quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Quem é Newton Ramos, ex-juiz auxiliar de Kassio que arrastou ministro do STF para crise do Master- FSP

 Isadora Albernaz

Brasília

Apontado como integrante da "Turma do KN", o juiz federal do TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região) Newton Pereira Ramos Neto, 51, arrastou o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Kassio Nunes Marques para a crise do Banco Master após uma nova leva de mensagens de Daniel Vorcaro vir à tona.

Newton é natural de São Luís e foi juiz auxiliar de Kassio quando o hoje presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) ocupou a vice-presidência do TRF-1, entre 2018 e 2020. Os dois têm uma relação de amizade. Kassio nega ter autorizado terceiros a falar em seu nome.

A Folha entrou em contato com a assessoria de imprensa do STF nesta quarta-feira (23) para pedir uma manifestação a respeito da relação entre o ministro do Supremo e Newton Ramos. A nota diz apenas que Kassio conhece o juiz federal devido ao período em que trabalharam juntos no TRF-1.

O juiz federal Newton Ramos - Mathilde Missioneiro - 10.fev.23/Folhapress

Newton Ramos chegou ao tribunal onde Kassio fez carreira e é influente em 2023, quando tomou posse e passou a fazer parte da 11ª Turma do TRF-1. No colegiado, ele deu dois votos que atenderam a interesses do Banco Master em uma ação ligada à Usina Cansanção de Sinimbu entre janeiro e junho de 2024, segundo o jornal O Estado de S. Paulo.

A esposa do juiz federal, a advogada Camilla Ramos, firmou um contrato com o banco de Vorcaro seis meses depois, em dezembro de 2024, que previa honorários de até R$ 427 milhões em caso de êxito em 12 processos relacionados a precatórios do setor sucroalcooleiro. O caso foi revelado pelo Metrópoles.

Newton nega irregularidades. Ele afirmou que o caso foi analisado em bloco, em sessão virtual com cerca de outros 300 processos e que, na época do julgamento, o Master não constava como habilitado nos autos em tramitação no TRF-1. Disse ainda que, depois que isso foi feito, ele se declarou impedido.

Formado em direito pela UFMA (Universidade Federal do Maranhão), o magistrado passou antes pela Justiça de seu estado. Foi juiz federal substituto em Caxias (MA) e São Luís entre 2005 e 2006. Em 2011, passou a exercer o cargo de juiz federal titular em Imperatriz (MA). Depois, em 2013, retornou à capital.

A última função de Newton Ramos como juiz de primeira instância foi na 25ª Vara Federal do DF. Também foi procurador e juiz de direito no Maranhão.

Na área acadêmica, Newton fez doutorado em direito processual civil pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e mestrado em direito, Estado e Constituição pela UnB (Universidade de Brasília). É professor adjunto na Universidade Federal do Maranhão desde 2011. Escreveu o livro "Poderes do juiz no Processo Civil e sua conformação constitucional" (2021).

O juiz do TRF-1 também exerce influência entre seus pares e circula no meio jurídico do país, participando de eventos acadêmicos e jantares. Em 2023, por exemplo, foi a uma homenagem ao coordenador do grupo Prerrogativas, Marco Aurélio de Carvalho, organizada pelo advogado Fábio Tofic Simantob, em São Paulo.

Newton Ramos também foi palestrante em ao menos três ocasiões do Fórum de Lisboa, evento capitaneado pelo decano do STF, Gilmar Mendes, e que ficou conhecido como "Gilmarpalooza".

Em 2023, ele participou do painel "Integridade, diversidade e governança ESG: Setor privado como instrumento de políticas públicas", em uma mesa com nomes como Vinícius Marques de Carvalho, chefe da CGU (Controladoria-Geral da União). No ano seguinte, falou ao lado do ministro do STF Dias Toffoli sobre jurisdição constitucional na revisão de políticas públicas.

O magistrado ainda foi vice-presidente e presidente da Ajufer (Associação dos Juízes Federais do Brasil da 1ª Região) de 2014 a 2018.

As mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Vorcaro evidenciam a proximidade entre Newton Ramos e um ministro identificado nas conversas como "KN", em uma possível referência a Kassio Nunes Marques. Há diálogos sobre viagens, hospedagens, o "nível" das bebidas alcoólicas oferecidas a eles e até sobre o esquema de segurança do magistrado.

Em uma das conversas, Newton é citado diversas vezes em uma articulação do dono do Master para bancar a estadia de "KN" em uma mansão com aluguel de R$ 1,45 milhão, no Joá, bairro de luxo no Rio de Janeiro, para o Carnaval de 2025. A informação foi divulgada pelo Metrópoles.

