segunda-feira, 28 de setembro de 2026

A conta do lixo não pode chegar para quem tem menos - FSP

 William Mendes

Professor do MBA em ESG, Inovação e Sustentabilidade da Trevisan Escola de Negócios

Quem produz uma embalagem? A indústria. Quem vende? O comércio. Quem compra? O consumidor. Mas quem costuma ficar com a conta quando essa embalagem vira resíduo? Em boa parte das nossas cidades, a resposta é conhecida: o poder público, o meio ambiente e, principalmente, as populações mais vulneráveis. Não se trata apenas de um problema de lixo, mas de justiça ambiental.

O PL Recicla visa alterar a Lei Municipal 17.471/2020 sobre logística reversa em São Paulo. O projeto parte justamente da necessidade de melhorar a rastreabilidade das embalagens e a qualidade das informações sobre os materiais colocados no mercado.

A imagem mostra um grande montante de lixo acumulado em um terreno, com uma árvore à esquerda onde estão empoleirados vários urubus. Na árvore, há uma boneca vestida com uma camiseta vermelha pendurada. O céu está claro e azul, e a vegetação ao fundo é verde, contrastando com o lixo no primeiro plano.
Lixão de Barreirinhas (MA), para onde vai todo o lixo produzido no município - Gabriel Justo/Folhapress

A proposta traz para o centro do debate uma questão que deveria ser básica em qualquer estratégia moderna de sustentabilidade: não é possível administrar aquilo que não conseguimos medir e acompanhar.

E medir não pode se resumir a contar toneladas recicladas no final da cadeia, mas ter um olhar para todo o processo —da produção às perdas e ao financiamento da recuperação. Essas questões também são de ESG.

Durante anos, muitas empresas trataram sustentabilidade como uma questão de reputação. Publicaram relatórios, estabeleceram metas e anunciaram compromissos. Tudo isso tem valor. Mas as ações de ESG precisam produzir efeitos positivos concretos na vida das pessoas. E é justamente na ponta mais vulnerável que essa discussão ganha outra dimensão.

Catadores e cooperativas são importantes na recuperação dos resíduos, mas frequentemente trabalham em condições precárias e recebem uma parcela diminuta do valor gerado por uma cadeia que depende diretamente de seu trabalho.

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Ao mesmo tempo, comunidades de menor renda são, muitas vezes, as que convivem com maior exposição ao descarte irregular, enchentes, poluição e deficiência de infraestrutura urbana.

Não é razoável que quem menos se beneficia da produção e do consumo seja justamente quem mais suporte seus impactos. Por isso, fortalecer a logística reversa pode ser muito mais do que uma política ambiental, mas também de inclusão social e produtiva e, em suma, uma ação regenerativa completa.

Recursos provenientes das cadeias produtivas podem ajudar a estruturar cooperativas, melhorar equipamentos, ampliar capacitação, gerar trabalho e renda e aumentar a recuperação de materiais. A tecnologia deve melhorar a rastreabilidade deste processo.

O poder público pode, por sua vez, fiscalizar e estabelecer regras. Às empresas, cabe, então, assumir sua parcela de responsabilidade. E o consumidor pode fazer sua parte, mas cada ator precisa responder pelo que efetivamente controla, porque responsabilidade compartilhada não significa responsabilidade diluída.

Se uma empresa coloca milhões de embalagens no mercado, não pode transferir toda a responsabilidade pelo destino delas para o cidadão, porque, apesar de ter responsabilidades, não é ele quem decide o desenho da embalagem, o material utilizado, a escala de produção ou a estratégia de distribuição.

A transição para uma economia circular precisa corrigir essa assimetria para, realmente, caminhar em direção à justiça ambiental.

Não basta pedir ao cidadão que separe o lixo. É preciso construir um sistema em que separar faça sentido, com estrutura para recuperar os materiais e com a participação efetiva daqueles que colocam esses produtos no mercado, financiando e organizando essa cadeia. O desafio é transformar resíduos em valor ambiental, econômico e social.

