sexta-feira, 1 de março de 2013

Os papéis da Petrobras



Um assunto constantemente debatido é o nível aceitável de influência do Estado na administração de empresas estatais, em especial na Petrobras. As opiniões variam de um polo ao outro, exemplos dos mais distintos são apresentados na defesa ou no ataque às decisões tomadas e comparações são feitas ao desempenho de companhias privadas atuando no mesmo setor.
No entanto, uma análise histórica das mudanças que influenciaram os rumos da companhia pode nos ajudar a contextualizar e entender o real papel que a socieda-
de lhe destinou.
A primeira descoberta de petróleo no Brasil só ocorreu em 1939, na Bahia. A ela se seguiram anos mais tarde movimentos da sociedade na luta pelo monopólio do Estado para exploração e produção de petróleo, ocorridos em meados do século passado, que culminaram com a criação da Petrobras.
Na realidade, a luta pelo monopólio no Brasil ocorreu simultaneamente a um processo mundial de nacionalização de companhias petrolíferas detentoras de grandes reservas. O Brasil ainda tinha poucas reservas, mas os ventos que sopraram lá fora também sopraram por aqui. E, por muitos anos, sequer pensar em ter qualquer outra companhia explorando no Brasil era quase um sacrilégio.
Em 1988, quando da discussão da nova Constituição Brasileira, o monopólio estatal do petróleo foi confirmado através de uma votação das mais expressivas e os nossos representantes no Congresso Nacional mantiveram ainda a Petrobras como a única empresa autorizada a operá-lo em nome da União.
No entanto, apenas um ano mais tarde, após a queda do Muro de Berlim e todas as transformações ocorridas no cenário mundial, surgiram as discussões sobre a redução do papel do Estado na economia e a abertura do setor para o investimento privado.
Em 1995, foi aprovada uma emenda constitucional retirando da Petrobras o monopólio de exploração e produção, algo que foi regulamentado com a Lei do Petróleo, em 1997. O país vivia uma onda de privatizações, mas por ter sido o setor do petróleo considerado estratégico, ficou estabelecido que era do interesse nacional permanecer com a Petrobras como companhia operadora, controlada pela União, e atuando em regime de concorrência com as demais empresas do setor.
É difícil imaginar que, sendo o setor do petróleo tão importante para o desenvolvimento do país e tendo o governo o controle sobre essa importante máquina, o poder dele advindo não seja utilizado para alcançar aquilo que na sua visão seja o melhor para o país.
Por exemplo, a situação de derivados de petróleo sendo vendidos no mercado a preços inferiores ou até mesmo superiores aos praticados no exterior, obviamente expurgando-se os efeitos dos impostos, é algo que ocorreu por diversas vezes na história da companhia, tanto antes como após a quebra do monopólio.
Isso certamente contraria o que seria de se esperar de uma empresa privada, mas foi esse o caminho que a nossa sociedade escolheu.
É importante ressaltar que os efeitos do controle estatal não são apenas negativos. Após a crise econômica de 2008, as companhias viveram dias muito difíceis em todo o mundo em função do enxugamento do crédito e poucos se lembram que a Petrobras teve acesso a dezenas de bilhões de reais em empréstimos do BNDES e de outros bancos estatais, algo que suas competidoras internacionais não tiveram de bancos e governos de seus países.
Além disso, poder contar com os mais importantes ministros do país no seu conselho de administração e tê-los uma vez por mês nas suas instalações como ouvintes atentos das explanações feitas sob o ponto de vista da companhia é certamente um privilégio.
Mas o mercado de capitais premia a ortodoxia administrativa, desdenha de justificativas estratégicas e pune qualquer decisão que não tenha lógica financeira.
A convivência com empresas estatais tende mesmo a ser conturbada e o valor de mercado delas acaba sempre recebendo um desconto em função disso.
Ponderar objetivos de política pública e de desenvolvimento empresarial é mesmo um mandato complexo.
Rodolfo Landim
Rodolfo Landim, 55, engenheiro civil e de petróleo, é presidente da Ouro Preto Óleo e Gás e sócio-diretor da Mare Investimentos. Trabalhou na Petrobras, onde, entre outras funções, foi diretor-gerente de exploração e produção e presidente da Petrobras Distribuidora. Escreve, às sextas-feiras, a cada duas semanas, em 'Mercado'

Encontros de camundongos


Fernando Reinach - O Estado de S.Paulo
É comum sentirmos prazer ao retornarmos a um local onde vivemos uma boa experiência. Uma cidade associada a uma paixão ou um restaurante onde começou um romance. Muitas vezes a memória desses lugares é tão forte que temos medo de retornar e nos decepcionarmos, mas é comum voltarmos buscando o prazer sentido no passado. Agora foi demonstrado que os camundongos fazem o mesmo: memorizam os locais onde sentiram prazer e retornam com frequência, buscando renovar a sensação. Mas, se no caso dos humanos são estímulos visuais que identificam o local, no dos camundongos é o cheiro de algumas gotas de urina.