A advogada Camilla Ramos confirmou a hospedagem com o marido na casa oferecida por Vorcaro "sem qualquer contrapartida, vínculo comercial ou interesse profissional". Ela disse ter prestado serviços para o Master e criado uma relação pessoal com o ex-banqueiro. A nota não cita a possível presença de Kassio.

O presidente do TSE afirma que nunca trocou mensagens com Daniel Vorcaro nem pediu nada a ele.

Outro documento indica que o ministro do Supremo pegou um avião da Prime Aviation, empresa que tinha o dono do Master como um dos sócios, para Maceió. A viagem para a capital alagoana foi organizada e paga pela esposa do juiz federal do TRF-1 para comemorar o aniversário da mulher, de acordo com Kassio.

A atuação de Camilla Ramos, que faz parte do escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos Advocacia, também se tornou central nas últimas revelações sobre o Master. Além do contrato milionário, a advogada tem visitado Vorcaro com frequência na prisão, como mostrou a coluna Mônica Bergamo.

De acordo com os relatos, as visitas de Camilla a Vorcaro são diferentes das de outros advogados, com encontros privados entre eles. Outros defensores afirmam ser evidente que ela trata de informações sensíveis e sigilosas.

A assessoria da banca afirma que Camilla vai à prisão atualizar o ex-banqueiro do andamento de ações bilionárias movidas pelo Master contra a União. O banco foi liquidado e não está mais sob a administração dele.

Cezinha de Madureira fez contrato para comprar 4% de instituto de André Mendonça, FSP

 Mônica Bergamo

O deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP) assinou um contrato de opção de compra futura de 4% de participação no Iter, o instituto jurídico lançado pelo ministro André Mendonça em novembro de 2023, depois que já integrava a corte.

O documento foi encontrado no material apreendido pela PF em operações de busca e apreensão contra o parlamentar e a advogada Valéria Linhares determinadas pelo ministro do STF Flávio Dino.

Homem de cabelos curtos grisalhos veste toga preta e camisa branca com gravata verde, sentado em cadeira marrom clara, gesticulando com a mão direita estendida enquanto fala. Microfone e laptop estão à sua frente em ambiente interno com fundo desfocado.
O ministro André Mendonça, do STF - Antonio Augusto/STF

Dino autorizou a operação contra Cezinha e a advogada no dia 14 de setembro, em investigação que apura suspeita de comercialização de influência junto a ministros de tribunais superiores.

Um mês antes, agentes apreenderam no aeroporto de Congonhas uma bagagem de mão com R$ 510 mil levada por Valéria, que é namorada de Cezinha.

Em março do ano passado, o parlamentar mediou um encontro entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro André Mendonça.

PUBLICIDADE

De acordo com a assessoria do magistrado, Cezinha não foi e nunca poderá ser sócio do Iter.

Segundo o relato, o parlamentar assinou um contrato de opção de compra futura de 4% do instituto. Depositou ao ministro em caução o equivalente a 1% das ações, ou R$ 19.353. Os outros 3% seriam vendidos a ele por outros sócios do Iter.

Mendonça e Cezinha, ainda segundo a explicação, tinham combinado que a compra só seria efetivada se o parlamentar deixasse a política. A previsão era de que isso acontecesse em 2027, quando ele já não seria mais deputado.

O ministro Flávio Dino pediu ao presidente do STF, Edson Fachin, que o encontro de Mendonça com Vorcaro e atos jurídicos dele sejam apurados.

No mesmo mês do encontro com Vorcaro mediado por Cezinha, Mendonça pediu vista de um processo que envolveria interesses do conglomerado do Banco Master em concessões de cemitérios privados em SP.

Quando o julgamento foi retomado, em abril de 2025, ele votou contra a manutenção de uma decisão individual de Dino que estabelecia restrições às concessionárias de cemitérios.

Diante do que considera "quadro indiciário suficientemente relevante" na atitude de Mendonça, o ministro Dino pediu a Fachin que as atitudes sejam analisadas pelo STF.

A assessoria de Mendonça afirma que ele votou em uma tese para decidir se pode haver ou não concessão em serviços públicos de manutenção de cemitérios, e não em caso de interesse específico de Vorcaro ou de qualquer outra empresa.

