quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A inflação não deveria ser o problema- Deirdre Nansen McCloskey - FSP

 As eleições legislativas nos EUA, em novembro, serão decididas pela frustração crescente entre os apoiadores de Donald Trump com sua incapacidade de conter a inflação. Em 2024, ele derrotou a segunda mulher que enfrentou afirmando que poderia acabar com a inflação "no primeiro dia".

A única maneira de alcançar esse objetivo tão rapidamente é fazer o que a Alemanha fez em novembro de 1923 para deter sua hiperinflação e o que o Brasil fez em julho de 1994: adotar uma moeda totalmente nova —o Rentenmark na Alemanha e o real no Brasil. A inflação generalizada é sempre causada pela injeção excessiva de dinheiro em uma economia. A equação é idêntica àquela que aprendemos em química: a equação de estado de um gás ideal. Mais moléculas, mais pressão.

Há muitas razões para criticar Trump nos planos econômico, social e constitucional.

Do ponto de vista econômico, um país prospera mais quando permite o comércio com quem as pessoas escolherem. Você sabe que isso é verdade. Se o Carrefour da rua Pamplona cobrar caro demais pelo leite, você sairá ganhando se tiver o direito de ir ao Assaí Atacadista na avenida Aricanduva em vez de encarar uma tarifa que o impeça de fazê-lo.

Trump não acredita nisso. Sua experiência em negociações hoteleiras —nas quais duas partes se enfrentam e negociam sem outras alternativas— molda sua compreensão da vida econômica. Assim, visando alguma vantagem na negociação, ou movido pela raiva, ele impõe tarifas ao Brasil —o que equivale a taxar as companhias aéreas dos EUA que desejam comprar aviões brasileiros.

Donald Trump ao anunciar tarifas de importação - AFP

Socialmente, Trump tornou mais grosseiro o discurso nos EUA e no mundo. O Brasil ou os EUA —aliás, o mundo todo— só podem viver em paz se as pessoas forem tratadas com respeito liberal, ainda que apenas na teoria expressa publicamente. Trump não respeita esse princípio liberal. Seus heróis personificam o poder bruto, não o respeito liberal: Vladimir Putin, da Rússia, e não María Corina Machado, da Venezuela.

Constitucionalmente, ele tentou anular uma eleição —a primeira tentativa do gênero na história dos EUA. Atualmente, está dispensando todos os oficiais militares de alta patente que, ele suspeita, não apoiariam uma segunda tentativa de golpe ou o uso das Forças Armadas contra protestos pacíficos.

O que incomoda um economista liberal como eu no fato de a inflação ser a questão central é que, para começar, Trump tem pouca relação com ela. A inflação é causada por excesso de dinheiro em busca de poucos produtos, não pela maioria das políticas presidenciais —a menos que elas alterem a equação de estado do gás. Mesmo suas tarifas e sua guerra contra o Irã afetam apenas os preços relativos das coisas, não a taxa de inflação geral.

Além disso, a inflação é irrelevante, segundo padrões históricos e internacionais: 3,4% ao ano. No Brasil é pouco superior a 4,2%. Excetuando-se períodos de guerra, a taxa mais alta nos EUA ocorreu entre 1979 e 1980 —quase 15%. A mais alta em tempos de paz no Brasil foi em abril de 1990, quando a inflação anualizada atingiu 6.800%. E foi ainda mais alta na Alemanha.

Mas as eleições não são racionais. Afinal, fomos nós que elegemos os políticos atuais.

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