sexta-feira, 26 de junho de 2026

Horizonte relevante, choque no petróleo, El Niño e a Selic, Braulio Borges, FSP

 Na semana passada, o Banco Central do Brasil optou por reduzir novamente a taxa Selic, de 14,5% para 14,25% ao ano. Essa decisão foi mal recebida por diversos analistas do mercado, que chegaram a apontar que a autoridade monetária estaria perdendo credibilidade com esse movimento. Isso porque, para amparar essa decisão, o BC optou por alongar o chamado "horizonte relevante" para trazer a inflação de volta à meta: em vez de considerar que esse prazo seria o último trimestre de 2027 (seis trimestres à frente), a autoridade monetária considerou o primeiro trimestre de 2028 (sete trimestres à frente).

Bem, em primeiro lugar, acho que é importante lembrar que, a despeito de a Selic ter recuado, ela segue em terreno altamente restritivo —isto é, bastante acima da chamada taxa de equilíbrio (ou neutra), hoje estimada em cerca de 10% a 11% ao ano. Ou seja: o BC não está estimulando a economia, e sim apenas reduzindo, de forma bastante gradativa, o grau de restritividade da política monetária. Vale notar que há uma possibilidade de que essa taxa de juros de equilíbrio recue bastante nos próximos anos, em razão do fenômeno da "ressaca de endividamento" (ver minha coluna anterior aqui na Folha).

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Cédulas de real - Gabriel Cabral/Folhapress

Também é importante identificar a origem de boa parte da piora do quadro inflacionário corrente e prospectivo: de janeiro a agora, as expectativas de consenso do mercado para a alta do IPCA em 2026 passaram de cerca de 4% para 5,2% —muito acima da meta de 3%, com intervalo de tolerância de mais ou menos um ponto percentual.

Dessa alta de 1,2 ponto percentual, os próprios analistas estimam que aproximadamente 1 ponto tenha advindo de choques de oferta desfavoráveis: conflito no Oriente Médio (0,8 ponto) e El Niño (0,2 ponto), conforme aponta o Questionário Pré-Copom (QPC) mais recente (que pode ser acessado aqui).

Em razão dos vários mecanismos de indexação formal e informal presentes no Brasil, essa alta de 1 ponto do IPCA em consequência de choques de oferta desfavoráveis tende a elevar a inflação de 2027 em pelo menos 0,5 ponto (podendo chegar a +0,7 ponto). Ademais, o El Niño agregará mais 0,2 ponto ao IPCA do ano que vem, segundo os analistas (podendo chegar a +0,4 ponto) —já que esse fenômeno climático costuma acontecer entre meados de um ano e meados do ano seguinte (não respeitando o ano-calendário).

Ou seja: boa parte da piora da inflação corrente e esperada não adveio de surpresas favoráveis com a atividade econômica doméstica (choques de demanda positivos), e sim de choques de oferta desfavoráveis. Vale lembrar que o crescimento esperado do PIB brasileiro neste ano passou de 1,8% em janeiro para 2% agora.

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É verdade que a economia segue operando acima do seu potencial (isto é, com algum grau de superaquecimento), mas a magnitude do chamado "hiato do produto", atualmente em cerca de + 0,5 ponto, não é enorme e está bastante abaixo daquela observada entre meados de 2023 e meados de 2024 e mesmo dos níveis observados de 2011 a 2014 (quando a Selic foi reduzida de forma eleitoreira). O ciclo político-eleitoral da política fiscal federal e regional, que está impulsionando a demanda agora em 2026, deverá representar um vento contrário relevante já no fim deste ano e em 2027.

Nesse contexto, alongar o horizonte relevante em um trimestre é plenamente justificável e passa bem longe de representar uma postura leniente com a inflação —como foi interpretado por alguns analistas. Até mesmo porque a legislação que introduziu o sistema de metas contínuas no Brasil, em meados de 2024, não fixou um valor para esse horizonte, deixando isso a cargo do próprio BC. Convém lembrar que, em boa parte dos países que adotam o regime de metas de inflação, o horizonte relevante típico é de cerca de oito trimestres (dois anos à frente). É o caso de EUA, Chile, Colômbia, México e Peru, entre outros.

