sábado, 26 de setembro de 2026

'Vou falar com a turma, Muniz Sodré ,Fsp

 Não deverá haver novas sessões públicas do STF, para atenuar a perplexidade nacional com as cenas chocantes da última vez. Por minúsculo que seja, entretanto, o episódio não se esgota na estupefação imediata. A sociedade civil pode estar à espera de algo como "O Guia dos Perplexos" do filósofo judeu Maimônides (1138-1204). Atualizada, a questão desse livro é como conciliar uma ordem supostamente racional com aquilo que parece estar além de seus limites. "Perplexo" hoje é aquele lançado na aflição de compreender dois sistemas contraditórios entre si: o da razão e o de práticas político-sociais isentas de hábitos morais.

Essa reinterpretação comporta o discernimento do coreano Byung-Chul Han no sentido de que hoje "a sociedade bem ordenada não é uma sociedade do desempenho, mas uma sociedade do respeito" (em "Sem Respeito", Vozes). No que é corroborado por um aforismo da tradição afro-brasileira: "Só aprende quem respeita". Vale para a crise disciplinar no âmbito pedagógico, também para as instituições, que formam cidadania. Respeito requer responsabilidade com relação ao outro. Isso não existe no desempenho individual como único valor ético, característico da socialização neoliberal orientada pelo mercado e pelas ilusões teológicas da prosperidade com o culto do empreendedor de si mesmo, sem vínculo com a sociedade global.

Mulher com calça jeans e blusa verde caminha pela calçada em frente a um prédio com fachada parcialmente coberta por tapumes metálicos cinza. O prédio tem colunas brancas e duas telas digitais iluminadas nas laterais da entrada principal.
Prédio do Banco Master, sem identificação e com tapumes - Felipe Iruatã - 15.abr.26/Folhapress

Na falência desse vínculo, transparece a "guerra civil molecular", endógena nas sociedades marcadas pela violência da cidadania contra seu próprio entorno. A falta de respeito tem visibilidade pronta no cotidiano urbano com a depredação sistemática de equipamentos públicos, o lixo nas ruas, o caos do trânsito, o claro espírito de vingança coletiva contra a cidade e suas desigualdades. Desrespeito é o mesmo que irresponsabilidade individual e social.

Menos visível é a manifestação desse fenômeno na quebra dos protocolos seculares de convivência das elites herdeiras das disposições patrimonialistas de poder. Patrimonialismo, convém reiterar, é a forma social transplantada de Portugal para o Brasil desde os começos, com o princípio político-social de que as benfeitorias devem circular na "comunidade dos iguais". Outro modo de dizer que a circulação de riquezas obedece a critérios de família e de clã, ou seja, à "turma" do privilégio e conchavo. É o que se perpetua entre nós ao longo dos séculos sob os véus das ideologias conciliatórias formuladas pela elite letrada e inteligente.

Bem ou mal, essa elite sempre se inculcou algum autorrespeito, carteira de trânsito na panelinha dos pares. O que agora acontece, em meio à crise da representação parlamentar, da responsabilidade social e da civilidade, é a quebra dos protocolos de decoro tanto na classe política como nas instâncias do Judiciário.

Deformações moleculares apagaram o sentimento de vergonha, inerente ao autorrespeito. O patrimonialismo neoliberal virou ganância financeira controlada pelo crime organizado e, na promiscuidade das turmas, pouco importa ser percebido como corrupto e sem vergonha. Perplexa, a sociedade assiste ao "master" corruptor Vorcaro entronizar o crime acima da lei: "Vou falar com a turma". Qual? "Turma do KN", milícia privada?


Celso Rocha de Barros - Se Flávio Bolsonaro for eleito, Brasil vai virar Venezuela, FSP

 Por uma dessas ironias latino-americanas, o Brasil vai virar a Venezuela se Flávio Bolsonaro for eleito presidente. Com Lula presidente, nunca virou.