Safári, Flávio Bolsonaro e a fraude do INSS - Rômulo Saraiva - FSP

 O safári é uma atividade de lazer, mas envolve riscos inerentes à proximidade com animais selvagens em seu habitat natural. A aproximação excessiva dos predadores pode causar problema. Em foto divulgada pelo jornal O Globo, o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aparece numa savana na África do Sul, sorridente e relaxado, quando deveria se preocupar com o seu entorno.

Na foto não se enxergam predadores. Só humanos. Mas há uma fauna que causa embaraço. Como diferentes espécies uniram-se na mesma programação de lazer? Era melhor Flávio ter ficado perto dos leões.

Homem veste camisa amarela com detalhes verdes e é cercado por microfones de diferentes emissoras, incluindo SBT e METRÓPOLES, enquanto fala com jornalistas em ambiente interno.
Flávio Bolsonaro durante evento de campanha em Natal (RN) - Alexandre Lago - 21.set,26/Reuters

Embora o candidato prometa em seu plano de governo que não poupará "esforços para coibir qualquer nova tentativa de roubar o dinheiro dos aposentados do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social)", Flávio aparece ao lado de investigados pela Polícia Federal por escândalos de corrupção do INSS, do Banco Master, da CPI da Covid e até com aliado político do seu arquirrival Lula (PT).

Flávio saiu para a savana com o advogado Willer Tomaz, o senador Weverton Rocha (PDT-MA) e o empresário Carlos Alberto Sá.

Segundo a revista Piauí, a foto foi enviada em março de 2025 do celular de Willer Tomaz, investigado pela Polícia Federal por desvios no INSS. Em uma das fases da Operação Sem Desconto, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), André Mendonça, destacou que a estrutura ligada ao advogado "funcionaria como verdadeiro hub financeiro, patrimonial e logístico", posto à disposição de beneficiários, dentre os quais estaria o senador Weverton Rocha.

Flávio é velho amigo de Willer, que emprestou seu apartamento em São Paulo para o candidato usá-lo na campanha. Por coincidência, esse mesmo imóvel era de Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Daniel Vorcaro, que o vendeu ao advogado por R$ 2 milhões a menos do que seu valor de mercado.

Procurado por esta coluna, o advogado ponderou que "não há nenhuma ilegalidade em viajar com amigos para a África ou para qualquer outro lugar. A viagem foi custeada com recursos próprios, sem dinheiro ou interesse públicos envolvidos."

Em terra africana, Flávio não hesitou em aparecer ao lado do senador Weverton Rocha, do PDT, histórico aliado do PT e vice-líder do governo Lula no Senado. Em suas redes sociais, o maranhense aparece de rostinho colado ao petista se derretendo: "vote em quem nunca abandonou o Lula".

Weverton está ligado a pessoas que são pivôs do escândalo dos aposentados. Adroaldo Portal, ex-assessor do senador, foi o número dois da Previdência na gestão de Carlos Luppi, também do PDT. Adroaldo está preso por acusação de envolvimento com o Careca do INSS.

Não bastasse isso, Weverton tem currículo conturbado no Supremo. Desde 2013, há diversos processos na corte decorrentes de inquéritos policiais que apuraram crimes relativos a desvio de verbas, estelionato, apropriação indébita, peculato, corrupção ativa e passiva. Tais processos estão arquivados.

Em nota, o senador afirmou apenas que "Willer Tomaz é meu compadre e amigo há muitos anos e já fizemos várias viagens juntos em família. São relações privadas, que não envolvem dinheiro ou interesses públicos". Nada falou sobre Flávio e os demais.

A Polícia Federal também investiga o senador Weverton por ser o suposto responsável por "formular demandas, indicar beneficiários, cobrar pagamentos, acompanhar repasses, tratar de imóveis, orientar providências e interferir em decisões patrimoniais" no contexto da fraude no INSS.

Na mesma foto na savana aparece o empresário Carlos Alberto Sá, sócio da empresa VTCLog, que constou em 2021 no relatório da CPI da Covid para ser indiciado pelos crimes de corrupção ativa e improbidade administrativa.

Sobre as amizades da viagem estarem envolvidas em investigação, Flávio disse que "a relação de amizade entre as famílias é legítima e qualquer tentativa de insinuar irregularidade a partir dessa afinidade pessoal é mera ilação, sem qualquer fundamento nos fatos".

Se Flávio promete ser uma espécie de caçador da corrupção, não faz sentido ele aparecer ao lado de investigados em escândalos de corrupção. Se eleito, terá isenção para tomar medidas contra as amizades do último safári? Não basta ser correto, é necessário também aparentar sê-lo.