Existem inúmeros exemplos de animais que utilizam marcas olfativas para demarcar território, identificar indivíduos e estabelecer quem manda em quem. Cachorros machos depositam urina em superfícies verticais, demarcando território. Cadelas no cio atraem machos exalando perfumes enlouquecedores. Enquanto os humanos usam estímulos visuais para memorizar a localização espacial de objetos, outros mamíferos utilizam estímulos olfativos para chegar ao local desejado. Cachorros podem usar o olfato para identificar o local por onde passou a raposa e segui-la. 

Até recentemente, acreditava-se que os animais detectavam moléculas voláteis para construir um "mapa olfativo" da região em que viviam. Mas, se esse fosse o único mecanismo, o "mapa" seria constantemente alterado pelo vento e outros fatores que removem moléculas voláteis. Agora, cientistas descobriram que camundongos usam o cheiro de moléculas não voláteis, depositadas em locais determinados, para memorizar locais importantes, como aquele por onde passa seu parceiro sexual preferido.

O experimento é simples. Em um espaço previamente desconhecido, foram colocadas duas placas de petri (parecem pires feitos de vidro). Sem colocar nada nas placas, foi estudado quanto tempo fêmeas de camundongo ficavam em cada uma delas. Como era de se esperar, passaram o mesmo período de tempo em cada uma. Em seguida, foi colocada uma gota de urina de um camundongo macho em uma das placas e as fêmeas foram colocadas no ambiente por 10 minutos. Atraídas pelo cheiro do macho, elas ficaram três vezes mais tempo perto da placa que continha a urina. 

Essas fêmeas foram então recolocadas em suas gaiolas. O local foi limpo, as placas, retiradas e substituídas por outras sem urina. Um dia depois, as fêmeas foram postas novamente no local. Mesmo sem o estímulo do cheiro, elas voltaram ao local onde, no dia anterior, estava a urina do macho, indicando que haviam memorizado o local.

Em um segundo experimento, os cientistas descobriram que, se utilizassem urina de fêmeas, as fêmeas não mostravam preferência pelo local nem o memorizavam. Aumentando o tempo entre a exposição das fêmeas à urina do macho e o momento em que elas eram trazidas de volta ao local, descobriu-se que a memória persiste por até 14 dias.

Quando os cientistas investigaram qual dos componentes da urina dos machos respondia pela memorização espacial nas fêmeas, descobriram que é o feromônio r-darcin, que não é volátil e portanto não se espalha pelo ar. Esses resultados demonstram que, ao visitar inicialmente um ambiente desconhecido, as fêmeas descobrem os locais onde os machos passaram (urinaram no local, depositando o feromônio) e memorizam sua localização. Quando voltam nos próximos 14 dias, mesmo na ausência de qualquer cheiro elas retornam ao local.

Organização social. Os cientistas creem que esse mecanismo de mapeamento espacial é importante para a organização social dos camundongos. Funcionaria assim: um macho passa por um local e deixa seu cheiro. As fêmeas memorizam o local e voltam lá na esperança de encontrar o macho. Se o macho não voltar nos próximos 14 dias, elas abandonam o local, concluindo que ele é pouco propício a encontros amorosos. Esse mecanismo de "marcar encontros" facilita o acasalamento.

Esse mecanismo não é muito diferente do usado por humanos. Membros da nossa espécie voltam frequentemente a locais onde podem encontrar parceiros sexuais, mas nesse caso a placa de petri se chama bar ou balada e memorizamos o local por informações visuais e não olfativas.

Mas o ato de memorizar locais propícios ao acasalamento tem a mesma função: permite que parceiros disponíveis sejam facilmente encontrados, mesmo em uma cidade enorme como São Paulo. E, se a memória for agradável, o retorno é garantido. 

* Fernando Reinach é biólogo.
MAIS INFORMAÇÕES: PHEROMONAL INDUCTION OF SPACIAL LEARNING IN MICE. SCIENCE,  VOL. 338,  PÁG. 1.462,  2012.

