terça-feira, 17 de março de 2026

Em momento de explosão imobiliária, São Paulo vira capital da demolição, FSP

São Paulo

Construída na segunda metade do século 20, São Paulo está vindo abaixo. Uma notícia recente de um prédio tombado que tem grandes chances de virar entulho é o da Escola Panamericana de Artes e Design, na avenida Angélica, em Higienópolis. A proprietária do imóvel pediu seu destombamento alegando que ele não tem relevância arquitetônica, urbanística ou afetiva.

Apesar do Conpresp (Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de São Paulo), na semana passada, ter adiado qualquer decisão sobre o caso, o prédio projetado pelo arquiteto Siegbert Zanettini corre o risco de ceder lugar para um grande edifício, seguindo a tendência que se intensifica na capital.

A imagem mostra o interior de um edifício em ruínas, com paredes parcialmente derrubadas e entulho espalhado pelo chão. Há uma escada de tijolos visível, levando a um andar superior, e uma parede amarela ao fundo. O ambiente parece desolado e em processo de demolição.
Casa sendo demolida na rua Mateus Grou, 100, no quadrilátero Vilas do Sol, em Pinheiros - Rafaela Araújo/Folhapress

Só no ano passado, a Prefeitura de São Paulo concedeu 3.824 alvarás de demolição, o que dá uma média de 10,5 imóveis desaparecendo por dia. É um recorde histórico diretamente associado ao apetite das incorporadoras e construtoras. O número representa um crescimento de 10% em relação a 2024.

O prédio da Escola Panamericana é só um exemplo. Os principais alvos dessa destruição programada são casas térreas, sobrados e pequenos edifícios antigos em bairros valorizados como Pinheiros, Vila Mariana, Mooca, Lapa, Santo Amaro e áreas próximas das estações do metrô.

Para efeito comparativo, entre 1997 e 2012, a média de imóveis demolidos por dia era de dois, levando em consideração os alvarás emitidos. Em pouco mais de uma década, o número quintuplicou, o que tem levado a uma transformação vertiginosa da paisagem urbana.

Vista de baixo para cima de um edifício com estrutura metálica vermelha e elevadores externos cilíndricos em verde e azul. O céu azul com nuvens ao fundo destaca o design industrial e futurista da construção.
Prédio sede da Escola Panamericana de Arte, na avenida Angélica, está ameaçado de demolição - Antônio Sagessi/Divulgação

Diante desse quadro, o Tribunal de Justiça de São Paulo, a partir de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade movida pelo Ministério Público, suspendeu liminarmente a emissão de novos alvarás de demolições, obras e de supressão de vegetação na cidade por causa de incongruências na Lei de Zoneamento, revista em julho de 2024.

Na última sexta-feira (13), a prefeitura apresentou um pedido de reconsideração da liminar, que não foi aceito por carecer "de qualquer respaldo no regramento processual vigente". A Câmara Municipal recorreu ao STF, alegando que a decisão do tribunal "paralisou o setor da construção civil em São Paulo".

A interferência judicial veio a calhar. Embora haja resistência de moradores à destruição em certas regiões, como a Vilas do Sol, em Pinheiros, e a Chácara das Jabuticabeiras, na Vila Mariana, ela é pontual e não consegue se alastrar por toda a cidade e fazer frente às vantagens financeiras oferecidas pelas incorporadoras aos donos dos velhos imóveis. Uma boa parte deles está disposta a se desfazer de suas propriedades, colocar um bom dinheiro no bolso e a mudar de endereço.

O movimento de demolição está diretamente atrelado a falhas identificadas pelo Ministério Público na Lei de Zoneamento. Mas também pesa a falta de terrenos vazios na metrópole e a grande valorização do metro quadrado em algumas áreas.

Quatro pessoas em fila seguram cartazes com a frase 'CHEGA DE PRÉDIOS' em letras maiúsculas. Ao fundo, há um caminhão amarelo estacionado e construções residenciais visíveis.
Moradores da Vila Mariana protestam contra a pressão das incorporadoras para a compra de casas - Karime Xavier/Folhapress

Demolição e construção caminham lado a lado. São Paulo passa por um momento de explosão imobiliária e para cada conjunto de casas que desaparecem um ou mais prédios sobem, aumentando a verticalização e o adensamento populacional em várias regiões, o que não é necessariamente ruim. O problema é a velocidade e a falta de limites dessa mudança.

Seria desejável que houvesse mais áreas de preservação, como são os Jardins, por exemplo. A percepção atual é de que se perde qualidade de vida e uma parte importante da história arquitetônica da cidade está sendo sumariamente apagada. Diante desse cenário, a decisão do tribunal é muito bem-vinda.