Desde a invasão americana, o regime venezuelano pode ser caracterizado como um madurismo entreguista.

Ora, "madurismo entreguista" e "bolsonarismo" são sinônimos perfeitos.

Se você tirar de Maduro seu anti-imperialismo e seu bigode, ele estará a uma peruca do Jim Caviezel de distância de virar o Jair. Já poderá, inclusive, pedir dinheiro ao Vorcaro.

Homem de terno cinza e gravata azul claro e policial em uniforme azul escuro fazem continência durante evento formal. Ventilador de parede visível ao fundo.
O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) na cerimônia da Formatura Geral do Curso de Formação de Praças da Polícia Militar do Rio de Janeiro - Ricardo Moraes/REUTERS

Ao contrário do que esperava a direita venezuelana, Trump deixou a ditadura madurista em paz, em troca de um acordo que permite aos americanos roubar o petróleo venezuelano ("ao vencedor, os espólios", disse Trump na ONU).

Nenhum governo venezuelano que dependesse de voto popular poderia oferecer a Trump um acordo tão lesivo à Venezuela.

Quando o acordo foi divulgado no dia 28 de agosto, Ricardo Hausmann, professor de economia em Harvard e membro da oposição venezuelana, postou no falecido Twitter: "Secretário Marco Rubio: você acaba de perder qualquer confiança que os venezuelanos tinham em você, e isso ainda voltará para lhe assombrar. Você optou por usar o poder dos Estados Unidos, não para libertar a Venezuela, mas para ir para a cama com nossos opressores".

Por outra dessas ironias latino-americanas, os dois grupos políticos sul-americanos com mais raiva de Marco Rubio neste exato momento devem ser o PT e a direita venezuelana.

Nos últimos meses, antigos assessores de Paulo Guedes andaram pela Faria Lima prometendo cortes de gastos gigantescos se Flávio for eleito. Ignore, por um momento, o quão pereba o sujeito precisa ser para ser reserva no time em que o Guedes é titular. Deixe de lado, também, o fato de que a essa altura, em 2018, o plano econômico do Guedes era zerar a dívida pública em um ano vendendo os imóveis da União.

O verdadeiro programa econômico de Flávio foi escrito em Washington.

Em resumo, a proposta de Trump é que o Brasil compre tudo dos Estados Unidos mesmo que os chineses cobrem mais barato; e vendam tudo para os Estados Unidos mesmo que os chineses aceitem pagar mais caro. Teremos que pedir permissão para vender nossos minérios, desistiremos do Pix e compraremos aviões americanos piores que os feitos pela Embraer. Em outros termos, todos os setores internacionalmente competitivos da economia brasileira terão que começar a trabalhar para enriquecer os americanos.

O próprio Marco Rubio já nos contou que Flávio Bolsonaro concordou em estabelecer um comitê de transição, após as eleições, para implementar o plano.

Em entrevista recente ao ICL, o cientista político Steve Levitsky, autor, com Daniel Ziblatt, do já clássico "Como as Democracias Morrem", afirmou que há um risco real de Trump não reconhecer uma vitória eleitoral de Lula.

Isso daria margem a novas ofensivas da extrema direita global contra a democracia brasileira.

Afinal, Trump vê o autoritarismo da família Bolsonaro como uma vantagem, pelos mesmos motivos que o fazem gostar do autoritarismo madurista. Nenhum governo brasileiro que dependa de voto popular poderá oferecer a Trump um acordo tão lesivo ao Brasil quanto o que Flávio já prometeu aceitar.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Receita de R$ 37 bi e mais de 180 marcas: veja o raio-X das bets no Brasil- OESP

 O setor de apostas online, conhecidas como bets, e de cassinos digitais terá um dia decisivo pela frente nesta sexta-feira, 25, com a expectativa de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assine, no fim da tarde, uma medida provisória (MP) que proibirá essas empresas de atuar no Brasil.

