sexta-feira, 26 de junho de 2026

Alan Greenspan teve lá seus erros, mas foi instrumento chave na conquista da autonomia do Fed, Celso Ming, OESP

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Pois um certo originário da então pouco notável ilha de Sérifos (Arquipélago das Ciclades, no mar Egeu) ousou dizer então que ele só era Temístocles porque tinha nascido em Atenas. E Temístocles: “Dizes a verdade. Nem eu seria famoso se fosse de Sérifos, nem tu, se fosses de Atenas”.

Greenspan morreu aos 100 anos na madrugada desta segunda-feira. Não foi famoso apenas porque pilotou o Fed, o banco central dos Estados Unidos, mas também porque foi o competente Greenspan nas circunstâncias pelas quais passou então o Fed.

Alan Greenspan ficou no cargo de presidente do Federal Reserve por 18 anos consecutivos, sob quatro presidentes da República
Alan Greenspan ficou no cargo de presidente do Federal Reserve por 18 anos consecutivos, sob quatro presidentes da República Foto: Lauren Victoria Burke/AP Photo

Não se pode entender nem o Fed nem Greenspan sem avaliar o impacto e as consequências da decisão do presidente Nixon em 1971, de desatrelar o dólar do ouro.

O acordo de Bretton Woods (1946) havia definido que o governo dos Estados Unidos entregaria uma onça troy de ouro (31,1 gramas) para cada US$ 35 dólares que lhe fossem apresentados. Como o governo dos EUA gastou dólares demais na Guerra do Vietnã, o presidente da França, então Charles de Gaulle, assessorado pelo economista Jacques Rueff, passou a trocar compulsivamente dólares por ouro. Como as reservas de ouro dos Estados Unidos corriam o risco de se esgotar, Nixon acabou unilateralmente com a conversibilidade do dólar ao ouro. Assim, a moeda dos Estados Unidos passou a oscilar em relação ao ouro e às outras moedas, de acordo com a lei da oferta e da procura. (Hoje, o ouro é negociado por mais de US$ 4 mil por onça troy, mas, no auge da guerra do Irã, chegou a ultrapassar os US$ 5 mil).

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Enquanto se manteve o padrão ouro, o dólar não precisava de xerife para protegê-lo. O dólar era ouro, e ouro não precisa de defesa contra a corrosão inflacionária. Foi a partir daí que o Fed teve de atuar não mais para entregar ouro por dólar (e vice-versa), mas para garantir o poder de compra do dólar por meio da política monetária (política de juros), função que passou a exigir grande credibilidade.

O primeiro presidente do Fed a assumir a nova tarefa foi o economista Paul Volcker, gigante não só pela sua estatura (2,03 m), mas pelo que fez. A inflação dos Estados Unidos disparara em consequência dos dois choques do petróleo dos anos 70, e Volcker, contra tudo e contra todos, não vacilou em catapultar os juros à altura nunca vista dos 20% ao ano. Provocou forte recessão, mas derrubou a inflação e construiu a credibilidade do Fed.

Greenspan, que veio em seguida, herdou a reputação e a reforçou com sua atuação. Ficou no cargo nada menos que 18 anos consecutivos, sob quatro presidentes da República.

Ele cometeu lá os seus erros, mas foi instrumento chave na conquista da autonomia do Fed. Foi um Temístocles na batalha contra a influência dos políticos, que adoram gastar e não gostam de juros altos.

Amanhã tem mais.

Na prática a teoria colapsa, Helio Schwartsman, FSP

 Hélio Schwartsman

São Paulo

A ala do STF contrária à criação de um código de ética para a corte tem razão ao afirmar que, em princípio, tal diploma não seria necessário, uma vez que regras de conduta para juízes já estão fixadas na Lei Orgânica da Magistratura, a Loman. A Loman, vale lembrar, é uma lei complementar, hierarquicamente superior a qualquer forma legal que um código de ética poderia assumir. Se a tese desse grupo de ministros é robusta na teoria, não é necessário mais do que rápida visita ao mundo real para constatar que, na prática, ela colapsa.

A Loman, em seu artigo 36, III, veda ao magistrado "manifestar, por qualquer meio de comunicação, opinião sobre processo pendente de julgamento, seu ou de outrem, ou juízo depreciativo sobre despachos, votos ou sentenças, de órgãos judiciais". Na última segunda (22/6), Gilmar Mendes, o expoente-mor da ala anticódigo do STF, foi ao programa Roda Viva, isto é, a um meio de comunicação, e deu repetidas declarações que violam todas as vedações do 36, III. Ao longo de 90 minutos, Mendes comentou casos que tramitam no STF, criticou colegas e atacou decisões por eles tomadas.

