domingo, 28 de junho de 2026

Lula teve uma das conversas mais difíceis de seus 80 anos, Elio Gaspari, FSP

 A conversa de Lula com o senador Jaques Wagner que resultou no seu afastamento da liderança do governo foi das mais difíceis de seus 80 anos.

Homem de meia-idade com barba grisalha usa chapéu preto que cobre seus olhos, veste camisa azul clara e paletó escuro, fundo azul desfocado.
Presidente Lula lança a nova fase do Programa Nacional Celular Seguro na Base Aérea de Guarulhos - Danilo Verpa - 23.jun.26/Folhapress

Bolsonaro x Bolsonaro

Que grande novela dariam as brigas passadas, presentes e futuras da família Bolsonaro.

Ganha um fim de semana em Miami quem souber um só tema de política pública que os divide. É puro Nelson Rodrigues.

Gordon no Planalto

Atribui-se ao escritor Otto Lara Resende uma frase cruel, disparada durante o governo do marechal Castello Branco (1964-1967): "Chega de intermediários, Lincoln Gordon para presidente da República".

Gordon, um professor de Harvard, era o embaixador americano e não achava a menor graça na piada. Seu senso de humor era limitado.

Já o adido militar, general Vernon Walters, era uma piada ambulante. Renomado poliglota, dizia: "Eu falo sete idiomas e não penso em nenhum".

Quando falavam que ele urdiu a deposição do presidente João Goulart, respondia: "Se eu entendesse o Brasil, não teria comprado um apartamento no Panorama Palace Hotel".

O prédio, construído numa encosta de Ipanema, nunca ficou pronto.

Um destino tão funesto,Muniz Sodré FSP

 

Há algo de funesto, isto é, de mau augúrio e desastroso, no incidente da ponte do Esqueleto em Limeira (SP), quando três homens assistidos por um técnico levantaram nos braços uma jovem para lançá-la "em aviãozinho" do alto de 40 metros. Seria uma experiência de rope jump, em que grossas cordas sustentam a pessoa no ar. Só que, contra toda a razão, esqueceram de amarrar as cordas. "Horribile visu", medonho de contemplar, o chocante episódio provoca uma reflexão.

Sujeitos à acusação de homicídio, os instrutores, perplexos consigo mesmos, alegam ter sofrido um apagão, nenhum deles notou a ausência das amarras de segurança. Inexplicável assomo de inconsciência: um fenômeno análogo ao do pai ou mãe que esquece o bebê num automóvel trancado enquanto faz compras num supermercado. Com uma diferença gritante: na ponte, eram várias pessoas. A atenção que se deveria prestar à segurança competia com a câmera GoPro fixada no corpo da jovem. Só quem estava fora do circuito imediato desse holofote pôde perceber e avisar que faltavam as cordas.

Viaduto de concreto com pilares altos cobertos por grafites em área verde com vegetação densa ao redor. Estrutura parece desativada, sem trilhos ou uso visível.
Ponte do Esqueleto, em Limeira, no interior de São Paulo; jovem de 21 anos morreu neste mês ao ser lançada da estrutura sem a corda de segurança durante prática de rope jump - Danilo Verpa - 15.jun.26/Folhapress

Não há como se eximir de culpa. Mas detrás de uma aberração individual pode haver uma microestrutura, que funciona pela obliteração despercebida da razão e da atenção, normalizando o anormal. Pertinente é a metáfora de Engels de que "olhar apenas para o indivíduo seria o mesmo que observar a árvore e não considerar o bosque" (em "Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico"). Em "bosques" implausíveis, mas verossímeis, se expande a aura popular da anestesia perceptiva e do descaso.

Divisa-se assim um pequeno paradigma extensivo à generalidade do corpo social. De fato, essa aberração de comportamento evoca o blecaute perceptivo e moral que acomete as massas dessensibilizadas de sua espoliação pelas gestões incivis dos mecanismos de Estado ou de imposição das dinâmicas de sujeição social e psíquica pelas políticas neoliberais.

Outro não é o quadro atual, em que o senso comum assiste bestificado à desagregação institucional e à fragmentação do laço social por efeito da indiferença das elites ao território e do cinismo como marcador da ética social imediata. O apagão sensível e moral em instituições como o Congresso, o Judiciário e os blocos partidários tem consequências ainda não plenamente avaliadas sobre o corpo social. A dinâmica da necropolítica, orientada para a destruição da vida comum e o extermínio dos descartáveis, não aparece nas macroanálises noticiáveis.

Além do evidente sofrimento da família pelo sacrifício banal de uma filha, depreende-se da imagem do episódio nas redes uma metáfora descritiva da atualidade: o país a caminho de um voo instagramável sobre o abismo, sem cordas de sustentação, carregado por sujeitos de um apagão adverso. É o senador, o deputado, o juiz, o executivo eleito, quando submersos no vórtex escabroso da corrupção. Esse grupo inclui o cidadão anestesiado. A analogia é consistente, levando-se em conta que, fora do blecaute da consciência, houve quem gritasse pelas cordas. Espera-se que esse grito possa repercutir nas urnas eleitorais.