Essa pode ser uma das grandes oportunidades do ESG brasileiro: fazer com que a sustentabilidade deixe de ser apenas um indicador corporativo e passe a ser percebida no território, gerando renda, inclusão e melhoria da qualidade ambiental.

No final, talvez a pergunta mais importante não seja "O consumidor está reciclando?", mas sim, "Quem produziu? Quanto produziu? Quem se responsabilizou? Quem recuperou? Quem ganhou? E quem ficou com a conta?".

Se queremos uma economia verdadeiramente circular, essas respostas precisam fazer parte da mesma história, porque sustentabilidade não significa apenas produzir de forma diferente, mas distribuir de maneira mais justa os custos, os benefícios e as oportunidades de um novo modelo de desenvolvimento.

Afago corporativista a Gonet fulmina credibilidade do MP -editorial FSP

 Diante da marcha rumo à desmoralização da cúpula do Judiciário, o Conselho Superior do Ministério Público Federal decidiu poupar o procurador-geral da República, Paulo Gonet, de incômodos pela sua condução no escândalo do Banco Master. O beneplácito corporativista não surpreende, mas aprofunda a corrosão da autoridade do sistema de Justiça no país.

Responsável pela fiscalização da Carta e pelas ações penais no Supremo Tribunal Federal (STF), Gonet aparece em relatório da Polícia Federal em situações de confraternização com o entourage do mafioso Daniel Vorcaro. A imagem da noite de charutos e uísque em Londres deveria bastar para afastá-lo de atuar nesse caso.

Infelizmente, ele tem seguido a regra geral da desfaçatez das altas autoridades flagradas em relações, das apenas festivas às contratuais, com a teia do Master. Numa velocidade incomum, apressou-se a considerar inválido o documento, enviado pelo ministro André Mendonça ao presidente Edson Fachin, em que ele mesmo, Gonet, é mencionado.

Já quando Mendonça decretou a prisão preventiva da tropa de assalto de Vorcaro, chamada de "A Turma", o procurador-geral não se apurou tanto e pediu mais tempo para avaliar se elementos que confabulavam sobre agredir um jornalista, entre outras ações de jagunçagem, deveriam ser recolhidos à prisão. O ministro relator lhe passou uma justa carraspana e ordenou a detenção.

Tampouco se conhecem quaisquer iniciativas de Paulo Gonet acerca de outro documento da PF, de 196 páginas, com indícios de relações impróprias do ministro Dias Toffoli com a quadrilha do Master. E há sete meses se conhece esse relatório.

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A passividade de Gonet nesses casos não tem sido a melhor maneira de exercer a fiscalização da lei em nome dos cidadãos. Para além dessa crítica, o fato de ser mencionado no relatório em situações que mereceriam aprofundamento e de ter festejado gostosamente às expensas do fraudador deveriam ensejar afastamento imediato da causa.

Não foi o que julgaram nove dos nove conselheiros do órgão máximo do Ministério Público, que mantiveram o colega Gonet à frente das ações do Master.

O pedido para abrir investigação a respeito dos atos de Paulo Gonet foi rejeitado por cinco deles. O voto de minerva coube ao subprocurador Nicolao Dino, irmão do ministro Flávio Dino, pivô da manobra que no Supremo protelou para data incerta a decisão sobre a abertura de inquérito em face de Alexandre de Moraes.

Quando autoridades do mais alto nível incumbidas do sistema de Justiça se protegem diante de elementos clamorosos de má conduta, é o princípio da República que se abala. Todos são iguais diante da lei? O exemplo que vem de cima estimula os brasileiros a responder não a essa pergunta.

Como o regime das liberdades depende da crença na imparcialidade dos agentes que distribuem o direito, aqui o Brasil vai mal.