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Em 2024, o Ministério da Fazenda criou a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) para regular o setor. Ao longo daquele ano, a pasta publicou mais de dez portarias com as regras para o funcionamento desse mercado.

Para operar, as empresas precisaram pagar uma outorga de R$ 30 milhões. Cada autorização tem validade de cinco anos e permite que a empresa opere até três marcas. Para obter autorização para mais marcas, é necessário pagar uma nova outorga.

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Desde outubro de 2024, só podem operar no País as bets autorizadas pelo governo brasileiro. O marco oficial do início do mercado regulado é 1º de janeiro de 2025, quando o Sistema de Gestão de Apostas (SIGAP) passou a concentrar também o envio de dados das operações das bets autorizadas, permitindo à Fazenda monitorar e fiscalizar o setor.

Qual o faturamento das bets?

No ano passado, a Receita Bruta de Jogos (GGR, na sigla em inglês) das empresas regularizadas foi de R$ 37 bilhões, segundo dados disponíveis no Relatório de Gestão Integrado do Ministério da Fazenda.

Esse valor corresponde, na prática, ao dinheiro que fica com a empresa depois de descontados os prêmios pagos aos apostadores. O lucro líquido, porém, depende da dedução de outros custos e despesas, como impostos, taxas, despesas operacionais e publicidade.

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Desse montante, cerca de R$ 4,5 bilhões foram destinados a políticas públicas nas áreas de seguridade social, esporte, educação e proteção do consumidor.

Ainda segundo o Ministério da Fazenda, também foram arrecadados aproximadamente R$ 9,95 bilhões em tributos federais, R$ 2,5 bilhões em outorgas de autorização e R$ 95,5 milhões em taxas de fiscalização.

Receita Bruta de Jogos das bets regularizadas foi de R$ 37 bilhões em 2025.
Receita Bruta de Jogos das bets regularizadas foi de R$ 37 bilhões em 2025. Foto: Wpadington/Adobe Stock

Quantas bets tem no Brasil?

A aba de empresas autorizadas a operar no setor, disponível no site da SPA e atualizada na quinta-feira, 24, lista 85 companhias.

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Cada uma delas pode operar até três marcas. Dessas, 40 operam três marcas; 23 operam duas; e 22 operam uma. Ao todo, são 188 marcas comerciais em operação.

Quantos apostadores tem no Brasil?

Em 2025, pelo menos 25,2 milhões de brasileiros participaram de apostas, segundo informações repassadas ao Ministério da Fazenda pelas 79 empresas autorizadas a operar no País naquele ano.

Um levantamento realizado pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), em parceria com a Offerwise Pesquisas, divulgado nesta sexta-feira, mostrou que o Brasil tem 50 milhões de apostadores nas capitais.

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Segundo a pesquisa, o gasto médio mensal com apostas é de R$ 213, chegando a R$ 314 na classe A/B. O levantamento foi feito online entre 25 de maio e 4 de junho e ouviu 800 pessoas que realizaram compras pela internet nos últimos 12 meses.

Em agosto, o Ministério da Fazenda informou que cerca de 827 mil pessoas estavam impedidas de apostar em plataformas autorizadas pela SAP em razão da renegociação de dívidas. A pasta também afirmou ter bloqueado o acesso às plataformas de apostas de 3 milhões de beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC).

Quantos empregos as bets geram?

O estudo “A Saúde dos brasileiros em jogo”, desenvolvido pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) em parceria com a Frente Parlamentar Mista para Promoção da Saúde Mental (FPSM) e a Umane, apontou que, em 31 de dezembro de 2024, o subsetor em que o mercado de apostas atua tinha 1.144 empregos formais ativos, distribuídos entre 60 empregadores - uma média de 19 vínculos por empresa. Os dados foram retirados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS).

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Já um levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), com base em dados do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego, mostrou que, em 2025, a classe atividades de exploração de jogos de azar e apostas alcançou 3.315 vínculos formais.