Criadora de bairros em SP, a centenária Cia. City planeja 'retrofit de tudo', diz CEO, FSP

 Alex Sabino

São Paulo

Leonardo Paranaguá, 50, costuma ir a Ibiúna-MG. Lá, estão 3.000 caixas de arquivos da Cia. City. Escolhe-as de forma aleatória e as abre para descobrir o que está dentro. Há um hiato na história da empresa, fundada em 1911, que ele deseja recuperar.

Homem de cabelos escuros e curtos veste camisa branca de mangas longas arregaçadas, com braços cruzados, posando em área externa com arbustos e palmeiras desfocados ao fundo.
Leonardo Paranaguá, CEO da Cia.City. Empresário comprou a empresa em 2024 - Divulgação

Administrá-la é ter contato com o urbanismo de São Paulo. Foi a companhia que criou o conceito de "cidade-jardim" ao desenvolver bairros e ainda tem direitos em bairros como Pacaembu, Alto da Lapa e Butantã depois de comprar 15 milhões de m² de terras em 1912. Criou regras que ainda fazem parte da legislação da capital. Nas últimas décadas, enfrentou a decadência do seu modelo, disputas jurídicas e a crise causada pela Encol.


O que o atraiu em uma empresa centenária?  A marca tem recall com outras gerações. Houve um momento em que ela ficou pendurada na holding do grupo [colombiano] Santo Domingo e acabou esquecida. Foi quando tive a oportunidade de fazer a aquisição em 2024. Eu já vinha fazendo investimentos em projetos com a cara do que a City fez no passado, de urbanização mais abrangente.

Até que ponto a marca pode ser relevante? É um magneto muito interessante para desenvolver negócios. Em São Paulo, olhamos de novo para bairros que ela fez. Dá para retocar. E se viabilizássemos algum processo que custeasse a melhoria desses bairros?

Qual o sr. deseja que seja o legado da empresa nessa nova fase? Eu tenho cabeça de engenheiro. Quero testar, aprender, corrigir e sempre pequeno, para errar pouco. É fazer retrofit urbano de tudo. De um jeito caprichado, adensando com qualidade onde for necessário. Mas com todos os cuidados de generosidade com o espaço público.

A City detém o poder de revisar o regramento original sobre o uso do solo nas áreas que ela própria loteou. Isso é uma oportunidade de negócios?  Esse poder não é só dela. Quando a City nasceu, tudo o que ela fez se refletiu na legislação imobiliária, na restrição de loteador. Criou algo como se fosse uma constituição de bairro. Temos uma questão histórica, mas também é uma oportunidade de negócios.

Qual é o plano concreto de receita? Desenvolvimento imobiliário, como sempre foi a história da empresa. É o que fazemos. É uma incorporadora com DNA de loteamento.

Até onde pode ir uma modernização controlada sem descaracterizar o patrimônio urbanístico?  O regramento é engessado. Ninguém consegue nada sozinho. A gente conversa com algumas associações. O desafio é modernizar de forma que se aumente [a população], mas mantenha uma característica do passado.

A Cia. City estuda projetos no Paraná, na Bahia e no interior de São Paulo. Qual é a prioridade?  Isso é menos estratégia e mais evolução das aprovações. A gente entra em um processo e dificilmente sabe quando vai ter condições de desenvolver. A questão da aprovação é morosa. E tudo bem porque, quando se faz loteamento, é uma tatuagem na cidade. São Paulo é mais organizado porque tem um balcão único de aprovação. Mas pode levar oito ou dez anos.

O senhor definiu a empresa como uma startup centenária. Como se gerencia um ativo com tanto peso histórico com uma estrutura enxuta? Estamos adotando a postura de utilizar esse legado para fazer uma coisa diferente. Pensamos em ajudar um pouco a vida desses bairros de um jeito inovador. Conversamos com urbanistas para fazer algo em cima de um legado inexorável. Não vejo outro jeito que não seja assumir certo protagonismo, entender quarteirão a quarteirão quais são os problemas.

Incorporadoras falam da falta de oportunidades nos bairros mais valorizados de São Paulo. A Cia. City pode ser a chave para desbloquear esse mercado?  São desdobramentos que vamos aprendendo. Não sei como serão as primeiras experiências. O princípio da nossa abordagem é não desconfigurar a atmosfera original desses bairros.


Raio-X

Leonardo Paranaguá, 50
1975, Londrina 
É formado em Engenharia Mecânica e tem mestrado pela USP. Atuou nos mercados imobiliário e de capitais, com passagens pelo Santander, nas áreas de análise de ações e M&A, pela Tecnisa, onde foi CFO, e pela Scopel, do grupo Carlyle, onde ocupou os cargos de CFO e CEO. É o CEO da Cia. City desde que a comprou, em 2024.