Gabriel Feltran - João, a democracia e a violência, FSP

 João nasceu no Nordeste nos anos 1960 e, quando veio a democracia, foi ter com ela em São Paulo. Nos encontramos no ano 2000, quando eu fazia pesquisa de campo numa favela da zona oeste. João me contou sua história, e eu nunca mais me esqueci. Hoje, penso nela como uma metáfora do que acontece quando uma ordem democrática é substituída por outra, baseada na violência.

"Eu já estava desesperado por uma moradia. Cheguei a ir a uma favela para conseguir um local para morar. Cheguei lá um dia, no finalzinho de tarde, e conversei com seo Paulo da minha situação, se ali por perto eu não conseguia um lugarzinho pra fazer pelo menos um cômodo para mim. Ele me mostrou um lugar em que eu poderia fazer, sim."

João tinha conversado com Paulo, do movimento de moradia. O movimento via a democracia não como um conjunto de instituições, mas como uma vida na qual todos teriam o "direito a ter direitos". Por isso, Paulo autorizou que João construísse "um cômodo pra sair do aluguel, e aí poder fazer alguma coisa pela frente".

Barraco improvisado coberto por lona em primeiro plano, com roupas penduradas para secar atrás. Ao fundo, casas de alvenaria simples e inacabadas sob céu parcialmente nublado.
Favela do Sapé, localizada no distrito do Rio Pequeno, zona oeste de São Paulo - Rafaela Araújo - 26.jun.25/Folhapress

"Quando foi no outro final de semana, eu lembro muito bem, eu comprei uma enxada e botei uma roupinha na sacola e a enxada fora do cabo; comprei um cabo, pra chegar no local, encabar pra limpar o local. E chegando fiz isso, de bermuda, de chinelo. Comecei a carpir o terreno."

João construía seu cômodo, o movimento construía a ideia de um futuro democrático. Mas não era fácil:

"De repente, chegaram dois rapazes e perguntaram: ‘Que você vai fazer aí, moço? Vai plantar alguma coisa?’". Os rapazes eram os "seguranças" do bairro, os "justiceiros", matadores ligados a policiais de baixa patente.

"Tô querendo fazer um barraquinho aqui pra mim, que está difícil a situação. Eles falaram assim: ‘Tá bom’. Saíram, daqui a pouco voltaram, com mais pessoas. Disseram que eu não ia fazer aquele barraco ali. Eu achei que era brincadeira deles. Que eu não iria fazer aquilo ali não, que seo Paulo não mandava em nada lá não. Eu parei de carpir e achei que era brincadeira deles, e: ‘Não! Vou fazer, que eu estou precisando, vocês já moram aqui também".

Não era brincadeira. João tentou insistir, mas "eles partiram pra ignorância".

"Aí eu me senti... [João faz uma pausa, fica com os olhos mareados de raiva]. Me ameaçaram, que se fizesse eles iam derrubar, iam acabar com tudo. Eu até larguei a sacola com o refrigerante que tava dentro. Eu tinha levado, para tomar refrigerante, copo descartável, uma camiseta. Eu me aborreci. Larguei enxada, larguei tudo lá. Vim de chinelo, vim de perna... E vim pensando na minha vida... Como é que eu vou fazer agora?"

Estamos no futuro, e aconteceu com a democracia brasileira o mesmo que com o movimento que acolheu João. Estávamos carpindo o terreno das instituições democráticas, quando apareceram os jagunços, e seus matadores ligados a policiais de baixa patente, no centro da cena política. Disseram que a democracia não mandava nada ali, não.

É a violência, no limite o terror, que funda a política da extrema direita. Queríamos direito à segurança, mas voltamos à era dos massacres, da violência política, e a letalidade policial triplicou. Até quisemos insistir. Mas eles partiram pra ignorância. Nos aborrecemos, largamos tudo lá e hoje nos pegamos pensando: "Como é que nós vamos fazer, agora?".