Dos campos de várzea para a Copa do Mundo, Mauro Calliari, FSP

 Antes de levantar a taça do pentacampeonato em 2002, Cafu pediu para um membro da comissão técnica escrever com uma caneta grossa em sua camisa: "100% Jardim Irene". A cena chamou a atenção do mundo: o capitão da seleção homenageou não só seu país, mas o bairro de onde veio. Ou, como diz o próprio Cafu, a sua quebrada, a sua favela, a sua comunidade.

A Netflix lançou uma minissérie que ajuda a entender um pouco do mundo do futebol nas periferias de São Paulo — Várzea: Onde Nasce o Futebol. O documentário gira em torno de um campeonato que reúne clubes de várzea de todas as partes da cidade. Os times se matam em campo pela sua quebrada, seja o ASA da Vila Prudente, o MEC da Cidade Tiradentes, o Milianos de Campo Limpo ou o Raça Ruim da Vila Matilde.

O jogo é feroz, a torcida é barulhenta, juízes e bandeirinhas são xingados; na preleção, um técnico agarra o atacante e vocifera: "Tem que jogar com o sentimento da comunidade, tem que guerrear". A metáfora da guerra, aliás, embalada pelo rap, é permanente: "Aqui é matar ou morrer". Armas aparecem em várias cenas.

O craque Raphinha, do Barcelona e da seleção, que começou na várzea da comunidade Restinga, em Porto Alegre, também aparece na série e confirma: "Em nenhum outro jogo sofri tanta pressão como num jogo da várzea".

Jogadores com uniformes amarelos e azuis se abraçam e se apoiam em uma cerca de arame farpado, demonstrando exaustão ou tristeza após partida.
Cena da série documental 'Várzea: Onde Nasce o Futebol', da Netflix - Divulgação

A série dialoga sem querer com o urbanismo paulistano. As próprias várzeas, que emprestaram seu nome para o futebol (em outros estados, o futebol amador tem outros nomes; no Rio de Janeiro, por exemplo, é chamado de futebol suburbano), não existem mais como tal.

As várzeas dos rios eram enormes espaços vazios, que enchiam ou esvaziavam com o ciclo das águas do Tietê, do Tamanduateí e do Pinheiros. Foi nesses espaços que surgiram as centenas de campos de futebol e clubes, como Espéria e Germânia 1899 ou o Corinthians, em 1910.

Ao final do século 19 e ao longo do século 20, a várzea vai sendo ocupada gradual e inexoravelmente. Primeiro vieram os trilhos dos trens, depois as grandes obras de saneamento, a retificação dos rios e o golpe fatal, as marginais, cortando o contato dos paulistanos com as águas onde nadavam, pescavam e remavam e também com as várzeas onde jogavam. A ocupação urbana fez o resto: onde havia campos de futebol, há shoppings de materiais de construção e condomínios gigantes.

Sem espaço nas várzeas, os campos foram migrando para as periferias. Em algumas favelas, o campinho, de terra ou grama sintética, é o único espaço público aberto. A Prefeitura informa que existem aproximadamente 200 campos de futebol públicos espalhados pela cidade, fora número desconhecido de campos privados. Estima-se que haja ainda mil times em atividade em São Paulo, mais ou menos estruturados.

Os jogadores sonham com os times grandes, mas não é só o futebol profissional que está em jogo. É também o lazer dos jovens, que depende de espaços que sobrevivam ao crescimento urbano. Se o futebol era jogado nos campos de várzea, nos terrenos baldios e na rua, hoje, as crianças só jogam na educação física da escola ou nos clubes e escolinhas particulares de futebol, para poucos.