PIB tem crescimento fraco de 0,9% e soma R$ 4,4 tri em 2012


01/03/2013 - 09h02


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PEDRO SOARES
DO RIO
Nem as medidas de estímulo do governo à economia como as desonerações bilionárias de tributos livraram o país de registrar um crescimento econômico de apenas 0,9% em 2012 --inferior aos 2,7% de 2011 e o menor desde 2009 (quando houve queda de 0,3%).
Em valores, o PIB (Produto Interno Bruto, a soma das riquezas produzidas no país) somou R$ 4,4 trilhões no ano passado.
No último trimestre do ano, a economia esboçou, porém, uma reação e avançou 0,6% em relação ao terceiro trimestre, acima da taxa de 0,4% do período de junho a setembro na comparação com ajuste sazonal (livre dos efeitos típicos de cada período). Em relação ao mesmo período de 2011, o PIB subiu 1,4%, segundo dados divulgados pelo IBGE nesta sexta-feira.
Sob impacto da crise externa e da menor confiança de empresários diante de um cenário de incertezas, a indústria foi castigada. Seu PIB caiu 0,8% em 2012. Houve crescimento de 0,4% do terceiro para o quarto trimestre. Já em relação ao mesmo período de 2011, a taxa foi positiva em 0,1%.
Tal cenário rebateu, do lado da demanda, os investimentos, medidos pela chamada formação bruta de capital fixo (investimentos em construção civil, máquinas e equipamentos e louvaras e matrizes de rebanhos). O tombo foi de 4% no ano e de 4,5% na comparação com o mesmo período de 2011. Do terceiro para o quarto trimestre, houve alta de 0,5%.
Paulo Whitaker - 6.fev.13/Reuters
Motorista em caminhão com soja em Primavera do Leste (MT); PIB da agropecuária caiu 2,3% em 2012
Motorista em caminhão com soja em Primavera do Leste (MT); PIB da agropecuária caiu 2,3% em 2012
SERVIÇOS, CONSUMO E AGROPECUÁRIA
Sustentado pelo consumo doméstico, o setor de serviços, o de maior peso na economia, salvou o país de um resultado negativo para o PIB em 2012. Seu crescimento foi de 1,7% em 2012 e de 2,2% no quarto trimestre, quando comparado com igual período de 2011. Em relação ao terceiro trimestre, houve alta de 1,1%.
Graças à renda em expansão e o mercado de trabalho praticamente imune à crise (a taxa de desemprego foi a menor desde 2003, início da série do IBGE), o consumo das famílias cresceu 3,1% em 2012. A alta ficou em 1,2% do terceiro para o quarto trimestre. Na comparação com igual período de 2011, houve avanço de 1,2%.
Ainda pelo lado da demanda, o consumo do governo também ajudou a impulsionar a economia, num ano em que a União ampliou gastos e serviços. Em 2012, a expansão foi de 3,2%. Do terceiro para o quarto trimestre, 0,8%. Em relação ao último trimestre de 2011, o avanço foi de 3,1%.
Já a agropecuária caiu 2,3% em 2012. A queda do setor, de menor peso no PIB, foi de 7,5% na comparação com o mesmo período de 2011. Em relação ao terceiro trimestre, o recuo ficou em 5,2%.
SETOR EXTERNO
Diante da crise global que atingiu mais a Europa, grande parceiro comercial do Brasil, as exportações cresceram apenas 0,5%, numa taxa inferior à do PIB.
Já as importações (que contribuem negativamente para o PIB, pois retraram uma produção de bens e serviços realizada em outros países) também tiveram crescimento modesto: 0,2%.
Do terceiro para o quarto trimestre, houve expansão mais acelerada tanto de importações (8,1%) como de exportações (4,5%), num sinal de retomada da atividade econômica.
PER CAPITA
O PIB per capita (resultado da divisão do PIB pela população do país) cresceu apenas 0,1% no ano passado. "Em 2012, o crescimento populacional foi maior do que o crescimento do PIB", disse o coordenador de Contas Nacionais do IBGE, Roberto Olinto.
Em 2011, o PIB per capita havia crescido 1,8% enquanto a economia teve expansão de 2,7%. No anterior, as taxas haviam sido 6,5%, no PIB per capita, e 7,5%, no PIB.
PROJEÇÕES
O resultado ficou abaixo do estimado pelo Banco Central. Seu indicador IBC-BR, usado para mensurar mensalmente o desempenho da economia, apontava uma alta de 1,6% do PIB no ano passado.
Consultorias, porém, mostravam-se menos otimistas e sinalizavam para uma taxa ao redor de 1%.
Daniel Marenco - 04.ago.12/Folhapress
Produção de caminhões em Resende (RJ); indústria patinou em 2012 e afetou crescimento do PIB
Produção de caminhões em Resende (RJ); indústria patinou em 2012 e afetou crescimento do PIB
ENTENDA O PIB
O PIB (Produto Interno Bruto) é um dos principais indicadores de uma economia. Ele revela o valor de toda a riqueza gerada no país.
O cálculo do PIB, no entanto, não é tão simples. Imagine que o IBGE queira calcular a riqueza gerada por um artesão. Ele cobra, por uma escultura, de madeira, R$ 30. No entanto, não é esta a contribuição dele para o PIB.
Para fazer a escultura, ele usou madeira e tinta. Não é o artesão, no entanto, que produz esses produtos --ele teve que adquiri-los da indústria. O preço de R$ 30 traz embutido os custos para adquirir as matérias-primas para seu trabalho.
Assim, se a madeira e a tinta custaram R$ 20, a contribuição do artesão para o PIB foi de R$ 10, não de R$ 30. Os R$ 10 foram a riqueza gerada por ele ao transformar um pedaço de madeira e um pouco de tinta em uma escultura.