Vilas que contam a história da cidade estão desaparecendo, bairros que pareciam cidades do interior ganham ares cosmopolitas e espaços de memória caem no esquecimento. Estabelecimentos comerciais que faziam parte da rotina e da história da vizinhança também deixam de existir. Se nada for feito, a maior parte das tentativas de resistir ao avanço das demolições vai se transformar em saudosismo.

Super-atletas, FSP

 Marcus Campos

Professor da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp

Bruno Gualano

É professor do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da USP. Também é autor de 'Bel, a Experimentadora'

Idealizado pelo australiano Aron D’SouzaThe Enhanced Games (Jogos Aprimorados) é um evento esportivo no qual o doping não apenas é permitido, mas incentivado. A organização compensa com US$ 1 milhão (cerca de R$ 5,2 milhões) cada atleta que bater um recorde mundial. Atletismonatação e levantamento de peso compõem a edição inaugural, em maio de 2026, em Las Vegas. Além de super-humanos, os Jogos prometem gerar boas discussões éticas e científicas.

D’Souza e seus acólitos são críticos das políticas da World Anti-Doping Agency (WADA). Primeiro, por restringirem o potencial inalienável do homem de ser a melhor versão de si, com o auxílio de todas as ferramentas disponíveis para isso (leia-se doping). Segundo, porque o controle de doping seria uma miragem: por mais que os protocolos de detecção tenham avançado sobremaneira nas últimas décadas, o desenvolvimento de drogas novas e não rastreáveis sempre estaria um passo à frente, impossibilitando uma competição verdadeiramente limpa.

A imagem mostra um braço musculoso de um homem, com a pele exposta e bem definida. Ele está segurando uma seringa, apontando-a para o próprio braço, como se estivesse prestes a se injetar. O fundo é de cor escura, destacando a musculatura do braço e a seringa.
The Enhanced Games (Jogos Aprimorados) estimula o uso de drogas para melhorar a performance esportiva - Zamuruev/Adobe Stock

É possível conceder algo a esse argumento. Há evidências de que o número de atletas que admitem, anonimamente, se dopar é superior ao número de casos detectados pelas agências de controle. Daí se segue que, em alguma medida, a trapaça tem feito parte do esporte. Com a abertura ao doping, todos competiriam em igualdade de armas.

Restaria o contra-argumento de que o doping impõe riscos à saúde do atleta, e por isso, sua permissão seria incabível. Aparentemente, é um bom ponto, mas que perde força na medida em que distanciamos o esporte de uma visão romanesca de arquétipo de saúde.

Atletas de ponta estão frequentemente sujeitos a treinamentos extenuantes, dietas rigorosas, estresse psicológico, dor e lesões rotineiras. Em modalidades como o boxe e o MMA, a vitória advém de ferir o adversário a ponto de que este não consiga mais competir. Esses traços lembram que a saúde não é o enfoque do esporte de elite; por isso, o uso de substâncias dopantes, ainda que arriscado, não seria estranho nesse contexto.

Mas o negócio do Enhanced Games não é a elite do esporte. Esta é mera vitrine para mercadorias valiosas em nossos dias: o bem-estar e o desempenho. A empreitada, patrocinada por anarcocapitalistas, tecnolibertários e transumanistas, entre os quais Donald Trump Jr., tem como visão "criar o movimento científico, cultural e esportivo definitivo que evolua com segurança a humanidade para uma nova super-humanidade". Aos candidatos a super-humanos, oferece "uma linha premium de soluções baseadas em evidências científicas, projetadas para aumentar força, energia e longevidade". O elixir? Anabolizantes e suplementos.

Ocorre que a ciência não avaliza nenhuma forma segura de uso de testosterona, nem mesmo sob supervisão médica. Quem busca nos anabolizantes a imortalidade acaba por apressar o seu oposto. Quanto aos suplementos, vale a máxima: se funcionam, provavelmente são proibidos; se não são proibidos, provavelmente não funcionam.

O leitor ainda disposto a navegar pelo site do evento e compartilhar algumas informações pessoais com o robô interlocutor sairá com uma prescrição anabólica para chamar de sua —mediante pagamento. Assim, a esperança num Übermensch de Nietzsche se desfaz na vulgaridade de um marketplace de verniz futurista.

Embalado pelo desejo humano de eterno aperfeiçoamento, o Enhanced Games é obra da indústria cultural —hábil em embalar como novidade mercadorias requentadas. O evento é mais um a acotovelar-se na prateleira dos esportes em que o doping é estrutural —como no fisiculturismo— ou recorrente, como no Ultimate Fighting Championship (UFC) e na National Football League (NFL). O recorde que lhe importa bater é o de lucro dos congêneres.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Gostar do nosso país não significa gostar de quem fala em seu nome, João Pereira Coutinho, FSP

 É uma grande alegria —e uma grande tristeza– assistir a um documentário como "Mr. Nobody Against Putin", de David Borenstein e Pavel Talankin. Mas quem quiser compreender o autoritarismo pós-moderno terá de passar por ele.