A cada vez que alguém perde a chance de brincar de bola, perde também a chance de encontrar amigos, de aprender a ganhar e perder, e a conviver com pessoas diferentes. O professor de educação física e ex-técnico de vôlei do Minas Tenis Clube, João Crisóstomo, que, quando criança e adolescente nas décadas de 1950 e 60, jogou na várzea, me explicou que o futebol —e o brincar— ajudam no crescimento motor dos adolescentes e estimulam a capacidade de encontrar solução para seus problemas.

Portanto, não é apenas com a falta do celeiro de craques que devemos nos preocupar, mas com os espaços de convivência e de formação de cidadãos. Futebol também é política pública.

Alan Greenspan teve lá seus erros, mas foi instrumento chave na conquista da autonomia do Fed, Celso Ming, OESP

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Pois um certo originário da então pouco notável ilha de Sérifos (Arquipélago das Ciclades, no mar Egeu) ousou dizer então que ele só era Temístocles porque tinha nascido em Atenas. E Temístocles: “Dizes a verdade. Nem eu seria famoso se fosse de Sérifos, nem tu, se fosses de Atenas”.

Greenspan morreu aos 100 anos na madrugada desta segunda-feira. Não foi famoso apenas porque pilotou o Fed, o banco central dos Estados Unidos, mas também porque foi o competente Greenspan nas circunstâncias pelas quais passou então o Fed.

Alan Greenspan ficou no cargo de presidente do Federal Reserve por 18 anos consecutivos, sob quatro presidentes da República
Alan Greenspan ficou no cargo de presidente do Federal Reserve por 18 anos consecutivos, sob quatro presidentes da República Foto: Lauren Victoria Burke/AP Photo

Não se pode entender nem o Fed nem Greenspan sem avaliar o impacto e as consequências da decisão do presidente Nixon em 1971, de desatrelar o dólar do ouro.

O acordo de Bretton Woods (1946) havia definido que o governo dos Estados Unidos entregaria uma onça troy de ouro (31,1 gramas) para cada US$ 35 dólares que lhe fossem apresentados. Como o governo dos EUA gastou dólares demais na Guerra do Vietnã, o presidente da França, então Charles de Gaulle, assessorado pelo economista Jacques Rueff, passou a trocar compulsivamente dólares por ouro. Como as reservas de ouro dos Estados Unidos corriam o risco de se esgotar, Nixon acabou unilateralmente com a conversibilidade do dólar ao ouro. Assim, a moeda dos Estados Unidos passou a oscilar em relação ao ouro e às outras moedas, de acordo com a lei da oferta e da procura. (Hoje, o ouro é negociado por mais de US$ 4 mil por onça troy, mas, no auge da guerra do Irã, chegou a ultrapassar os US$ 5 mil).

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Enquanto se manteve o padrão ouro, o dólar não precisava de xerife para protegê-lo. O dólar era ouro, e ouro não precisa de defesa contra a corrosão inflacionária. Foi a partir daí que o Fed teve de atuar não mais para entregar ouro por dólar (e vice-versa), mas para garantir o poder de compra do dólar por meio da política monetária (política de juros), função que passou a exigir grande credibilidade.

O primeiro presidente do Fed a assumir a nova tarefa foi o economista Paul Volcker, gigante não só pela sua estatura (2,03 m), mas pelo que fez. A inflação dos Estados Unidos disparara em consequência dos dois choques do petróleo dos anos 70, e Volcker, contra tudo e contra todos, não vacilou em catapultar os juros à altura nunca vista dos 20% ao ano. Provocou forte recessão, mas derrubou a inflação e construiu a credibilidade do Fed.

Greenspan, que veio em seguida, herdou a reputação e a reforçou com sua atuação. Ficou no cargo nada menos que 18 anos consecutivos, sob quatro presidentes da República.

Ele cometeu lá os seus erros, mas foi instrumento chave na conquista da autonomia do Fed. Foi um Temístocles na batalha contra a influência dos políticos, que adoram gastar e não gostam de juros altos.

Amanhã tem mais.