Homem de meia-idade com óculos e terno azul escuro sentado, gesticulando com as mãos durante entrevista em estúdio com fundo neutro.
O ministro do STF Gilmar Mendes durante entrevista do programa Roda Vida da TV Cultura

Não dá para dizer que Mendes aja irracionalmente. Embora a Loman valha para todos os magistrados e preveja sanções para quem a viole, no caso do STF, as punições são na prática inaplicáveis, já que a corte não se sujeita ao CNJ. Vale observar que não é só Mendes e não foi só agora. Há décadas ministros do STF ignoram o princípio segundo o qual o juiz só fala nos autos e vêm testando carreira alternativa como comentaristas políticos.

O problema é que as pessoas estão vendo. A percepção de que ministros do STF agem com motivação política, agravada pelas suspeitas de corrupção no caso Master, já fez o prestígio da corte escoar pelo ralo. Se o STF não fizer nada para salvar a própria imagem, o que passa pela adoção de um código de ética, é questão de tempo até que algo aconteça. Não prevejo uma revolução anti-STF, mas um impeachment de ministro me parece viável e até provável.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Beto Sicupira e filho de Jorge Lemann são alvo da PF em ação sobre fraude de R$ 54 bi da Americanas, OESP

 Por Fausto Macedo e Felipe de Paula

Atualização:

A Polícia Federal deflagrou, na manhã desta quinta-feira, 25, a segunda fase da Operação Disclosure, que busca aprofundar as investigações sobre as fraudes contábeis estimadas em R$ 54 bilhões nas Lojas Americanas. Entre os alvos dos mandados de busca e apreensão estão o empresário Beto Sicupira e Paulo Alberto Lemann, filho de Jorge Paulo Lemann, ambos ligados ao grupo controlador da varejista. A operação também atinge executivos dos bancos Itaú, Bradesco e Santander, além de ex-integrantes do conselho de administração da companhia.

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Após a ofensiva da PF, a Americanas informou que “seguirá colaborando com as investigações” e afirmou ser “a maior interessada no esclarecimento dos fatos”. O Santander declarou que “está ao lado das partes prejudicadas na apuração das fraudes”. Já o Bradesco disse que acompanha a operação e que está à disposição das autoridades.

A reportagem pediu manifestação do Itaú e busca contato com a defesa de todos os alvos da investigação. O espaço está aberto para manifestação.

Segundo as investigações, os alvos desta segunda fase da Operação Disclosure teriam conhecimento das fraudes contábeis praticadas ao longo de anos pela varejista.

As irregularidades estariam relacionadas às operações de risco sacado - modalidade de crédito utilizada para antecipar pagamentos a fornecedores por meio de instituições financeiras - e ao registro de contratos de verba de propaganda cooperada (VPC) sem respaldo econômico suficiente para justificar sua contabilização.

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Carlos Alberto Sicupira
Carlos Alberto Sicupira Foto: Expert/XP

Na ação de hoje, policiais federais cumprem nove mandados de busca e apreensão, incluindo buscas pessoais, nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. A 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro também determinou o sequestro de bens e valores em nome dos investigados até o limite de R$ 54 bilhões.

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Os alvos da Polícia Federal na segunda fase da Operação Disclosure:

  • Alexandre Abdo — executivo do Santander
  • André Almeida — executivo do Santander
  • Carlos Alberto Sicupira — controlador da Americanas
  • Carlos Henrique Villela Pedras — executivo do Bradesco
  • Eduardo Saggioro — ex-integrante do conselho da Americanas
  • Gustavo Balassiano — executivo do Itaú
  • José Rudge — executivo do Itaú
  • Paulo Alberto Lemann — ex-integrante do conselho da Americanas e filho do controlador Jorge Paulo Lemann
  • Sérgio Rial — ex-presidente do Santander e ex-CEO da Americanas
Fraude de R$ 54 bi das Lojas Americanas faz PF cumprir buscas e investigar manipulação de mercado
Fraude de R$ 54 bi das Lojas Americanas faz PF cumprir buscas e investigar manipulação de mercado Foto: Pedro Kirilos/Estadão

As apurações apontam indícios, em tese, dos crimes de manipulação de mercado e associação criminosa.

‘Maior interessada no esclarecimento dos fatos’, alega Americanas

“A Americanas informa que não foi alvo de mandados de busca nesta manhã e que a Operação Disclosure realizada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal se refere à fraude revelada em 2023. A Companhia seguirá colaborando com as investigações e é a maior interessada no esclarecimento dos fatos.”

Estamos ‘ao lado das partes prejudicadas’, diz Santander

“O Santander informa que está ao lado das partes prejudicadas na apuração das fraudes envolvendo a Americanas e segue colaborando com as autoridades competentes, como tem feito desde o início das apurações. A instituição reitera seu compromisso com a ética, a transparência e o estrito cumprimento da regulamentação em suas operações.”