Chamo-lhe autoritarismo pós-moderno por uma razão simples: longe vão os tempos em que regimes totalitários exigiam controle absoluto ou adesão total das populações. Essa ambição jaz hoje entre ruínas. O poder aprendeu. Tornou-se mais econômico, mais ambíguo, mais sutil.

O controle é parcial, não total. A vigilância é difusa, não ostensiva. A autocensura é mais importante do que a censura clássica.

Cena do filme “Mr. Nobody Against Putin” em que várias crianças usam acessórios adultos, como toucas de enfermeira e quepes militares.
Angelo Abu/Folhapress


O novo autoritarismo não precisa de entusiasmo totalitário, nem de terror permanente, muito menos de uma ideologia sistemática. Precisa apenas de um verniz de normalidade e de adaptação social.

Também na propaganda houve uma evolução. Já ninguém espera um nazista como Joseph Goebbels ou um fascista como Alessandro Pavolini gritando palavras de ordem pelo rádio ou em praça pública.

A lavagem cerebral deixou de depender da monumentalidade artística, do entusiasmo coreografado ou da repetição de slogans fervorosos. Não se impõe uma crença total; basta dissolver lentamente a capacidade de distinguir entre verdade e narrativa.

Neste mundo, a propaganda não cria fanáticos. Cria conformistas. Não procura transformar radicalmente a natureza humana –a velha ambição utópica. Basta reorganizar lentamente o cotidiano, fragmentando a sociedade e isolando consciências.

É neste contexto que surge Karabash, o palco do documentário. No mapa, é uma terra insignificante: 10 mil habitantes perdidos em algum lugar nos Montes Urais. A esperança média de vida mal chega aos 38 anos. Vou escrever novamente, por extenso, para não haver dúvida: trinta e oito. A poluição explica esse recorde: há uma indústria pesada de fundição de cobre na cidade que vai semeando doença e sofrimento.

Pavel Talankin em cena de 'Mr. Nobody Against Putin', documentário de David Borenstein indicado ao Oscar
Pavel Talankin em cena de 'Mr. Nobody Against Putin' - Divulgação

Mas a vida segue. Pasha Talankin, professor do ensino médio, gosta do seu pequeno mundo. Gosta dos alunos. Gosta de filmar as cerimônias escolares, como quem preserva a normalidade num frasco.

Até fevereiro de 2022.

A invasão da Ucrânia muda tudo —e muda sobretudo a escola. Como Vladimir Putin declara na televisão, as guerras não se ganham apenas com generais; ganham-se com professores disponíveis para educar as crianças e os adolescentes nas virtudes da "operação militar especial".

Voluntários para o serviço não faltam —e a guerra entra na sala de aula servida em eufemismos: "desmilitarização", "desnazificação". Mentiras e mais mentiras —"ordens de cima", alguém diz, encolhendo os ombros— que Pasha filma, incrédulo, enojado.

Os menores cantam o hino nacional e desfilam em paradas simbólicas, prestando juramento à bandeira e ao regime.

Os mais velhos têm o recrutamento ao virar da esquina —e até o grupo de mercenários Wagner faz uma aparição para os convencer.

Muitos dos alunos de Pasha cedem ao apelo. Raspam o cabelo, despedem-se das famílias como sonâmbulos que marcham rumo ao abismo. Alguns acreditam que a experiência compensa financeiramente.

Pasha sabe que não compensa. Continua filmando: a escola que se esvazia, os alunos que não regressam, suas próprias vigílias noturnas. A câmera se transforma num diário moral.

Um traidor, ele, por contestar o regime?

Não. Apenas o "ninguém" do título, que, apesar da sua condição anônima, consegue distinguir o amor à Rússia do amor a Putin. Gostar do nosso país, mesmo com todos os seus defeitos, não significa gostar de quem fala em seu nome. Uma distinção simples, mas cada vez mais rara, mesmo em democracias.

Que os outros sejam incapazes de vê-la, eis um problema que se vai adensando –até Pasha, sob suspeita, optar por fugir da Rússia levando com ele horas e horas de filmagens heréticas.

A história de Pasha poderia ser ficção —e talvez por isso o cinema contemporâneo tenha voltado a interessar-se tanto pelo impacto do autoritarismo sobre a vida das pessoas comuns. No Oscar deste ano, dois filmes foram exemplares ao tratar do tema: "O Agente Secreto" e "Foi Só um Acidente", do iraniano Jafar Panahi.

Mas "Mr. Nobody Against Putin", vencedor do Oscar de melhor documentário, tem a vantagem de ser um retrato real, imediato, alguns diriam amador, sobre um homem comum que se recusou a viver na mentira. Um zé-ninguém? Precisamente. A liberdade sempre sobreviveu graças a eles.