, já não é da alçada da ciência.
Muitas vezes, os cenários traçados pelos especialistas são tão desequilibrados que não deixam margem a dúvida. A escolha sobre o que fazer se torna simples aplicação do bom senso. É o caso da adoção do isolamento social nesta primeira fase da epidemia. Em outras tantas, porém, sobrepõem-se camadas adicionais de complexidade, que precisamos sopesar à luz de valores.
O ponto central é que nossas decisões devem ser informadas pela ciência, mas são inapelavelmente determinadas pela ética —​ou pela falta dela.